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A Ilusão Democrática


Sobre a Ilusão Democrática Liberal

O cinismo dos países ocidentais chega ao absurdo quando o discurso proferido refere-se a processos e transições democráticas, salvaguardados pelo tom e pela dádiva do “ensinamento”, patriarcado que cuida dos mais necessitados: os países excluídos do eixo imperialista. É explicitamente visível o grau de prevalescência cultural pela qual chefes de estado utilizam quando se trata de acordar relações políticas e econômicas. Esse grau de pretensa superioridade possui raízes muito antigas, que podem ir desde a conquista da Gália pelo Império Romano. Quando o elemento militar está acima daquele pela qual se esnoba, é culturalmente praticável a política de assunção por liderança ou potência mundial, que tende a atravessar percursos que, na maioria das vezes, são geralmente arbitrários e refutáveis.  A antiga e preconceituosa classificação de 1º, 2º e 3º mundos retrata a representação bizarra do contraste entre a ilusão dos grupos que são privilegiados e daqueles que são subservientes às suas políticas, neste caso, a maioria.

A imagem de “Terceiro Mundo” também está vinculada à idéia das nações não-evoluidas, no sentido progressista do termo, ou “atrasadas socialmente”, em contraposição às industrialmente avançadas. A hegemonia do discurso do sucesso industrial que se acentuou depois da Revolução da Máquina de Vapor, ofereceu uma universalização de conceitos sociais amplos. O imperialismo monopolista e coletivo, leva o estandarte do sistema ideal de sociedade, que negligencia as relações dinâmicas que estão presentes em minorias locais, como etnias, mercados próprios, tradições sociais, etc. Porém, uma das marcas mais significativas desse processo de homogeinização do mercado ativo sobre a identidade dos povos, é a supervalorização étnica, elas sendo brancas, através da midiatização da superioridade científica-tecnológica. Com a fragmentação da União Soviética, esses termos passaram para o senso comum das mentes das massas.

É demasiado penoso não pensar que “1º Mundo” e “2º Mundo” sempre foram uma ilusão. Nos países do Norte industrializados, a imagem de que pela livre iniciativa, todos podem ter acesso à riqueza pela qual o sistema está fundamentado é tão ilusória quanto aquela realidade que parece ser única. É o capital fictício, ou a supervalorização do fetiche. A insustentabilidade da exploração já é gritante há séculos e o entedimento para o futuro do capitalismo está estampado na tragédia humana, em um mundo artificialmente gerado por ilusões. A máscara da democracia liberal, da representatividade, revelada ao líquido, fundamenta-se com a “crise” epistemológica da atualidade. Enquanto a retórica pós-moderna nos ilude com uma abstrata imparcialidade sobre as lentes da realidade concreta, o discurso democrático liberal não transcende nada além da inação do indivíduo. Democracia e pós-modernismo, ambos de mãos atadas. Objetos falíveis de sustentabilidade.

O esfacelamento dos sermões

Toda revolução traz sua surpresa, que consiste na impossibilidade de prever as consequências. No caso dos países árabes, especificamente do norte africano, as grandes potências não puderam prever a ação consciente das massas que derrubaram do poder dois presidentes em menos de dois meses. O discurso do conservadorismo e da omissão atestavam para a permanência dos dirigentes do poder, e no começo do ano, jamais imaginariam um levante que conclamaria pela cabeça da medusa, que com ela obteria seus benefícios. Para os europeus e estadunidenses, Marrocos, Tunísia e o Egito são apenas estações permanentes de veraneio turístico, o balneário da Europa. Não puderam prever que séculos de exploração tirânica acumulados debaixo do tapete do “pacto social”, pudesse um dia acordar o vulcão.

 

Essa soma se fez de dentro para fora, cujos gases e dejetos refletiram o que as massas exploradas de jovens desempregados e trabalhadores de baixíssima renda, estavam submetidas. A tensão gerada fez tremer os solos vizinhos, e as consequências foram inevitáveis. Fome, miséria, falta de empregos, impossibilidade da mobilidade social, ausência de liberdade de expressão, indignação com o sistema político vigente, somaram camadas de matéria que explodiram nas ruas das cidades árabes.

Por que no início do século XXI e não antes, uma pergunta que paira no cenário histórico desses países? É verdade que mesmo na grande maioria do povo encontram-se milhares de pessoas destituídas de instrução, o alto grau de senso político e percepção da realidade foram suficientes para emergir um sentimento coletivo que não pôde ser controlado mais pelo Estado. O alto grau de indignação foi uma bofetada no rosto do sistema de exploração arcaicos.

Numa época em que milhões têm acesso à televisão e à internet, em que as pessoas estão cientes do luxuoso estilo de vida dos ricos, a impossibilidade de escapar de uma pobreza opressiva e do desemprego torna-se crescentemente intolerável. Assim, nos países árabes do continente africano e do Oriente Médio, uma gigantesca onda de revoltas contra o status quo retumbou os pilares da democracia e pôs em cheque a significação dos processos decisórios dos Estados. As manifestações foram tomadas por intelectuais, classe média consumidora e por uma larga gama de desempregados que vivem às margens da miséria, tudo isso unido ao rancor milenar de sistemas de opressão, teocráticos e oligárquicos.

As nações (os países-corporações capitalistas) mais ricas entraram em catarse à impossível tese profética de que nos tempos atuais, populações em massa em espaço algum, teriam como se sublevar. Todos eles (e nós, reprodutores do senso comum) não poderíamos prever e crer que levantes populares de todos os setores da sociedade proclamassem em uníssono um “Chega!” tão forte. Os estadistas não podem deixar que estas “crises” ou “acomodações da democracia” possam usurpar a harmonia mundial. O fato de imaginar não poderem controlar e vigiar os mecanismos que regem as expressões das massas tornou-se o maior pesadelo no início desta década. O Egito hoje? El Baradei, prêmio Nobel da Paz será, segundo fontes egípcias, provavelmente o próximo presidente egípcio. As ações de desobediência civil, são agora aconselhadas a baixarem a poeira, dando lugar ao diálogo, em vez da retomada do poder popular insurgente nas ruas, que com vitória puderam depor do palanque um ditador há 30 anos.

Na Tunísia, na Espanha, Jordânia, Argélia, a mesma estratégia “democrática” para uma saída honrosa dos tiranos para a chegada dos divinos representantes do povo. A grande massa que exigia sem armas a queda das ditaduras, agora dorme nas Praças Tahrir tranquila de que um novo soberano com belos ideais fará crescer a estima de continuar vivendo. Sem armas, sem violência, entorpecidos pela nova democracia, o novo brinquedo. Como rapinas, os partidos e sindicatos rapidamente elegem seus representantes, desvinculados àqueles que levaram tiros à queima roupa, justamente porque protestavam contra a incapacidade de comprar pão. “Voltem para casa, seus lares, sem mais violência”, “em ordem e pacificamente”, “vocês venceram”, dizem de cima.

Enquanto a Al Jazeera retratava uma cena de um cartaz “a Jordânia não é somente para os ricos (…) o pão está fora do nosso alcance (…) tenham cuidado com a nossa fome e a nossa fúria”, muitas greves paralisaram quase que inteiramente o Egito que não foram publicizadas pela grande mídia. Qual é a atual perspectiva para uma nova transformação radical nos países árabes? Esta pergunta primeiro serve para nortear as divisas históricas e contextuais daqueles países, diferentemente de outros continentes. Em medida, os “avanços” contra a teocracia e as ditaduras militares são grandes ganhos de uma longínqua estrada rumo ao mundo da “sociedade ideal”, porém esta visão ainda é carregada de parcialidade ocidental. Críticos analisam que os mesmos mecanismos sociais não funcionam e não são análogos com os do Ocidente, por isso, não poderia se projetar em escala futura, prognósticos sobre estruturas políticas ideais, ou quais seriam os caminhos percorridos até chegarem a elas.

A esquerda em geral nos países árabes demonstra e tem demonstrado estar amplamente desarticulada, fato que a maioria dos levantes não foram organizados pelos setores partidários. As massas tiveram em suas mãos, por instantes, vislumbres breves de sua força e capacidade real. E agora, o que fazer e para onde ir? Cada trabalhador tende a voltar para a sua casa com a mente satisfeita de ter sido parte de uma revolução histórica para seu povo, realizado por meios justos. Cada um com seus sonhos. Mas e a realidade pós-“revolução”? A democracia foi instaurada, substituída, confiada. O grande capital agora está livre para encher as ruas de consumidores novos e vorazes, o Estado novo garantirá os dividendos com os menos favorecidos, num simulacro de bem-estar social e crescimento econômico.

A Cartilha Revolucionária da Tunísia

Esta cartilha foi divulgada nas semanas seguintes à apresentação das prováveis candidaturas de cargos presidenciáveis para o país, tendo como principal imagem, Ben-Ali. Note-se o teor altamente revolucionário do panfleto e a identificação com a autogestão dos trabalhadores tunisianos:

“O povo da Tunísia não é formado por tolos ou crianças de colo que se deixam adormecer com palavras hipócritas. Não deve desmobilizar-se e sim, pelo contrário, tem que intensificar a mobilização e dar-lhe uma expressão organizada e generalizada. Não deve dar nenhum fôlego aos restos do antigo regime. Não deve permitir que estes bandidos reorganizem uma nova versão “democrática” do velho regime. O tempo das palavras já passou há muito. Não mais intrigas! Abaixo o Governo! Fim imediato do estado de emergência! Plena liberdade de reunião, organização e de expressão! Por uma Assembleia Constituinte Revolucionária! Pela dissolução imediata de todos os órgãos repressivos e julgamento popular dos assassinos e torturadores!
Para conquistar essas reivindicações, deve-se organizar uma greve geral a nível nacional. A classe operária é a única força que tem o peso necessário para derrubar o antigo regime e reconstruir a sociedade de cima a baixo. O proletariado deve colocar-se à cabeça da sociedade. Essa é a única saída possível. A convocatória de uma greve geral já encontrou eco nas agrupações locais da UGTT. Segundo alguns informes, já ocorreram várias greves gerais em algumas regiões na semana passada (Kasserine, Sfax, Gabes, Kairouan e Jendouba). Visando preparar uma jornada de greve geral, devem ser formados Comités de Greve em todos os níveis: local, regional e nacional. A própria vida nos ensina que a única forma de obter a liberdade e a justiça é através da acção directa das massas. Na Tunísia, a questão do poder coloca-se abertamente. É necessário organizar e mobilizar todo o povo para propiciar o derrube decisivo do antigo regime. Também há informes de que estão a estabelecer-se Comités de Autodefesa nos bairros. Os trabalhadores devem confraternizar com os soldados que estão do seu lado. Deve-se fazer um apelo às fileiras do exército para que se formem comités de soldados vinculados ao povo. Os operários e camponeses devem conseguir armas para sua própria defesa e estabelecer uma milícia popular em cada fábrica, bairro e povoado, para manter a ordem e se defender dos bandidos e contra-revolucionários. Isso é crucial para o êxito da revolução.”

Talvez semelhante ao processo revolucionário em 1917 na Rússia, onde as camadas mais pobres da população exigiram a saída do poder dos czares, e posteriormente “direcionada” pelos bolcheviques – diferentemente, no caso da Espanha em 1936 -, a “revolução” árabe tenha sido tão supervalorizada. O pensamento crítico das massas precisaria estar em contínuos avanços, junto com o papel dos movimentos sociais reinvidando constantemente sua força social.

Historicamente, a trajetória do socialismo libertário e do comunismo estatal nos países árabes não foram excepcionalmente vinculados a vitórias. A própria noção de fundamentalismo islâmico anti-imperialista, deve-se tomar precaução em mesclar identidades antagonicamente díspares entre si. O marco desse abismo ideológico coube muito bem a tarefa do stalinismo em todos esses países. Somente depois dos acontecimentos de 2011, é que podemos prever ou entender o quão significativo foram estas desenraizamentos profundos no imaginário popular, que marcará futuras gerações. E que essas gerações possam usufruir de indivíduos e grupos cada vez mais atuantes no cenário árabe, relativizando o conhecimento das experiências de autogestão e críticas ao capitalismo globalizado.

Chamada para autores Dossiê Comunas, Conselhos, Autogestão e Autonomia: memória histórica e análise sociológica.


O Comitê Editorial da Revista Eletrônica EM DEBATE, do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC-BRASIL), torna público que no período de 30 de maio a 1º de julho de 2011 receberá artigos científicos para publicação em seu número 6, referente ao segundo semestre de 2011.

Este dossiê tem por objetivo reunir artigos de autores que pesquisem as formas de organização que os trabalhadores instituem a partir de seus movimentos antisistêmicos sob os mais variados aspectos, em diferentes sociedades e contextos. Serão admitidos trabalhos de diferentes orientações teórico-metodológicas. Em especial pretende-se acolher estudos que, sob parâmetros sociais, ideológicos, institucionais e econômicos, analisem experiências de auto-organização em confronto com regimes políticos estabelecidos – tanto no capitalismo moderno e contemporâneo, quanto em sociedades pré-capitalistas – em seus impactos para a processualidade de movimentos de contestação em prospectiva.

Além do dossiê, a revista aceita, em fluxo contínuo, trabalhos relacionados às suas 10 áreas temáticas nas modalidades “artigos”, “resenhas”, “traduções” e “entrevistas”.
Serão aceitos apenas trabalhos inéditos, em língua portuguesa ou espanhola.

Mais detalhes acerca do processo de submissão e linha editorial podem ser obtidos na página da revista: http://periodicos.incubadora.ufsc.br/index.php/emdebate/index,
ou pelo correio eletrônico: pmizraji@gmail.com

Os Editores.

Hillary Clinton admite que o governo estadunidense criou a Al-Qaeda


http://www.youtube.com/watch?v=ifZK6SVlQ1Y&feature=share

Interessante como isso ocorria nos boatos dos corredores, salas de aula, e sempre sendo acusados como “teóricos da conspiração”.
O fato dela admiti-lo já é muito importante, mesmo parcial assim como é. Os EUA e a CIA, assim como a Pakistani ISI nos dias de ontem organizaram as células terroristas, ou bandos contra-revolucionários no Afeganistão, do mesmo modo que a CIA fez na Nicarágua. Bin Laden estava entre estes Contra-afegãos. Há um elo fundamental entre os EUA e a Al Qaeda. Mike ressaltou: “Ela não diz que os EUA organizaram a Al-Qaeda, e que as políticas anti-soviéticas levaram o governo dos EUA a apoiar os nacionalistas teocráticos que eventualmente tornaram-se os governantes do Afeganistão, no caso o Talibã. O Talibã encontraram aliados nos teocratas não-afegãos da Al-Qaeda. “Todavia, este é um primeiro passo importante.”

Fonte: Youtube

DEMOCRATIZAÇÃO E DEMOCRATISMOS


Por Pablo Mizraji 01/07/2010

[Resumo: O processo de democratização política, na tentativa de abarcar outros setores sociais do Estado, coloca em cheque a estrutura básica da própria democracia, qual se fundamenta por princípios éticos e em geral vista sob uma idéia monolítica. Dada à hegemonia do modelo da representatividade alicerçada pelos aparatos de poder econômico e financeiro, o “véu de ignorância da política profissional” é transplantado para a nova ordem do democratismo.]

A dicotomia clássica e outras formas democracia subsistem dentro das esferas institucionais

Neste artigo, pretendo discutir o processo do sistema político tal como se organiza hoje exclusivamente baseado no modelo da democracia representativa. Sabendo de antemão a profundidade teórica do tema, procura-se levantar caracterizações e não objetivar saídas proféticas para os problemas apresentados. Propositalmente defendendo a idéia de analisar e fazer a crítica enquanto estudante de Ciências Sociais, toda forma de fazer política deve ser considerada objeto de estudo. A crítica aqui referida estará então, dentro das argumentações escolhidas para este trabalho expostas a seguir. Inicialmente busco comentar a organização do sistema político, tal como hoje se apresenta, dominado pela lógica da atual hegemonia da simplórias bipolaridades que necessariamente atravessam o viés unilateral da “prática política partidária”. Um dos autores “escolhidos” para este tema é o filósofo político italiano Norberto Bobbio que dedicou grande parte de sua obra sobre as experiências e formas das práticas políticas e suas possibilidades, visto que aproxima-se teoricamente dos conceitos e análises aqui expostos.

Num mundo político marcado por polaridades, direita/esquerda, político/não-político, partidário/apartidário, estado/sociedade e democracia/ditadura, procurar-se-ia desenvolver a prática teórica através de um modelo que seja o mais abrangente ou por uma concepção científica, que segundo Bobbio, tende a ser aquela menos profética possível. Para isto, o termo “democracia”, estará enquadrado dentro da perspectiva de teoria social ou “democracia social” (BOBBIO 1995 p. 155). É conhecida a experiência de radicalizar o processo democrático dentro do aparato estatal, mesmo com fins sociais, no sentido de engendrar o sistema de distribuição de igualdades, seja na educação, saúde, tecnologia social, comunicação, cidadania, etc. Em específico, toda radicalização política passa por uma participação de um determinado grupo ideológico ou partidos, geralmente e quase insistentemente gerados pelos movimentos sociais em suas bases.

Porém, o que pode se levar em conta é o grau de “subjetividade” existente, em nível de relações interpartidárias que, nos fluxos e refluxos, caracterizariam um sistema complexo de atividades políticas, dentro e fora do Estado: o parlamento como “intermediador” de esferas partidárias, o “quarto poder” político e a opinião pública, as escolas de formação políticas de quadros (exemplo: think tanks), oligarquias econômicas subjacentes, porta-vozes de comunidades sociais de apelo popular, entre outros.

Mas quando contrastamos este universo da institucionalidade com perspectivas de inclusão participativa nos processos decisórios, polivalências e ambiências não-tipificadas emergem da periferia para o centro. Experiências que parecem emergir com mais vigor no momento presente, como por exemplo, e em escala menor, a economia solidária, cooperativismo sócio-econômico, democracia participativa ou fóruns comunitários, orçamentos participativos, entre outros, demonstram que pode haver política social dentro da complexidade do sistema político e da existência de partidos. Mesmo que estas experiências estejam mais para o campo da democratização econômica, que criam alternativas de distribuição de riqueza, em contraponto aos projetos macroeconômicos nacionais e internacionais e/ou ainda, programas sociais de origem governamental (exemplo: “bolsa-família”, “fome-zero”, “bolsa-escola”, etc.) que sugerem um modo diferente de pensar a ação social e política por outro caminho, que não o institucional. Assim, se modelos não hegemônicos de organização social existem e atuam dentro do sistema estatal, é necessário observar em que medida que a democracia se faz presente ou até que ponto há a relação entre partidos políticos e os grupos sociais ativos. O sistema estatal político não pode ser analisado como absoluto e nem tampouco como única forma de exercício do direito a se organizar e a expressar opiniões e interesses.

Democratização ou democratismo?

O problema da democratização exercida pelo Estado, não somente barra na limitação de mandato (troca-troca de partidos de situação) como também da exposição da fragilidade em desassociar questão social de questão política. Segundo Bobbio, a gestão governamental é transformada cada vez mais num negócio para especialistas e cria-se a tecnocracia (MELLO, 2003 p. 25), a qual abre uma distância ainda maior entre o cidadão e os dirigentes. Assim ressalta a ausência de democracia pura fora dos espaços das instituições de representação propriamente ditas, seguindo uma “lógica de poder descendente e não ascendente, secreta e não pública”( MELLO, 2003 p. 25). A base da democracia participativa trata necessariamente de aproximar a capacidade de avanço democrático no interior das disputas pela ampliação aos direitos coletivos e individuais. Ao mesmo tempo, este modelo busca, por intermédio das relações de força com outros setores, a mesma lógica da democratização pela qual o Estado alega planificar. Assim, encontram-se por um lado a bandeira da democratização do Estado e de outro, a bandeira da inclusão dos grupos sociais. Porém, a pratica política exercida de baixo para cima, ou em pequenas sociedades autogeridas, o exercício de liberdade de expressão, da organização coletiva e de tomada de decisões como requisitos básicos para uma sociedade verdadeiramente democrática igualmente devem se tornar objetos de estudo mais aprofundados dos cientistas sociais e políticos, pelo menos do ponto de vista deste autor.

Em geral, a grande parcela da população de excluídos que transitam abaixo do contingente da miséria, condicionam-se passivamente a assegurar qualquer projeto assistencialista. Depois da Revolução Industrial, a “questão social” aparece como programa para minimizar os impactos do capital sobre o trabalho. Mais tarde, o Estado passa a considerar o fator crescimento econômico como um fim em si mesmo, garantindo a posse da titularidade do “bem-estar social” através de seus partidos e aliados, enquanto estiverem no governo. Essa forma de democratização ou inclusão poderia alterar a qualidade da cidadania, mesmo em medidas imediatistas, sem perspectivas de prolongar a expectativa de políticas públicas em longo prazo? O debate que soma a busca pela qualidade política empreende significativos marcos, como o dilema reformismo/revolução, revisionismo/democratização. Em cada lado, o problema da reforma apresenta-se como meras instâncias de curto prazo, reestruturações paliativas, cujos ganhos são igualmente estéreis, sendo o Estado omisso na maior parte das vezes, na utópica idéia do continuísmo, não importando se tais projetos serão atendidos.  Para o Estado, um fim em si mesmo, não ultrapassa o marco de medidas provisórias. Para o pensamento reformista, toda reforma é caracterizada como um fim.

O democratismo, originado desde a Revolução Francesa como premissa de “democratizar” o acesso à política para o povo, é fruto da tecnocracia exacerbada pela própria democratização, qual constitui um fim em si mesmo. Dito anteriormente. A existência pura e simples de direitos conquistados apenas coexiste com a exclusão social e econômica, sem, no entanto, chegarem a se efetivar em pleno usufruto.

O “quarto poder”

Com a chamada “criminalização dos movimentos sociais” recentemente, tende-se a neutralizar a ação destes órgãos políticos em razão da sua não compreensão à lógica da internacionalização. Na medida em que essa deslegitimação, promovida por setores do Estado, evidencia que o sistema democrático possibilita tanto a democratização política quanto a totalitarização. Com o intuito de descriminalizar a imagem da “política dos dirigentes” e dos corruptos, as concessões feitas pelo Estado na forma de “Estado de Bem-Estar Social”, acabou por fortalecer outro aparato decisório: a mídia. Por um lado o papel social da mídia tende a projetar uma imagem desfavorável ao “político profissional” e ao sistema democrático institucional como um todo, e por outro, acaba gerando um “quarto poder”, uma pseudo opinião pública generalizante em que unilateralmente (seja motivada por interesses pessoais, econômicos e mesmo político-ideológicos) todos os três poderes são agora formalizados pela imprensa, ou seja, são exercidos e legitimados como modus operandi político. Desta forma, agentes culturais, sociais e políticos duvidosamente são “representados” pela nova forma de cidadania televisiva. O controle social da mídia tende a evitar o enfraquecimento da democracia enquanto pluralidade e não como “opinião pública”. Aparentemente pela contínua perda dos espaços públicos, somente um modelo televisivo mostrar-se-ia eficaz. Neste caso, para uma democracia participativa integral, far-se-ia necessário uma democratização dos meios de comunicação onde através dos processos de participação direta dos indivíduos se obteria um acúmulo necessário à formação cidadã ao exercício de seus direitos.

A radicalização da democracia compreende etapas para suprir a necessidade de disputas intermediárias nas relações de forças, no objetivo de priorizar a tomada de decisões coletivas que considerem cada individuo como parte integrante nos processos decisórios. A depreciação da cultura política e a ausência dos espaços públicos para o debate, são os principais fatores que contrapõem todas as formas de democracia. Em uma esfera social que possibilite o acesso e à formação (anti-democratista) poderiam constituir determinados alicerces para o exercício pleno da cidadania.

Qualidade democrática

Bobbio parece ter dado uma visão catastrófica do por vir (destino) da democracia, porém, nos últimos anos, segundo ele, tem aumentado progressivamente o espaço dos regimes democráticos, como um aumento de ideologias e atitudes participativas que levam as pessoas a se servirem cada vez mais do repertório de direitos democráticos existentes. “O processo de alargamento da democracia na sociedade contemporânea não ocorre apenas através da integração da democracia representativa com a democracia direta, mas também, e, sobretudo, através da extensão da democratização.” No entanto, os movimentos sociais também são produtos de forças políticas que sofrem acessos e retrocessos na luta do campo estratégico. “A sociedade civil não exclui que esta sociedade seja também, em embrião, uma sociedade política diferente.” Existe a necessidade de relacionar forças com diferentes setores da sociedade (novos movimentos sociais), e de conquistar direitos imediatos e em longo prazo. Para os movimentos sociais, o objetivo político é justamente a abertura para novos canais de ligação entre a sociedade e o Estado, o que facilitaria uma redução da capacidade regulatória. Mesmo dentro dos movimentos sociais, certos processos decisórios são ainda reproduções do sistema democrático representativo, o que de certa forma, não permite o livre acesso ou debate nos espaços para o exercício de uma outra forma de cidadania. Desta forma, o ponto central sobre o estudo das forças políticas está baseado na forma – a democracia como conteúdo da estrutura. A tensão gerada pela ausência de participação efetiva da sociedade, inclusive dentro de suas instancias (movimentos sociais, associações, sindicatos, grupos políticos, etc.) tende a ser compensada pelos novos empreendimentos empíricos democráticos, experiências sociais que estão alheias às entidades cívicas. E o estudo sobre a democracia retorna novamente à raiz de suas estruturas.

As aparentes fissuras da hegemonia representativa, a crítica da intermediação profissional e o avanço pelos setores da pós-modernidade com “surgimento” de identidades fragmentadas e pintadas num mosaico colorido, alteram em muito a tentativa de classificar uma teoria generalizante. A crise na Grécia, por exemplo, país que deu origem à democracia clássica, não deve ser considerado um fato isolado, pois se deveria levar em conta que a condução de um modelo sócio-econômico amparado somente pelo Estado, pode trazer à tona o epicentro da crise, uma continuação da lógica econômica a todas as dimensões do social. Segundo Max Weber, o parlamento é a estrutura que melhor se adapta à sociedade burocratizada e a democracia só pode ser salva pela “ética da responsabilidade” exercida pelo homem político com virtudes.

Retornando para o estudo do estabelecimento de um diálogo, na dificuldade de não universalizar teorias, tento defender a necessidade de referendar diversos autores estudados durante a Teoria Política III durante este semestre que serviram de suporte e pontos centrais de indicações teóricas estimulantes.

A bibliografia analisada em parte serviu para elucidar conceitos e desenvolver determinadas argumentações expostas, seguindo material didático recomendado pela disciplina e por leituras e referências complementares.

Bibliografia referenciada

BOBBIO, Norberto. Estado, Governo e Sociedade. São Paulo. Paz e Terra. 1995

BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda. 2001. São Paulo

SANTOS, Boaventura de Souza. Democratizar a Democracia, os caminhos da democracia participativa. Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 2002.

MELLO, Sergio Candido. Norberto Bobbio e o debate político contemporâneo. São Paulo. Annablume. Fapesp 2003 p.25