Arquivo da categoria: Colunas – Venus Genetrix

antiga coluna no site www.sarcastico.com.br

Já deu a sua desacatadinha hoje?


“É quase meia-noite
Algo maligno está espreitando na escuridão”
Thriller – Michael Jackson

Para um simples transeunte que por acaso passasse nas proximidades do Diretório Central dos Estudantes (DCE) na UFSC no dia 12 de maio de 2010, o que se fazia ali poderia ser muita coisa, menos uma reunião com pretensões políticas que afetariam a cidade de Florianópolis nos próximos dias.

O que se via ali era uma assembléia com uma dinâmica caótica, conduzida por pessoas que em sua maioria tinham menos de 25 anos, e que foi finalizada com um ensaio de passinhos baseados na música “Thriller”, de Michael Jackson.

É esta a áurea que se percebe nas assembléias da Frente Única pelo Transporte Público de Florianópolis, que se desenvolvem procurando avaliar os acontecimentos passados e projetando os próximos passos das manifestações contra o aumento de 7,3% no preço da passagem do transporte público da cidade.

As manifestações começaram no dia 8 de maio, e pelo andar da carruagem (ou melhor, do latão), vão se prolongar por mais tempo, já que tanto os empresários que controlam o transporte público, quanto a prefeitura da Capital catarinense, parecem mais empenhados em desmobilizar os protestos do que em encontrar uma solução para sua causa.

Estas tentativas de desmobilização se evidenciam de várias formas, seja na mais básica demonstração de poder repressor da Polícia, até o engendramento de ações judiciais voltadas para os manifestantes, além, é claro, da criminalização do movimento social pela mídia corporativa.

Durante o que pode ter sido o primeiro mês de manifestações, os atos ocorreram todos os dias úteis, com ações descentralizadas (como bicicletadas, teatro de rua e “catracassos” – atividade em que várias pessoas pulam a catraca dos terminais e ônibus sem pagar) nos bairros e manifestações com no mínimo 2.000 e no máximo 6.000 pessoas no centro da cidade, geralmente nas quartas e quintas-feiras. Os finais de semana têm sido usados para se fazer a avaliação e planejamento do movimento, em assembléias que reúnem no mínimo 100 pessoas.

Pique-Esconde

Obviamente, toda esta situação não está sendo bem recebida pelos administradores da cidade, e, consequentemente pela Polícia Militar, cada vez mais impaciente com o fato de ter que brincar de pega-pega com um bando de garotos e garotas pelas ruas da cidade. “Uma mega-operação e ninguém vai preso”, comenta um policial ao colega. “Nenhuma bomba de gás foi lançada, nenhum gás lacrimogêneo” declarou à imprensa o Tenente-coronel Newton Ramlow no dia 27 de maio, durante uma das manifestações no centro.
De fato, coincidentemente com o ano eleitoral, a Polícia Militar (até aquele momento) agiu de forma diferente dos outros anos em que este tipo de manifestação aconteceu. Isso apesar das claras mostras de impaciência dos policiais – “Está olhando o quê? Está olhando o quê?”-, pergunta aos berros um PM montado em sua possante motocicleta, dirigindo-se a um bando de garotos de uns 13 anos, no meio da rua.

A cada manifestação o contingente de PMs, Grupos de Resposta Tática e até Polícia Montada aumenta. São, pelo menos, 550 policiais, cachorros, muitas viaturas e até helicópteros sobrevoando as manifestações, o que provoca uma reação imediata na população de Florianópolis; existem dúvidas se esta é o tratamento adequado, e até mesmo, paradoxalmente, temor em ver tanta força bélica espalhada pelas ruas.

manifesto do terrorismo sarcástico – 2006


Se você acredita no fantástico mundo das mentiras e da alienação coletiva da comunicação de massa, propomos que seja chegada a hora de rediscutir o papel social da mídia sem mais freios. Está mais que imediato partir para a ação direta e desafiar as grandes corporações que fizeram deste sistema global de informações virulento uma farsa, investindo em grande escala contra todos os seus braços articuladores. Esta declaração de guerra é também uma ode à liberdade, ao direito de expressão, às estações de rádio, publicações, tvs comunitárias, zines, redes virtuais, bares e cinemas alternativos. O sangue do quarto poder será derramado… e a vitória está nas mãos.

Pelos mesmos mecanismos do sistema a informação foi sendo apropriada e jogada na lata do lixo privado. Retornamos dos calabouços e ouvimos os gritos aterradores daqueles que estão à mercê do common sense, do fanatismo, da histeria social, da farsa midiática e da exploração e fabricação da “verdade”. Somos anônimos da realidade, como o limo que sobrevive nas consideradas mais vis condições, mas de onde brotam as mais poderosas forças de resistência contra a hegemonia do discurso globalizante. Esse movimento insurgente retorna para romper as cadeias dos ciclos. Pelo direito à informação livre, sem o vínculo da lógica capitalista-estatal, faz alimentar e potencializar novos e emais audazes meios de luta pela manutenção dos valores culturais, pois a verdadeira revolução não é a política, ciclo vicioso e paliativo do próprio sistema, mas a social e cultural, germe imortal da capacidade humana de libertar-se do jugo.

Estamos prontos para tomar de assalto tudo novamente. É a hora de tirarmos o foco de atenção dos meios de comunicação massivos para devolver às mentes subjugadas aquilo que lhes fora drenado: a inteligência. O mundo faz números e estatísticas, não livre-arbítrios.

E deste manifesto formarão as palavras em todos os rascunhos e monitores, em todo lugar onde se acharem players, que até os cegos poderão conhecer e qualquer língua saberá seu entendimento, pois a emancipação não está sujeita à uma população específica, mas aos homens e mulheres em seus corações. O perigo é iminente e eles sabem. O boicotam diretamente através das novas tecnologias e nas entrelinhas. É o risco de perder o controle da mercadoria e do monopólio do saber, insuflando-nos com placebos legislativos, na tentativa de tornar-nos ovelhas servis. O papel da contracultura será importante para destruir os pés do gigante através da desmistificação dos modus operandi das elites dominantes. A contra-informação é outra arma que está engatilhada contra o status quo dos aparatos oficiais, reprodutores do capital cultural. Este não é mais o mundo das aparências. A utopia não tem mais sentido. Isto não é mais propaganda.

Da mais escura caverna
Com a minha lanterna sempre acesa
Vivo sempre no submundo da sua consciência
A espreita de um novo amanhecer

sobre o caráter inglório


Na terra do “faz de conta”, muitas vezes deixamos de acreditar ou sonhar com melhores condições de vida e não, por uma série de razões fúteis, nos escondemos na caverna. Nos mais variados casos, não usamos máscaras. Com todas as letras: não temos medo de nossos espelhos. Quando os sinais começam a faiscar nas nuvens sabemos que é hora de entrar de novo na luta.

A luta se faz aqui, no chão, e por mais que os engravatados do discurso ensaiado afirmem veementes que ela se faz pelos corredores e gabinetes, ela sai das ruas e volta para as ruas…

É nas ruas que os peões avançam o sinal, à mercê, pensam os engravatados à esquerda da calçada, mas são incapazes de moverem-se fora de seus círculos mágicos. Etimologicamente, política e polícia derivam do mesmo radical, do grego arcaico, que remetem à polis, o espaço antes público tornado agora em palácio de governo, coisa que não surpreende em nada quando ambas (ambivalências) andam de mãos dadas, seja quais forem suas cores ideológicas.  A corte sempre fica pra trás, esperando o que vai acontecer. É a mostra visível da conveniência, da política do mais assistencial, assim eu diria, quase fisiológica, a política do umbigo. A era da vanguarda acabou minha gente. Os oportunistas e seus pelegos só podem lamber suas… feridas? Quais? Ganhos e perdas? Há uma espécie de catarse em efeito dominó que se espalha por aqui.

A “esquerda” itinerante da esfera burrocrata não tem mais sentido de existir fora da campanha por voto. Mas ainda os burros somos nós que conclamamos a vossa presença para uma utópica batalha.

Darionopolis para os burros! A aristocracia engravatada brinda o coquetel com os colarinhos brancos dos transportes, das imobiliárias, dos hotéis e dos negócios veraneios. Quando deixam somente as crianças para o jantar das 20:00hs, qual será a sobremesa? Gás de pimenta, taser, cassetete, cães, algemas, balas de borracha, bombas?

Será que há uma vergonha, mesmo pequena, que possa aparecer em suas máscaras? “Vivemos tempos interessantes”. A tão evocada “emancipação” faz ainda sentido para vocês?

Blake dizia, “uma única lei para o leão e o boi é a opressão.”

Tentar entender a lei dos astros… mas o Império contra-ataca (1)


Quarto Poder.  Quarta Frota.  Quarta Revolução Industrial. Cabalisticamente acentua-se o teor deste caldeirão que ferve há algumas décadas numa velha cozinha onde a técnica culinária, incansavelmente e a todo custo, tenta se renovar. Os novos pratos parecem não coincidirem mais com as ferramentas básicas para a degustação gastronômica. Todos os utensílios domésticos radicalmente se transformam e alteram o cotidiano de quem é simples usuário. Agora as técnicas dominam a lógica e a razão – da energia à força mecânica, da lâmpada à explosão, dos chips à informação e agora, dos átomos-nânons à dominação total. As aplicações da técnica instrumental ou utilitarista faz emergir uma marcha protagonista na história do homem, a quarta revolução do capital. Assim também o dígito 4,  o quarto poder que identifica-se pela sua manipulação e legitimação, enquanto esfera política-ideológica, cultural e social. Não há uma face a ser descoberta, é um monstro de mil cabeças que fala diversas línguas, articula-se com todos os elementos, pelo ar, pelas redes ópticas, pelos elétrons, pelos tinteiros, e todo dia nasce num lugar diferente, sempre à espreita de devorar toda forma de vida à extinção imediata. É a totalidade da obediência incondicional que religiosamente deve ser prestada em sua honra. Seus templos e “seus pontífices tradicionais são como pastores cegos, mágicos presunçosos, envenenadores e párias”, de um mundo fictício exercido sobre o realismo fantástico, num mundo de surdo-mudos. Prestigitadores com as armas mágicas do domínio da comunicação, escolhidos pelos papas e hierofantes. O imperador pela força, o enforcado pela morte, o louco sem julgamento… a mistificação totalitária do homem, inerte às investidas dos players. Parece ser o leviano destino dos bonecos que está sendo desenhado antecipadamente pelos detentores da vida e da morte, nas  instituições sacralizadas pela “nova” ordem. Transferem suas indumentárias de controle e domínio, poder e potência pelos fios invisíveis da comunicação de massa, e vice-versa, numa forma sequestradora permanente, dia e noite.

A quarta frota, depois da frustrada derrota nas montanhas do Oriente Médio, propõe desempenhar no Hemisfério Sul seu legítimo lar de ocupação. A guinada ultra-conservadora dos republicanos rumo ao ouro negro costuma deixar a América Latina geralmente a ver navios, no entanto, pelo lado democrata, o continente hermano sempre exalou perfumes mais atraentes.  Esse “descuido” por parte dos republicanos, tornara a região cada vez mais propícia, e impasses como a Alca e políticas bilaterais, acabam acentuando a formação de novas agendas: o Plano Colombia, Plano Panamá, Plano Patriota, Palno Condor e a Tríplice Aliança. Desgastado pelas acusações de corrupção e gasto de bilhões de dólares numa guerra sem fim no Iraque, o Império volta sua atenção para as atividades políticas e econômicas no mesmo continente.  Uma parede se levanta no sul contra a força imperial que incrivelmente não consome força nuclear, mas popularidade. A chamada para um mundo alternativo ao modelo capitalista no século XXI acende para investigações e novas problemáticas internas dentro do próprios movimentos sociais. Um neoliberalismo arraigado e agressivo nos países sul-americanos fez também brotar uma unicidade combativa que conglomera diversas esferas da prática política real, como os movimentos campesinos, indígenas, quilombolas, e as comunas de ação direta juvenis. Embora oposto à idéia reacionária de militarização e estatização golpista, na maioria destes países, as massas organizadas conseguiram ampliar sua participação nos espaços democráticos, num avanço às mobilizações reinvindicativas.  Em contrapartida, os norte-americanos reatam cinicamente laços burocráticos com países que possuem a predisposição a um proto-imperialismo dentro do próprio continente, legitimando que futuras intervenções, militares ou não, possam se concretizar. Certas fronteiras já estão sendo vigiadas por exércitos estrangeiros, grupos paramilitares ampliam os conflitos com as guerrilhas, e civis dos serviços de informações secretas há anos trabalham inseridos dentro das relações administrativas da contra-inteligência. Milhões de dólares foram destinados a governos para o fortalecimento de esquadrões mercenários “anti-terroristas” de “países instáveis democraticamente”.

Enquanto isso, achando que o Império dorme quando os movimentos populares gritam em uníssono uma nova perspectiva de mundo, o marketing cultural cria novas ferramentas de ataque, como o cinema – recentemente lançado nas salas, “Segurança Nacional” e “Tropa de Elite 2” -, e no outro lado do Oceano, navega placidamente a chamada Quarta Frota, que tem por ordem a de “proteger” o livre comércio, equipando uma fortuna de porta-aviões nucleares, 100 aviões que navegarão pelos mares do sul.

Que dizem os astros… ?

A nova coluna do SARCÁSTiCO estréia com o pé direito


– Novembro de 2007

Glauco Mattoso marca a temporada como novo sarcástico

Sem meias palavras, sem meias intenções e literalmente… sem meias, é a estréia do nosso novo colunista sarcástico e não poderia ser diferente, irreverente e polêmico: Pedro José Ferreira da Silva, poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias, sob o pseudônimo de Glauco Mattoso(paulistano de 1951), como trocadilho de “glaucomatoso” (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Ainda nos anos 70 participou, entre os chamados “poetas marginais”, da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário Jornal do Brabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como Lampião (tablóide gay) e Pasquim (tablóide humorístico), além de periódicos literários como o Suplemento da Tribuna e as revistas Escrita, Inéditos e Ficção. Durante a década de 80 e o início dos 90 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (gibis Chiclete com Banana, Tralha, Mil Perigos) até a música (revistas Somtrês, Top Rock), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no Jornal da Tarde, ensaios na Status e na Around), e publicou vários volumes de poesia e prosa.

Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do século, a produzir poesia escrita e textos virtuais, seja em livros, seja em seu sítio pessoal ou em diversas revistas eletrônicas (A Arte da Palavra, Blocos On-line, Fraude, Velotrol) e impressas (Caros Amigos, Outracoisa). Jamais deixou, entretanto, de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente incorretos (violência, repugnância, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de “poeta maldito” e lhe inscrevem o nome na linhagem dos autores fesceninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire ou Genet.

Com esse brinde, é com o maior prazer ou desgosto para alguns, que temos não somente como admiradores deste autor maldito mas um romance de parceria do sarcasmo original.

à votre santé!

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Revertendum


Após ter escrito um artigo no ano passado sobre o desarmamento achei que nunca mais ou talvez, não tão cedo, voltaria a discorrer sobre este assunto. A idéia que me passa é daquela como se me tivessem tirado do confortável sofá de notícias para sair correndo e colocar as mãos num gabinete sem ter ao menos exercido meu papel singelo de informe. E abafar os ouvidos a toda esta estultícia e gritarias alienadas de ?Não! Sim! Nãooo! Simmmm! Nãaaaoooooo…? Entre fraquíssimos e insólitos argumentos, tanto um quanto o outro se dispuseram em batalha sangrenta.. opa! Só faltaram as balas!

Este quadro mostra exatamente onde se encontra o perigo de ir votar sobre um assunto que era guardado a 7 chaves, nunca se debateu abertamente com a população civil, e sim, sempre desviado de quaisquer tópicos, geralmente disfarçado de não-prioritário.
Pois bem. Aqui estamos novamente. Só que em vez ressalvar a colocação feita no anterior artigo, serão formuladas algumas questões diferentes, talvez marginais ao contexto. Ainda assim, é provável que tenhamos de ouvir muito e muito acerca do que e como tudo isto aconteceu, tão rápido. Reitero que a população teve em mãos pólvora (apenas sentido figurativo) em última instância, e às pressas e sem sabedoria prévia, foi imposta a escolher 1 ou 2. Neste caso, muitas vezes, pensei em 0, mas na verdade, in loco, retorno ao meu argumento fiel que nunca me abandonou e nem pediu licença para entrar; ao contrário, sempre esteve lá o tempo inteiro.

Depois de votado o Referendo 2005, agora a população se acha mais confortável em ver e tirar as dúvidas sobre um e outro. As suas conseqüências ainda serão sentidas a longo prazo. O Estatuto do Desarmamento somente entrou em vigor em 23 de dezembro de 2003, na Lei 10.826 e foi publicada no Diário Oficial da União seguida da sanção do presidente da República. Naquela época, era interessante anotar e discutir, e é nesse ponto que paramos aqui, sobre como foi necessário regulamentar um estatuto de uma lei que não estava sendo aplicada na prática, como por exemplo, o teste psicotécnico para obtenção do porte de armas de fogo.
Isso é um DEVER da instituição encarregada de registros e portes, de estabelecer as condições sobre como se devem proceder não acerca de quem pode usar ou não. Lógico! Foi mais fácil e era evidente, jogar a batata quente para o governo federal, através de um plebiscito, onde eles (na falta de seus deveres, a Polícia Federal e o Comando do Exército) ficariam ilesos de suas falhas executivas.
Foi então que o governo de Lula instituiu uma comissão para dar início ao processo e estatuto de lei. Os senhores da lei ficaram com certeza muito mais aliviados de seu imbróglio ao aceitarem em uníssono a causa. Promoveram um teatro nacional, ANTES DO REFERENDO, da população civil se desarmar. Todos davam agora suas gargalhadas. Quem teve seu dinheiro indenizado sabe muito bem que, no registro e no porte, o valor estava muito além desta remuneração simbólica.

Votado referendo: e agora? Quem foi sobrepujado?
Toda a secretaria de assuntos legislativos estavam em peso, e durante 15 dias, as pautas e dúvidas estavam ?disponíveis? na internet. Quantos brasileiros tem acesso à internet? O voto é obrigatório. Quantos milhões de eleitores foram às urnas? Este trabalho de in-formação foi feito por pessoas competentes do governo em passar realmente as pautas de discussões para a sociedade ou deixaram apenas ad referendum a sua escolha maniqueísta?
Na verdade, também foi mais fácil aumentar o valor do registro e porte, para um preço astronômico, afim de evitar que mais pessoas tenham acesso às armas. Isso é mesmo interessante, pois agora aprovado o ?Não?, a classe burguesa terá as condições de se defender e portar este direito ?garantido a todos?. Defender de quem cara pálida? Do pobre que voltará a comprar armas no mercado negro da esquina? São estas as questões que não estão sendo de modo algum providas, e que, portanto, ainda se mantém intactas. A polícia no começo pedia gentilmente (sic) à sociedade que entregassem as armas; hoje, foram em sua maioria contra o desarmamento.

No site da Segurança Pública (Segurança Pública ww.mj.gov.br/seguranca/desarmamento.htm) era muito claro a defesa do governo em favor do desarmamento aludindo ao cidadão que supostamente venceria. ?Em outubro de 2005, o governo promoverá um referendo popular para saber se a população concorda com a proibição da venda de arma de fogo e munição em todo o território nacional. Em caso de aprovação, a medida entrará em vigor na data de publicação do resultado pelo Tribunal Superior Eleitoral.?

E não é querer dar nome aos bois, mas também é muito fácil dizer em público e autoproclamar-se ?defensor dos direitos inalienáveis? e ter uma guarda pessoal à disponibilidade 24hs. Este é o caso de nosso iluste ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e do Dr. Renan Calheiros, que paga sua comitiva armada com contribuição pública. José Gregori, que como secretário de Direitos Humanos e co-autor do projeto de Lei contra a defesa armada do cidadão. Ele também foi o autor da maravilhosa equação matemática que afirma que as chances de sucesso do criminoso são de 15/15, e que isto sempre será inerente à natureza do brasileiro. 56 milhões de civis desarmados mortos por governos canarinhos não entram em seu cálculo obviamente. Mea-culpa.

Viva-Rio também é outra falácia automática, onde seu sítio está metade português, metade inglês, em visível transparência de dados internacionais. Roberto Marinho, o senhor-carro-chefe da suprasumo empresa de comunicações globalizadas, seus comandantes também se valem de muita munição. É só conferir as encomendas de material quase bélico da qual nenhum cidadão poderia ter em mãos, enquanto estes ilustres personagens de novela andam livremente e muito bem protegidos. E que dizer dos artistas viva-globo? Se seus fãs realmente pudessem pagar seguranças, com certeza estariam 100% de acordo com suas misericordiosas intenções.

Agora as armas de fogo vieram num contexto como se nunca tivessem sido conhecidas. Cerca de 92 milhões de votos foram apurados. 63,94% da sociedade civil votaram “Não” à proibição e 36,06% votaram “Sim” pelo fim do comércio de armas e munição no país. Muito contrário aos índices do nosso famoso Ibope da qual sempre colocou as margens de vitória ao ?Sim? e nos últimos momentos quase ficou empatado. ?Na segunda e última pesquisa da TV Globo de intenções de voto no referendo sobre comércio de armas e munições, em comparação com a anterior, o “não” oscila positivamente dois pontos, enquanto o “sim” perde quatro pontos percentuais e a proporção de indecisos/brancos/nulos também oscila dois pontos para cima. Margem de Erro: Dois pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um grau de confiança de 95%.? Ibope/Pesquisa 2005

Supostamente, o povo escolheu. Categoricamente, o governo lava as mãos. Resumidamente, o assunto não morreu.

“Você está condenado ao infortúnio se você estiver desarmado porque, entre outras razões, pessoas o desprezarão […]. Simplesmente não há comparação entre um homem que está armado e um que não está. É irracional esperar que um homem armado deva obedecer um que esteja desarmado, ou que um homem desarmado deva permanecer salvo e seguro quando seus servidores estiverem armados.” [pg 88] – Niccolò Machiavelli, 1532, em ‘O Principe’:
Max Stirner, 1845, filósofo alemão: “O Estado chama sua própria violência, lei; mas aquela do indivíduo, crime.”[Max Stirner, Ego and Its Own (trad. Steven Byington 1982)]

Lista de sites sobre desarmamento:
http://www.desarmamento.com/
http://www.ibope.com.br
http://www.incorreto.com.br/http://www.vivario.org.br/
http://www.mj.gov.org

Lista de munição intelectual:
Armas de Fogo – São Elas Culpadas? por João Luis Vieira TeixeiraBrasil Acossado Pelo Crime, por Luiz Tadeu ViapianaA Violência sem Retoque – A alarmante contabilidade da violência, por IB Teixeira Reaja: Prepare-se para o Confronto, por Sérgio Olimpio GomesMais Armas, Menos Crimes, por John Lott, Jr (traduzido pela Makron)
Civil Disobedience, por Henry David Thoreau, 1849
Niccolò Machiavelli, 1531, em ‘Discursos sobre os Dez Primeiros Livros de Titus Livy’
Niccolò Machiavelli, 1532, em ‘O Principe’:
Max Stirner, Ego and Its Own – trad. Steven Byington 1982

O Risco-Fraldão


Será que vale a pena mesmo pensar sobre estas coisas? Se, afinal de contas, já sabemos o que vai dar no fim mesmo…

Mas mesmo assim, não podemos deixar de nos colocar como expectadores meros e críticos que somos, em função de toda a mídia e informações manipuladas, convergidas a bel-prazer das conveniências. Será que quantos mensalões, mesadões e dizimões serão ainda tema para calarem a boca de certos homens de lei? Está mesmo focada toda a discussão e a atenção nos holofotes no Planalto, mas se esquecem daqueles que fazem realmente o jogo sujo. Nos bastidores de toda essa sujeirada, aparecem setores do jornalismo, de prestadores de serviços, empresários e até religiosos. Poupem-nos dos detalhes sórdidos…

Tantos meninões e marmanjões brincando de esconde-esconde e de quem pegou a mala ou se guardou no fraldão sabem que tudo isso se baseia no bom e convencional achômetro – e é este instrumento que é infalível para suas defesas na CPI.

O dizimão que o bispo Edir Macedo, por exemplo, carregou também nas cuecas (?) também foi algo de miraculoso, visto sua singular importância – R$ 10 milhões em vivo, que o deputado do PFL de SP, Dr. João Batista Ramos carregava em Sete Malas pelos jatinhos de costume. Até o número é sagrado. E o Bóris Casoy? Que no seu habitat, será que admitiu que “isso é uma vergonha” ou se plantou nesse mato que só sai grana lavada? Tão contundente em seus ataques à corrupção que antes quase fazia um papel de dramaturgia, hoje veste sereno a camiseta do partido da ala de deus. Ali Babá e os quarenta ladrões estão ao vivo na tv.

Mas é tudo muito complicado mesmo quando só vemos pelo lado externo. E bem sabemos que nas internas, nos locais onde se aglomeram colarinhos brancos para cochicharem, com muito custo, será noticiado algo mais importante. Também pudera, até o próprio relator da CPI, Sr. Ibrahim Abi-Ackel PP-MG (por favor, não confundir com Abin!) admitiu ter recebido a soma de R$ 150 mil das mãos de Marcos Valério (via SMP&B) para financiar a campanha eleitoral em 1998. Nós somos tão ingênuos ou realmente este país é o autêntico lar dos caras-de-pau. Quem é a autoridade que dita a sentença senão a Justiça? Pois é aqui que se decorre um grave problema: a sentença é válida sob o julgamento político e não jurídico.

Ou seja, este sistema de administração política, neste estado em que se encontra, é absolutamente incontrolável e não há mais vacina para curar este câncer. Toda CPI se transformará em dramáticos mecanismos de absorção de doenças, como um placebo.Todos os partidos parecem que entraram de vez no turbilhão de seus próprios anseios e estão usando seu cadafalso que fora construído para os inimigos. Mas se o poder confere naturalmente inimigos, contra o que se pode detê-los, ao estar a própria bandeira inimiga no cerne de todo o poder? É na balbúrdia, como no Congresso Nacional, que observamos o pleno exercício do poder numa vista pelo auditório, o desrespeito e a falta de decoro com que estes homens da lei sabem muito fazer – em verdade, em verdade vos digo: não fazem nada.

A ganância é tanta que beira à loucura. Nos modernos padrões de consumo, a maioria que tem renda muito superior ao restante da população sempre se faz presente de seus orgulhosos cartões de crédito, cheques especiais dourados, etc. Em tempos de corrupção à tona, nem se fazem luxo de demonstrarem menos picaretagem, se aparecendo com malas grandes cheias de dinheiro, como se quisessem mesmo admitir sua explícita cara-de-pau para com o povo. Foi assim que o PT e o PSDB chegaram ao poder, graças a milhares de malas premiadas em todo o Brasil, desde as pequenas assembléias legislativas, câmaras municipais até o Congresso Nacional.

Os mensalinhos são a espinha da estrutura política que foi formada no país. Todos ganham e continuarão a ganhar, basta apenas cada deputado renunciar temporariamente seu mandato para logo esquecerem das denúncias e saírem de cena durante o tumulto. Se Roberto Jefferson PTB-RJ (o exibicionista inerente) tem professora de canto a sua disposição e se articula bem como o coringa, do tipo, “vou para o inferno, porém te levarei comigo”, hoje pode se intitular como o inventor do termo “mensalão”, que já entrou para o dicionário de política. É capaz ainda, de se converter (que deus não queira) como um herói nacional ao denunciar e enfrentar o todo-poderoso da casa civil José Dirceu (PT-SP). Entre os rumos da história política na representação das classes e suas conseqüências ideológicas, aqui apresentamos os conceitos do cidadão e seus meios pedagógicos de aprender política por seu sistema corrupto:

Apolítico – não vê lógica nem vantagem alguma em querer pertencer a este teatro; prefere o anonimato, mas segundo o 3° porquinho das Sociais, Max Weber, muito coerentemente auto-definiu a máxima: “Neutro, é quem já se decidiu pelo mais forte…”
Antipolítico – não contente com qualquer partido, vai para o ataque e quer promover a discórdia generalizada;
Político (partidário) – amigo do ventilador, ele se usa da merda sempre que necessário; se for o caso, não tem problema se perder o mandato porque sabe que pode se reeleger novamente.
Pró-político – somente surge quando as malas estão em fase de serem capturadas; ele defende com unhas e dentes seu papel de corrupto.

Por favor, não confunda mensalão com mesada, pois uma é mais antiga do que a outra embora saiam do mesmo bolso. Saiba a diferença. A verdade está nos gestos e nos olhares.

Mesada: Quantia que se dá em cada mês, mensalidade.
Mensalão: Quantia proporcional à importância da ação, propina avaliada sem freqüência mensal e sem parâmetros de valores estimados.

E como dizia o cara do PL, recebendo o Mensalão: “COM O MEU PASSADO, ACEITO
QUALQUER PRESENTE”.

artigo publicado no www.sarcastico.com.br

Salvação no Abismo


A mercadoria mais barata do mundo é a humana, segundo estatísticas da própria ONU – Organização das Nações Unidas. Além dos horrendos números dados por tal “iminente” instituição, o mundo assiste estarrecido à uma “nova moda” que ganha adeptos até pela Internet.

O tráfico de crianças em todo o mundo soma-se à globalização da violência em uma amplitude proporcional à sua realidade. Estima-se que cerca de 200 milhões de escravos ou mais fazem parte da rotina de empresas quel usufruem de livre comércio deste esporte novo, mas tão antigo e bárbaro quanto a segregação.

É absolutamente inútil a teatralização dos órgãos que seriam responsáveis por este tipo de crime, os quais negligenciam verdadeiras e indiscutíveis atividades que poderiam combater a máfia de atos predatórios contra a natureza humana. Verdadeira nação de correntes é o que se pode chamar este episódio que se repete a todo instante na história. Desde os primórdios da conquista humana pela posse de terra, acalentada pela ambição sem controle pelos interesses alheios, a escravidão sempre fez parte das páginas negras de todos os povos, mesmo naqueles que mais se autoproclamavam “nações livres”, “democráticas” e “cristãs”.

Outro dado importante nisso tudo é a participação abominável da própria Instituição Família nesta violação de direitos inalienáveis ao ser humano, na venda de seus filhos ou parentes, simplesmente como uma espécie de mercadoria. A este mercado humano, não há restrições quanto à sua produção, ou melhor, prole: quanto mais filhos fizer, maior será o lucro. Apesar de toda a extensa e pretensiosa falácia de (des)organizações não-governamentais, multinacionais com certeza sairão lucrando, de uma forma ou de outra, direta ou indiretamente, com essa prática.

Qual é o papel do Estado, da Igreja, da sociedade civil como um todo, afinal? Ao dar as costas para este assunto, dão consentimento conivente para a inaplicabilidade da lei e assim, margem a novos crimes de origens diversas. A total erradicação da escravidão deve ser feita, antes de qualquer coisa, na hipocrisia da comunidade social e na demagogia política, suportes para o nascimento da corrupção. Enquanto a UNICEF nos fornece dados superficiais sobre o número de crianças em estado de subnutrição, o tema da escravidão geralmente é utilizado para outras pautas, como a importância de missionários na educação infanto-juvenil. A UNICEF dispõe de não menos que 2 mil funcionários através de uma rede bem articulada em todos os países que compõem o diretório das Nações Unidas, sem contar com as multinacionais que abrigam em seus devidos países, subgerências de forma a “aumentar a contribuição” para a humanitária instituição.

Se o salário destes misericordiosos funcionários não é o suficiente para subsidiar tamanha pesquisa e levantamento de dados verídicos sobre pessoas com correntes, não é menos duvidoso que se comprometam a licitar terceiros que operam clandestinamente sem legitimidade jurídica e com certeza duvidosa.

Esta prática, tão comum na antiguidade, ainda mantém o alicerce básico da prostituição, através do comércio de garotas, narcotráfico, seqüestro, e etc. A verdade é que atualmente existem, em proporção, um número de escravos muito maior do que em qualquer época talvez antes registrada. Que fator é dominante para a negligência dos poderosos, que utilizam a ótica da amenização de informações para a sociedade, em razão ao patrocínio explícito deste tipo de crime a países do terceiro mundo?

Todos sabemos, que numa viagem dos sonhos à Tailândia, paradisíaca à Arábia Saudita, desdenhosa a Israel, turística à Itália ou mesmo calorosa ao Brasil, encontraremos sem dificuldade pessoas vivendo e trabalhando baixo jugo.Talvez, de uma forma ou de outra, encontraremos a explicação e a responsabilidade sob nossos próprios olhos, ou abaixo do céu. Quem sabe, a salvação esteja mesmo no abismo da intolerância e da ignorância, da qual todos foram submergidos.

artigo publicado no www.sarcastico.com.br

Novas Colônias, Antigos Negócios – Parte Um – Colunas – Venus Genetrix


Florianópolis/SC, 02 de Maio de 2007
O mecanismo é o mesmo: conquista-se a ferro e a fogo, ou a cruz e a espada, usurpam e acometem genocídios, antes em nome do Capital e do Senhor, hoje em nome da Democracia e da Liberdade
Haiti, Iraque, Bosnia Herzegovina, Mexico, El Salvador, Guatemala, Colômbia, Mayotte, Ilhas Mascarenhas, Eritreia, Somalilândia, Saint Martin, Guiana Francesa, Guadalupe, Dominica, Antígua e Barbuda, Martinica, Porto Rico, Bahamas, Barbados, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Panamá, Suriname, Bermuda, Ilhas Caymans, Afeganistão, Arábia Saudita, Kwait, Austrália, Nova Zelândia, Timor-Leste, Cisjordânia, Chagos… ufa! Tantos lugares ao sol e tantos nomes por nós “desconhecidos”, mas não para os povos esquecidos.

O Afeganistão, por exemplo, antiga terra da arte gandhara ou, em outros tempos, a “rota da seda”, foi arrasado em nome de grandes mentiras. Em suma, todos os projetos norte-americanos de “apoio” à instalação de reformas administrativas democráticas no novo mosaico, do que chamaremos aqui de neocolonialismo, já receberam amplas críticas da comunidade internacional. As palavras “imperialismo” e “colonialismo” têm virado ultimamente, noções rudimentares que vão desde discursos clichês inflamados até sinônimo de propaganda. Na verdade, quanto mais republicanos e democratas tentam a todo custo embainharem suas espadas e incentivar um formal aperto de mãos, mais explicações teóricas terão de fazer para atestarem que estão sendo pacifistas e sérios negociadores. Paz não é bem uma palavra que condiz com o histórico de crimes contra a humanidade em espantosa escala. Modelos e contratos baratos.

Os projetos com intento de democratizar, humanizar e civilizar levando a bandeira da modernização, totalmente na medida de valores ocidentais, estão sendo julgados in strictu sensu, agora pelo novo agente social, as próprias pessoas dos lugares ocupados. Estas pessoas sempre representaram números para as coroas. Hoje, vemos uma discreta diferença. Vemos claramente quando nos deparamos com noticiários de guerra ou imposições totalitárias em acordos diplomáticos suspeitos. Em todas as nações que houve invasões legitimizadas por outras nações de uma conhecida organização internacional e outras não-oficiais, foram mais cedo ou mais tarde, repudiadas pelo impositivo esforço de aculturá-las para fora do seio natural.

As descolonizações só serviram para ilustrar novas páginas de nossos livros de atlas geopolíticos, em escolas de segundo grau e cursinhos preparatórios. De todas as antigas colônias, nenhuma delas, sem exceção, adotaram o modelo padrão de independência sócio-econômica prometidas por seus algozes. A mudança de um estado protetorado ou associado (num termo mais simpático) para um estado democrático parlamentar ou republicano não difere nos interesses alheios entre as concessões milionárias que costumam angariar tempos antes da sinistra revolução pela independência. Esses países ficarão eternos devedores e presos a uma culpa divina. Mas há casos de inversão, como por exemplo, Ruanda, que logo após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se novamente protetorado da Bélgica, legitimizado pelas Nações Unidas, como autoridade administrativa.

O Estado Livre Associado de Porto Rico é um aglomerado de pequenas ilhas que se encontram nos mares do Caribe, sob os braços elásticos do Tio Sam. Outro exemplo. Estado Livre, Protetorado, Livre Associado… não são títulos que possam realmente desonrar um povo que possui suas próprias identidades sociais e culturais? O mecanismo é o mesmo: conquista-se a ferro e a fogo, ou a cruz e a espada, usurpam e acometem genocídios, antes em nome do Capital e do Senhor, hoje em nome da Democracia e da Liberdade, para depois aprisioná-los em eternas cadeias de dívidas que jamais serão compensadas. Eis a nova ordem mundial. Nada diferente do antigo colonialismo. O Grande Satã sempre esteve vivo e continua mais forte a cada dia.

No século XIX, a Europa deu início a uma escalada de política colonialista sem precedentes. Potências industriais tomaram o lucrativo rumo às Índias, África e América, exercendo total influência, por baixo custo, para que o novo modelo se adaptasse rapidamente às suas condições. Pequenas colônias, grandes negócios. Trusts (oligopólios), holdings (centralizadores), aparatos para a incrementação do novo território anexado, imperializado.

Neste século, as fronteiras desrespeitaram tratados de paz entre os povos que antes haviam se combatido, aumentando a tensão entre eles. Linhas imaginárias na força do lápis foram rasgando identidades étnicas e culturais pré-estabelecidas. As invasões ilegítimas do imperialismo, talvez tenham sido piores as suas conseqüências, agravaram lutas sociais internas sangrentas.

Imperialismo como política de expansão, domínio territorial e cultural. Etnocentrismo levado às avessas, margem suscetível para a expropriação das identidades e para o preconceito racial. Em face da teoria evolucionista de que povos superiores exercem hegemonia sobre outros “aculturados” descenderá inúmeros equívocos e interpretações tendenciosas para posteriormente legitimizar intervenções em nome da liberdade e do progresso. Os meios de comunicação de massa farão o outro papel da nova ordem: a mídia voltada para testemunhar e confirmar as intenções ocultas das propagandas armamentícias.

Filmes, modismos, músicas, expressões linguísticas, cultura alimentar, produtos importados em geral, são algumas lembranças de que essa questão de imperialismo cultural é um grande negócio. Quando a cultura local já é suficientemente forte para poder resistir a uma invasão alienígena, não estará completamente protegida dos efeitos globalizantes. Então, como acontece a la praxis, vêem-se os indivíduos organizarem boicotes contra produtos importados, governos injetando mais força na indústria para gerar uma pretensa atmosfera de nacionalização, e o simples acomodamento político, o “neutro” ou “apolítico”. Fala-se em proibir no dia-a-dia as palavras “religião” e “política”. Senhor e Capital novamente. Tudo se repete, as roupas são usadas e lavadas continuamente. Os povos sofrem a globalização ou colonialismo desde tempos remotos.

artigo publicado no www.sarcastico.com.br

Novas Colônias, Antigos Negócios – Parte Dois – Colunas – Venus Genetrix


Florianópolis/SC, 20 de Junho de 2007

As primeiras desfigurações impotentes de todo processo de construção individual

Efeitos globalizantes foram ditos e por uma série de vezes repetidos no primeiro artigo. Mas além das discussões sobre as características globalizantes como a naturalização da homogeneidade, agora posso expor as primeiras desfigurações impotentes de todo processo de construção individual.

As principais características da globalização neste novo contexto, são a hegemonia política através da cultura e, posteriormente, da comunicação. Os centros urbanos recebem direta influência dessa malha extensa. Uma colcha originalmente de retalhos que torna-se com o tempo cada vez mais uniforme, sendo esta palavra muito bem aplicada aos sistemas geopolíticos atuais. Esta teia de elementos ultra-organizados corresponde à idéia similar do fractal. O sistema vigente opera inversamente ao conceito tradicional àquele de cima para baixo, ou seja, reverte seus padrões e estruturas, desmoronando-as. A nova organização neo-capitalista é uma realidade fractal.

A acumulação do capital descentralizada fortalece o novo modelo econômico por uma gestão fictícia, num passo rumo ao modelo econômico totalitário, porém corporativo. Os blocos geopolíticos acentuam radicalmente as suas revoluções tecnológicas para adaptarem-se ao novo mundo. Macro-homogeneização através de todas as partes econômicas regionais, englobando e deglutinando tecnologia, cultura e comunicação. Essa é a nova “massa” que definitivamente se chamará “universo”.

A universalização dos meios de produção e informação é o auge da possibilidade de domínio privado. Por isso, sem a informação e sem os meios pelos quais ela se reproduz aceleradamente, não há como obter o sucesso do fenômeno titânico. A globalização somente existe graças aos meios de comunicação e é por eles que os mecanismos alternativos de controle de massa começam lentamente a desabrocharem e encontrarem terreno fértil dentro da “Matrix”.

A internet, por exemplo, meio criado nos remotos da Guerra Fria sob o nome de ArphaNet, servia para manter a comunicação de bases militares dos Estados Unidos contra possíveis ataques nucleares. Hoje, a internet se torna a rede mais importante na luta da democratização da informação e contra-informação, popularmente chamada de censura.

Com o fenômeno da antiglobalização, surgem novos painéis anti-nacionalistas. O internacionalismo é uma bandeira um pouco antiga, mas não necessariamente uma “doutrina” que pretende exterminar com o nacionalismo, e sim, uma reiteração conjuntural exprimida por sérios objetivos ideológicos que vão exceder todos os limites históricos, geográficos e constitucionais das nações. Cosmopolitas, neo-humanistas, anarquistas, cooperativistas e certas correntes socialistas, entre outros da comunidade de cooperação global marcam os últimos conflitos sociais, chamados de Ação Direta, contra a globalização.

Desde 18 de junho de 1999 e 30 de novembro do mesmo ano, o mundo deixa de ser “mundo” para se tornar “planeta”. “Planeta” no sentido da totalidade do termo, abertura no processo democrático entre os povos do terceiro mundo, mega-bloqueios aos acordos comerciais, manifestações antimilitaristas, união das vias campesinas, amplos debates ecológicos, feministas e sindicalistas. Os Dias Globais de Ação contra o Sistema Capitalista, por exemplo, foram marcados a ferro no seio das instituições governamentais em todo o mundo. Organizados de forma totalmente descentralizada e horizontal pelos movimentos sociais, as históricas máquinas repressoras do Estado têm encontrado deveras dificuldades quanto ao sistema reacionário anti-popular.

A atualidade da análise de Eduard Said, creio que ainda confirma a idéia de que o imperialismo não acabou nem se tornara “passado” com os processos de descolonização e a desmontagem dos impérios clássicos. A situação política permanece a mesma, com seus braços articuladores, como pontes gigantescas entre o Hemisfério Norte cada vez mais rico e o Sul, mais pobre.

artigo publicado no www.sarcastico.com.br