Arquivo da categoria: Epistemologia do Anarquismo

Por uma nova perspectiva epistemológica ou revisão filosófica pertinente ao empirismo lógico da teoria anarquista

FARSA DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO


Por Pablo Mizraji

  1.  Introdução: descentralização e desintegração do trabalho

Jürgen Habermas advoga que a centralidade do trabalho configura-se agora em um universo residual que, de certa forma, negando o avanço do capitalismo a nível global, o importante e prioritário é observar as sociabilidades e os novos valores. Essas ópticas fazem parte do pensamento pós-modernista, cada vez mais complexificado de elementos pluralistas. Assim, a partir dos anos 70 aproximadamente, ideólogos vão analisar que, no auge das emergentes sociabilidades, convergem com o advento do personal computer, o famoso PC, ou computador pessoal. Esse item, encontrado nas lojas de informática e de eletrodomésticos, é tão emblemático quanto sua história “pessoal”. A ciência tecnológica que desenvolveu ao longo do século XX grandes máquinas para uso matemático, viagens espaciais, cria o ENIAC, modelo para uso militar durante a Segunda Guerra Mundial, além dos mainframes para as megacorporações iniciarem a construção de redes interligadas. Desta forma seria muito mais fácil controlar os negócios na Ásia sem estar “presente”. Outros defendem que a revolução tecnológica não foi o PC, mas o mouse, como uma corruptela análoga dos primórdios da humanidade quando o homem passou a usar o polegar.

Determinadas questões que deveríamos fazer é se a relação homem-trabalho e homem-máquina (o homem híbrido de Bruno Latour), de fato caracterizaria definições globais de sociedade? Crianças que trabalham em feirões, mais de sete horas, que moram nas periferias suburbanas, não tem tempo para estudar, formando exércitos de milhões de crianças e adolescentes em todo o país, América Latina, África, Ásia e também nos países do Eixo Norte, com certeza algum dia, nas suas vidas ouviram falar da maravilhosa máquina que pode se comunicar à distância. Mas isso realmente representa um salto a uma Era Digital? Não estamos realmente potencializando o discurso mercantil da megaprodução de computadores em “escala global” para colar descuidadamente sobre um rótulo social novo? O número de analfabetos reais e funcionais ultrapassa a escala de fibras ópticas espalhadas pelo mundo. Será mesmo que esta titulação de sociedade informatizada contempla, de fato, todas as outras sociedades? Com certeza os teóricos do pós-modernismo pragmático (ativistas) não poderiam responder a estas questões dado o alcance macro da análise. Seria muito mais fácil obter os elementos de estudo através daquela média categoria que consome mais propriamente os modelos de Intel, IBM e Macintosh. Se perguntássemos a um adolescente hoje o que acha do computador, ele responderia: “É legal, é divertido, podemos jogar”. Mas certamente os mesmos jovens também devem se perguntar, por que afinal não temos acesso às máquinas de jogos e outros tem com tamanha facilidade? Por que somos analfabetos funcionais e outros não? Por que alguns de nós conseguem estudar e outros não? Por que alguns de nós raramente passam no vestibular ou completam os cursos médios e outros com facilidade estão empregados?

Há uma diferença fundamental nestas questões, assinalando que mesmo o acesso “irrestrito” ao computador não evidencia de modo algum, quebra ou evolução alguma no que diz respeito a uma nova sociedade digitalizada. Poder-se-ia advogar que cultura é tudo aquilo que torna o ambiente humano transformado ou transformador, mas não necessariamente a cultura se limita aos objetos por ele inventados. Os costumes, as crenças, a arte, os símbolos, os conhecimentos são elementos culturais. As promessas tecnológicas não podem de modo algum abraçar toda a humanidade, pois são desprovidas do elemento principal que as rege: o fator humano. Os múltiplos sistemas de gerenciamento e controle dos saberes e do espaço comercial são heterogêneos mesmo entre si, obliterando o pleno desenvolvimento da informatização na “sociedade pós-industrial.” Ao contrário do novo movimento primitivista, que descarta toda evolução tecnocientífica, apesar de, considerar em suas críticas grandes verdades, convém reconhecer que se pretende apenas subtrair o discurso homogêneo da megaprodução de computadores tanto quanto exporta-lo para o pensamento social contemporâneo, como se fosse um novo paradigma.

2.      Revolução Web 2.0 e a regência do capitalismo tecnológico

Por outro lado, a revolução tecnológica de fibras ópticas – revolução, no sentido sociológico do termo, como Revolução Industrial dos séculos XVIII-XIX, com a invenção da eletricidade -, reconfigurou grande parte do mercado financeiro, tornando o capital em interconexões de capitais flutuantes. Como de costume, toda invenção é creditada a um indíviduo/empresa, e neste caso da tecnologia digital, o conhecido www (world wide web, sistema de hipermídia de informações) pertence ao físico inglês Sir Timothy Berners-Lee, que coordena a Fundação World Wide Web, o Laboratório de Inteligência Artificial, Instituto de Ciência Web e membro da Academia Nacional  de Ciências dos EUA. Lee, considerado o “pai da internet” é militante radical a favor da proteção de direitos de propriedade, conceito hoje tão atacado pelos ativistas pró-internet. Segundo Lee[1], em entrevista coletiva no Parlamento Europeu defendia que castigos como desconexão e exclusão da internet eram cabíveis contra movimentos que alegam a livre circulação de informação, assim como redes sociais, etc. Ele, enquanto detentor de parcelas da internet patenteada por grandes empresas, hoje trabalha junto ao governo britânico com base de trabalho na Força-Tarefa de Poder da Informação, uma entidade internacional que atua dentro de um departamento específico da ONU.

A discussão sobre inclusão digital é o norte dos objetivos principais da ONU que interliga relações informacionais com os países cooperados, em aliança com políticas para a iniciativa pública/privada de investimento na área tecnológica. Porém, o que parecia uma norma, pelo menos substancialmente no Hemisfério Norte, em relação a uma “sociedade amplamente composta de novos usuários da rede”, evidenciou-se um enorme buraco entre o piso sócio-econômico da maioria dos países fora do eixo imperialista com aqueles outros. Os experts da ONU e da Força-Tarefa perceberam que era impossível engajar uma nova alcunha à sociedade “pós-industrial” pelo motivo mais aparente: a diferença econômica entre os usuários, ou seja, classe social, interfere acertadamente no uso e acesso aos PC’s, mesmo em lan houses, TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) implementadas em espaços públicos dos governos, como escolas, instituições políticas e projetos de inclusão digital. Apesar dos esforços aparentes dessas instituições, o processo de inclusão é barrado pela desintegração dos recursos, pela desigualdade social, onde as tecnologias da informação como celular, TV e internet são, no máximo, filtros para utilitarismos imediatos, ineficazes e inexistentes de verdadeiras inclusões. A maioria dos experts em cultura digital reproduzem incontesti o discurso quantitativo de seus “progressos” mediante números de acesso, pouco caracterizando de fato, o desenvolvimento eqüitativo de um projeto social específico (jornalismo comunitário, novos talentos/programadores, trabalhadores formais e informais) ou uma planificação para a construção de uma “sociedade digitalizada.” O que a cúpula da Força-Tarefa viu na grande maioria dos países com PIB abaixo do normativo ou IDH (medida que engloba riqueza e educação prioritariamente) foi a falta de infra-estrutura, aos equipamentos e qualidade de serviços prestados, todos dependentes de países fornecedores; analfabetismo funcional e capacitação, indicando que só o acesso à informação não garante conhecimento; uso dos recursos, ou a limitação da educação para uma “nova sociedade” informatizada.

Existe um imaginário político de conformismo em relação ao papel do uso da tecnologia (determinismo tecnológico) que está vinculado ao aspecto quantitativo, a perspectiva política da infra-estrutura como fim em si mesma. Na mesma medida em que prevalece a lógica de mercado ou a política da engenharia civil, voltadas exclusivamente para o o urbano (política do asfalto), o fator humanizante e social (qualitativo) é deslocado para uma precarização cada vez maior.

Novamente, não há dúvidas em defender a política da tecnologia digital, enquanto elemento importante e capacitador do desenvolvimento humano e social. A questão que se debruça nesta polêmica é o contrasenso político-econômico de imposição estrutural sobre uma realidade que reflete o oposto do discurso. A ciência produz meios tecnológicos novos para a sociedade mediante esforços capitais. A grande massa consumidora se apropria e ao mesmo tempo, têm nas mãos as condições reais de transformação, mas não como uma sociedade homogênea, sem contrastes. Nossas sociedades são explicitamente desiguais. Aqueles que não podem ou não fazem parte desta “sociedade nova” são os excluídos, poderão participar da Revolução 2.0? Esta afirmação parece soar um tanto anacrônica, já que esse modelo ideal de sociedade, além de não poder contemplar toda a estrutura social vigente, assim como o fazem hoje os ideólogos batizando-a de novos rótulos, está visivelmente fora dos processos considerados “sócio-dinâmicos” (eras) pela história. Desta forma, ela só é incorporada pelo fruto do trabalho de marketing das corporações da indústria tecnológica que atendem a um mercado global, porém, não em sua totalidade, apesar de interferir nas condições de vida da classe média. Quando interfere, geralmente pelo pior método, ou seja, pela sua exclusão. Como toda forma de consumismo está ligada a padrões de mercado sociais, o seu uso tecnológico digital é inteiramente individual. A relação indivíduo/máquina se torna cada vez mais estabelecida em conformidade com os meios midiáticos que intensificam a somatória dos lucros de empresas de hardware e software, além das políticas públicas como as TIC’s também relacionam a conectividade ao descentralismo com o “faça você mesmo.” Quando inseridos dentro de um processo de desenvolvimento social e utilização integral de todas as ferramentas digitais, a idéia de autonomia está correta, ela obstaculiza quando alija-se dos fatores educacionais de transformação coletiva, burocratiza-se e desestimula-se aos novos conectados. Esse individualismo, ora nos Ipods, nas escolas, nas lan houses, nos laptops portáteis, em casa, no trabalho, acaba por alimentar referências culturais um tanto consideradas alienantes, no ponto de vista sociológico. Ao mesmo tempo em que se defende a “rede social” como novo espaço criado para sociabilidades antes jamais pensadas, cria-se e gera-se uma via de mão dupla, que é a sedentarização em relação ao universo social, “desconectados” do mundo real material, dependências cibernéticas, desagregação do sentido de identidade, gerada muitas vezes por uma descarga acelerada de informação em massa. Altera e agrava fatores fundamentais nos comportamentos e interesses. A questão da materialidade é elemento preponderante à análise, ao contrário da limitação do uso das ferramentas. À realidade é conferida a reflexão das imagens externas, consideradas como reais internamente, o mundo conhecido é o mundo que se vê. Quando os indivíduos passam a ver na realidade virtual como forma a substituir ou como prioritariamente desencadeadora de eventos reais, as visões do cotidiano se alteram para conformar-se com aquela realidade virtual. As verdades sociais são agora regidas por bytes.

3.      A Sociedade da Informação tecida por capital-bytes

A centralidade da visão informacional adequa, nos seus interesses propagandísticos, um mote social, como ideal a ser reproduzido. Torna uma categoria social configurada pela classe de consumidores de informática, uma generalidade social. Isso ocorre pela miragem reducionista sobre a proposição na idéia futurista de que uma nova sociedade composta por empreendedores emergentes, democratizações ao acesso das ferramentas, geração de empregos, transformem rapidamente a condição de vida de milhões de pessoas. A “nova economia” para uma sociedade que representa um “mosaico de diversidades fluidas”. Esse aspecto redencionista do mercado que o substitui pelo bem imaterial não poderia nunca abarcar justamente suas pluralidades materiais. O conceito de sociedade digitalizada não está isento de teorizações parciais construídas pelas vanguardas do capitalismo avançado e defendido pelos experts da cultura digital. Partidos de um fundamentalismo tecnológico, essa nova classe emergente de gestores culturais, info-gerências, ativistas “independentes”, administradores de banco de dados empresariais, alimentam a cada dia o imaginário do virtualismo real como uma “nova era”, destinada a prosseguir para a próxima fase sem as velhas bandeiras das ideologias. Articulados com a “nova ideologia” tecnocientífica, dirigem suas verdades abstratas para uma massa de trabalhadores que por condições sociais severas, são imputados novos estigmas, como a analfabetização digital, por exemplo, já não bastasse suas reais condições de sobrevivência.

Os “novos excluídos” agora lotam o exército de reserva, uma massa de milhões de pessoas já precarizadas pelo sistema global. Segundo os dados da Nova Estatística de Usuários de Internet de 2011[2], a porcentagem de pessoas que tem acesso a rede na África é de 10%, América do Norte 77%, América Latina 34%, Ásia 21%, Oriente Médio 29%, Europa 58%, e total no mundo 28%. Esses dados são interessantes de avaliar no sentido de que, mesmo que a margem de crescimento seja sempre ascendente de ano para ano, não se caracteriza a capacitação qualitativa e funcional com os números de acessos por IP’s. Outro fator importante, é que a maioria dos usuários da rede pertença aos continentes ajustados geopoliticamente e que o inglês continua sendo a “língua oficial” no mundo digital, segundo os experts digitais, “mundo das pluralidades”. No Brasil, 37% das pessoas tiveram acesso à internet segundo o IBGE em 2010, dados de usuários ativos e inativos, porém, entre os mais pobres, somente 0,6% tem acesso a rede e entre os mais ricos, 56,3%. São novas soluções temáticas que trazem em seu cerne novos problemas sociais, pela cauda do cometa o vislumbre da nova tecnologia de ponta. É o canto da sereia das inovações e do rompimento progressista rumo à evolução desenvolvimentista. Um sistema capitalista renovado, oxigenado pela fluidez dos novos recursos técnicos, gerido e descentralizado por experts da eletrônica, cada vez mais atuante, onipresente nos PC’s, nos celulares, na TV, na rádio, nas redes sociais, na vida das pessoas, agregando e concentrando capital-bytes em todos os pontos.

Conclusão

Basta observarmos que a inclusão digital não inclui socialmente, como o Estado e empresas divulgam. O grande problema é como, num universo físico cada vez menor, onde os espaços de luta são esvaziados pela militância virtual, podemos utilizar as ferramentas tecnológicas com capacitação, sem que dependêssemos exclusivamente delas. O novo fluxo de informações deve prosseguir, aqui não refuta-se os fins, apenas salienta-se que na história social, a informação sempre sofreu e sofrerá constantes adaptações, anteriormente com o impresso e os jornais, posteriormente com as redes, mas no momento atual, o que se discute é o como o processo se dá quando, através de imposturas, sistematizações equivocadas da realidade, oriundas de um ofuscamento do deslumbre são vindas à tona. A luta por melhores condições de vida sempre existiu, independente de panfletos, jornais, TV ou internet, pois desde que o homem ocupa o lugar da centralidade de todo processo de relações com o meio e o personagem histórico da transformação social (e não as ferramentas para atingir os seus fins) substitui-lo pela imaterialidade é um verdadeiro contrasenso humano.

Advogar pelo fim da centralidade do trabalho como um ocaso residual das esferas da “velha sociedade” e suas contradições econômicas em prol de uma nova economia informacional e imaterial redunda em uma miopia sociológica profunda. Cada vez mais somos bombardeados pelos manufaturados chineses, fábricas que comportam milhares de operários – a produção industrial chinesa já é a maior do mundo em escala -, o crescente número de info-proletários de call centers no mundo, principalmente no Brasil – o setor trabalhista assalariado que mais cresce -, Índia, Rússia e América Latina são respostas imediatas contra a idealização genérica do trabalho social desta época. As teorias pós-fordistas invocam a nova corrente sob os olhares ambiciosos dos gestores e ideólogos como o FMI, OMC e ONU, além de BNDES mundo afora. Em vista de uma utopia redencionista atropelam seqüelas sociais históricas cada vez mais alijadas do direito às condições básicas de vida e coletividade.

Referências Bibliográficas

AMBROSI,PEUGEOT e PIMIENTA, Alain, Valérie e Daniel, Desafios de Palavras: Enfoques Multiculturais sobre as Sociedades da Informação, Editora C & F Éditions, 2005.

ANTUNES, BRAGA, Ricardo e Ruy. Infoproletarios: degradação real do trabalho virtual. São Paulo. Boitempo, 2009.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Exclusão digital: A miséria na era da informação. Fundação Perseu Abramo. 2001

___ Felipe, Sônia T., ed. (1998).Justiça como Eqüidade:Fundamentação e interlocuções Polêmicas (Kant, Rawls, Habermas) [Justice As Equality:Foundations and Debates (Kant, Rawls, Habermas). Florianópolis, Santa Catarina, Brazil: Editora Insular / Núcleo de Estudos em Éthica e Filosofia Política.

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DA PÓS-MODERNIDADE AOS PÓS-RANCOROSOS


Este primeiro artigo de uma série de cinco, tem por objetivo elucidar de forma clara e sucinta as raízes epistemológicas que permeiam toda uma rede de idéias e pensamentos e, ao mesmo tempo que é fragmentada/dissonante, assim como integrada/convergente, aponta para uma grande mescla de práticas e teorias no pensamento contemporâneo cujo teor principal é a formatação para a existência da Sociedade da Informação.

Genealogia da Pós-Modernidade

Basicamente, a pós-modernidade traz em sua vaidosa bandeira, a idéia de que é impossível haver uma plataforma de realidade concreta, ou seja, um consenso sobre o que seja realidade/verdade, geralmente disperso numa gama complexa de redes de significados, aspectos subjetivos culturais e sociais, macro-e-micro, além da renegação tradicional a toda espécie de enfoque radical às temáticas sociais. É a crítica à modernidade, por mais que em determinados aspectos esta mesma separação ainda seja ambígua. Estando o consenso refutado, é interessante notar que as análises, geralmente convergem-se para o mesmo trajeto da relativização extrema no que concerne à tática de expugnação de qualquer verdade aparente que lhe seja contraditório, os pensadores pós-modernos se alinham teoricamente para denunciar o quão retrógados e obsoletos são os fundamentos das linhas de pensamento políticos. A estes tendem a intitular messiânicos, ou seja, portadores da utopia (milenaristas) da transformação social, enquanto que estes chamam a si mesmos de os “realistas”, “céticos”, etc. São eles, Zygmund Bauman e sua modernidade líquida, Lipovetsky e a fragmentação do tempo e do espaço, Baudrillard como profeta do apocalipse, Bruno Latour como não-moderno, Lyotard, o filósofo da pós-modernidade e da morte das metanarrativas, Morin e sua complexidade atômica, entre tantos outros, tentam “enxergar o mundo sem lentes”, de forma a apreender as “múltiplas realidades” da incerteza do mundo, que segundo as suas teorias, é multifacetado, dinâmico e caótico.

Nesse emaranhado de teorias, muitas delas contraditórias entre si, numa crítica severa ao positivismo e determinismo marxista do início do século XX, emprega-se as designações para conceituar os novos paradigmas, ou o rompimento com o antigo, daí a “crise epistemológica” que vai alavancar-se como corrente filosófica-política em contraposição às idéias “messiânicas”. Apesar de a maioria dos autores advogarem sobre a gênese pós-moderna – a corrente weberiana, por exemplo, irá defender a raiz no pensamento nietzscheniano como crítica à filosofia -, até mesmo certas teorias da conspiração, como aquela que defende que em meio ao processo da Guerra Fria, a CIA orquestrava/patrocinava pensadores da época em contrapor o pensamento da esquerda no mundo bipolarizado, com medo de uma ameaça nuclear em grande escala. Neste contexto de rompimento com a chamada sociedade industrial, na década de 70 mais precisamente, surge o conceito de Sociedade da Informação, como classificação hegemônica para identificar (ou a necessidade de identificar) uma nova fase no desenvolvimento das relações sociais. Antes dada pela revolução dos meios tecnológicos como o rádio, o telefone e a televisão como resultado de um rápido e emergente processo de transformação da informação social, ainda aliado ao crescente número dos êxodos rurais, modificando radicalmente a geodinâmica social de todos os países.

A Sociedade da Informação

Hoje, chamamos o segundo momento de Revolução Web 2.0, onde o computador detém a fundamental centralidade em todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e políticos em relação à sua facilitação à comunicação e instrumento de linguagem propagandística de massas. Para os revolucionários da cultura digital, todo esse avanço de um monstro que vinha se configurando pela ciência e tecnologia, logo após o pós-guerra, sistematizou igualmente o mundo do trabalho, tornando o espectro do sistema capitalista vestido em um novo uniforme. Esta é a concepção histórica do mundo político após a Segunda Guerra Mundial, com o advento da era da técnica, da informação, o advento da internet, a nanotecnologia, uma sociedade digital. O homem passou a criar sua própria armadilha, num sentido mais amplo, quando não acompanha mais a técnica ou não a domina, ele passa a sofrer a dominação. Na verdade, os meios de dominação sempre existiram, desde os primórdios da técnica, o que se alteram e evoluem são reinvenções tecnológicas.

O que o pós-modernismo faz é desvincular a técnica da política. Ou seja, os arautos da nova corrente definem política como unicamente aquela ligada ao parlamentarismo, por isso argumentam que o tempo da política é demasiado curto para resolver os problemas sociais (quando se acredita que existem, de fato). O interessante é que pensadores, teóricos políticos como Nozik e Berlin, por exemplo, não acreditam que o papel transformador das ONG’s, enquanto articuladoras entre o Estado e a sociedade civil, possam verdadeiramente conquistar nada além do que já está demarcado dentro do terreno do capital. Segundo eles, as ideologias utópicas também desapareceram com o advento das novas tecnologias, assim o paradoxo da política transformadora e revolucionária no século XIX e XX, que era o elemento decisivo na realidade para aquela época, nesta “nova era”, a política torna-se cada vez menos importante. Por isso encontramos hoje os repetidos chavões de “para além da direita e esquerda” como meros binômios de uma mesma lógica. A pós-modernidade retrata a decadência da política, como redução do espaço público e físico, como fora do controle da realidade. Nesse patamar de incertezas e crises existenciais, a apolitização constante das esferas populares é reafirmada pela corrente pós-moderna, para aqueles indivíduos que não querem tomar partido, ou seja, num misto eclético de pseudo-autoconsciência, onde têm a “liberdade” de participar se quiser, pois, deixa-se de ser obrigatório.

Para Chatelet, filósofo político fundador do Colégio Internacional de Filosofia, marxista acadêmico que em muito se aproxima aos chamados pós-estruturalistas, afirma na “Filosofia do Século XX, vol 1” que a secularização acaba relativizando a realidade: a teoria não tem valor em si mesma. Assim, não existe a acumulação de conhecimento, entendido bem claramente para os “utópicos”, já que, segundo a nova corrente, as teorias são sempre e historicamente descartáveis, o que existem são apenas probabilidades e hipóteses. São os críticos das teorias gerais, ou como dizem universalizantes, das “recomendações”. A pós-modernidade trouxe então o terrível e mistificador aspecto da não-teoria, da não-aplicabilidade, da não-ação. Em última instância, tudo para ela torna-se impossível de ser mensurado, pois a realidade segundo afirma, contém o sentido da irracionalidade, subjetiva das pessoas, imprevisível. No máximo poderíamos “explicar” os fatos, mas jamais aplica-los. Toda forma de intervenção é um pecado mortal contra a vida. As comunidades políticas tem tradições diferentes e as teorias são inaplicáveis.

Os críticos da “Utopia”

Isaiah Berlin é um historiador político inglês que escreveu “Limite da Utopia” em 1991 onde defende que, ir em direção à utopia, pode-se levar a lugares desconhecidos e perigosos, em contraposição ao conservadorismo técnico, ou seja, a tecnologia levaria à proficiência/progresso. Ele critica todas as revoluções sociais, pois para ele, as utopias sempre propõem uma “realidade desejável” e estabelecem “um fim em si mesmo.” Mesmo diferente de Burke, que era pelo menos a favor da Revolução Estadunidense já que esta buscava um interesse e não todos, Berlin afirma que a utopias conclamam ao sacrifício, às galés que levam nas costas o navio, as utopias milenaristas e messiânicas que levam a toda guerra-sacrifício, tudo em nome dos “valores”, para ele, “classe”, “progresso”, “harmonia”, “coletivismo”, etc.

Anthony Giddens, sociólogo que defende a Terceira Via, ou seja, “nem direita nem esquerda”, chama as revoluções sociais de “eventos”. O modelo apresentado por Giddens de Terceira Via, foi emprestado para o governo neoliberal de Tony Blair a fim de retirar quaisquer resíduos de conservadorismo no Estado britânico, sejam da esquerda quanto da direita. Porém, o mais interessante é que entre aqueles que defendiam que o Estado era o inimigo e outros que o Estado era tudo, esta terceira “simples opção” dava voz ao mercado financeiro, para além da “velha esquerda” e da “arcaica direita”. Esta teoria tem demonstrado que a hegemonia neoliberal traz consigo o mote sarcástico do novo modelo político-econômico, inaugurado com grande esplendor pela corrente pós-moderna.

Informação e Desinformação

Vemos então, um capitalismo cada vez mais amplificado, integrado tecnologicamente, globalizado de escalas macro a micro, inserido radicalmente seu meme perverso dentro das massas consumidoras, altamente regulamentado ou por esferas mundiais como o Banco Mundial e FMI quanto regionais como o Mercosul e União Européia. Em um mundo “fragmentado”, “dissonante de idéias”, “caótico”, vemos que são intimamente alinhados e resguardados pelo guarda-chuva da “nova era”. Pelo contrário, vemos a “transformação social” como um processo de capitalismo avançado, com classes sociais muito bem definidas, onde as estruturas de poder estão sendo geridas pelas elites conglomeradas, mantidas por uma alargada classe média que detém e reproduz os valores da elite burguesa. Esta visão ofuscada da realidade concreta, é carregada de senso e sentido estritamente político, ao contrário do que professam, serem “apolitizados”. Como Lyotard rejeita qualquer “ação política”, toda ação pela transformação radical pode levar a caminhos da opressão, um discurso muito próximo aos generais da elite da guerra.

Devido a este tipo de pensamento pelo absolutismo relativista, que a negação da existência de temas centrais à discussão social, como pobreza, miséria, exclusão, exploração, guerra e dominação passam a tornar-se meras categorias, pequenos relatos e suas buscas pela emancipação, retóricas sociais, meros “eventos”. Esse niilismo disfarçado de teoria nova, onde não há nada real (Baudrillard), não pode e não quer entender a apreensão gnosiológica da realidade material, desde que se tornou flutuante, dispersante e religiosamente cética. De fato, descartar a teoria pós-moderna de todo aspecto filosófico também o seria uma prática fundamentalista. Além de trazer o elemento rebelde da ruptura epistemológica, sempre necessária para o entendimento mais amplo da universalidade humana, também ajudou a definir melhor, justamente por possui o dom da especificidade, determinados conceitos sociológicos, micro-estruturais como as relações de poder (Foucault), por exemplo. Enquanto compromisso político, do contato com a realidade social para a intervenção, é nulo. O emaranhado antropológico da subjetividade acrescentou deveras alcances antes não imagináveis, como nas esferas do gênero, das culturas, das etnias. O erro (ou a intenção) está em atropelar e impor este modelo de pensamento como único, hilariamente contrário à sua premissa sobre a idéia generalizante. O pluralismo vai negar tudo o que não é pós-moderno, e quando o aceita, o deforma. Este pensamento não deixa de ser igualmente conservador, na medida em que rejeita “antigas fórmulas”, mas não pode enxergar novas variantes que não sejam dentro de uma microperspectiva local. Esta rejeição intelectual narcisista e perversa a tudo que é macro, conduz justamente ao perigoso terreno da dominação, quando se observa realmente que o sistema capitalista avança em campos outrora não estabelecidos.

Pensar que o pós-modernismo é tão fragmentário assim como se imagina é semelhante a pensar que somos um planeta e não sociedade, composta de indivíduos interligados mas não associados uns com os outros. A tecnologia digital exemplifica bem isso ao demonstrar que as chamadas “redes sociais” nada mais são do que pessoas interconectadas. O valor superestimado a que se dá às “novas transformações” pelas ferramentas não parecem ir além das fibras óptica da internet. O “universo” dos conglomerados de empresas que lucram bilhões de dólares em clicks por segundo recomendam satisfatoriamente essa desfragmentação rígida da sociedade, em meros personas-bytes individualizadas. As pessoas se condicionam aos meios de produção que lhe são impostos, desde que os modelos de produção estejam reproduzindo-se (“revolucionando-se”) e lucrando. O modelo do “civilizado” contra o “não conectado” é imposto pela indústria, aquela mesma do chão de fábrica tão bofeteada hoje pelos pós-modernos. A velocidade da informação, os megabytes, as novas tendências culturais da moda, o volume e excesso de meios de comunicação alternativos, são o novo avatar da história, mesclados numa filosofia de vida que parece estar sendo apressada ao máximo. “Não tenho tempo para nada”, ou “estou sempre na correria”, é a vida num estalar de um segundo, são modelos projetados de fora para dentro, do comércio e da indústria voraz para as idéias e os valores sociais. Nesse estágio do suprema “velocidade social”, somos engolidos passivamente quando não estreitamos os laços da consciência coletiva, do pensamento da maximização, em meio a uma falsa democratização., ou ela enxergada como um fim em si mesma. Na contemporaneidade, a alienação talvez seja pior do que aquela clássica, em que os indivíduos eram, ao menos, portadores de um sentimento em comum, “meramente” classista. Ao professar pela ausência de classes sociais, lutas de classes, pobreza, esta “nova forma de pensar” o mundo estratifica todo modelo de ação política transformadora/emancipatória, enquadrada fisicamente no status quo.

Corrupção Banda Risco 16
Bem vindo ao governo do progresso e da união.
todo mundo é igual, não há classe social e nem desemprego!
E os governantes só querem o nosso bem,
e nunca quiseram fazer mal a alguém

Mas não sabe o que faz
querem mais e mais
só pensam em destruir
querem nos possuir

Corrupção! 3º mundo! Não há mais o que falar
Corrupção” 3º mundo! Ninguém vai nos a…ninguém vai nos a…ninguém
vai nos ajudar!!!

e o povo é tratado eternamente como lixo social
mas eles nem sabem e ainda acham tudo normal
somos roubados diariamente, sempre enganados
pelas pessoas que dizem serem engajados

e mentiram outra vez
roubaram tudo de vocês
acabaram nossos direitos
eles foram reeleitos