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Abandone o ativismo


Trechos do artigo de Andrew X (do original em inglês ‘Give up Activism’) publicado pela Conrad Livros,Urgência das Ruas, black block, Reclaim the Streets e os Dias de Ação Global, 2002, org. Ned Ludd. Uma antologia que pode dar subsídios para pensar sobre as ações de grupos, tática de manifestações, além de gerar a abertura para o debate franco sobre militância e ativismo, separação do trabalho social e “engajado”, prática e teoria.

Este artigo não pretende criticar ninguém envolvido em particular – mas sim é uma tentativa de estimular o pensamento sobre os desafios que nos confrontam se levamos realmente a sério a nossa intenção de acabar com o modo de produção capitalista.

EXPERTS

              Por ‘mentalidade ativista’ eu pretendo me referir àquelas pessoas que vêem elas mesmas primeiramente como ativistas e como pertencendo a uma comunidade maior de ativistas. O ativista se identifica com o que ele faz, e o encara como sendo sua função ou papel na vida, como um emprego ou carreira (…) acaba se tornando uma parte essencial da sua auto-imagem.

O ativista é um especialista ou expert em mudança social. Ver a si próprio como um ativista significa ver a si mesmo como sendo alguma espécie de privilegiado ou estando mais avançado do que outros na sua apreciação do que é necessário para a transformação social, no conhecimento de como alcançá-la, e como líder ou pessoa na linha de frente da luta concreta para criar essa transformação.

O ativismo, como todas as atividades de experts, tem sua base na divisão do trabalho – ele é uma tarefa especializada e separada. A divisão do trabalho é a base da sociedade de classe, sendo a divisão fundamental aquela entre o trabalho manual e o trabalho intelectual – experts que devemos confiar para que façam essas coisas para nós. Experts, de modo ciumento guardam e mistificam as habilidades que eles possuem. Isto mantém as pessoas separadas e sem poder, e reforça a sociedade de classe hierárquica.

A divisão do trabalho implica que uma pessoa exerça uma função em benefício de muitas outras que assim renunciam a essa responsabilidade. O ativista, sendo um expert em transformação social, assume que as outras pessoas não estão fazendo nada para mudar suas vidas, o que o faz sentir um dever ou responsabilidade de fazê-lo no benefício delas. Ativistas imaginam que estão compensando a falta de atividade de outros. Definirmos nós mesmos como ativistas significa definir nossas ações como aquelas que trarão a transformação social, e conseqüentemente desprezando a atividade de milhares e milhares de não-ativistas. O ativismo é baseado nessa concepção errada de que é somente ativistas que fazem a transformação social – quando é claro que a luta de classes acontece todo o tempo.

FORMA E CONTEÚDO

              O ativismo pode muito bem acabar com um negócio, porém acabar com o capitalismo requisitará muito mais do que simplesmente estender este tipo de atividade a todos os negócios de todos os setores. Com isso ativistas freqüentemente obtém sucesso na destruição de um pequeno negócio enquanto fortalecem o capital como um todo.

Nós podemos inclusive ter ajudado às leis das forças do mercado, forçando saírem as companhias que são mais fracas e menos capazes de competir. Novamente, o ativismo pode destruir um negócio ou parar uma estrada mas o capitalismo segue muito bem adiante, se não mais forte do que antes.

Estes fatos são certamente uma indicação, se alguma fosse necessária, que ferir o capitalismo requer não somente uma mudança quantitativa (mais ações, mais ativistas). A forma de ativismo tem se preservado apesar do conteúdo desta atividade ter ido além da forma que a contém. Nós ainda pensamos nos termos de sermos ‘ativistas’ fazendo uma ‘campanha’ sobre um ‘assunto’, e porque somos ativistas de ‘ação direta’ iremos e ‘faremos uma ação’ contra um alvo. O método de campanha contra processos específicos tem sido mantido sobre esta nova perspectiva de atingir o capitalismo. Estamos tentando atingir o capitalismo e concebendo o que estamos fazendo em termos completamente inapropriados, utilizando um método de operação apropriado ao reformismo liberal. Temos então o bizarro espetáculo de ‘fazer uma ação’ contra o capitalismo – uma prática absolutamente inadequada.

FUNÇÕES

  A função do ‘ativista’ é uma função que adotamos como aquela do policial, pai ou padre – uma estranha forma psicológica que usamos para definir a nós mesmos em relação aos outros. O ‘ativista’ é um especialista ou um expert em transformação social – ainda que quanto mais forte nos apegamos e somos fiéis a este papel e noção do que nós somos, mais estaremos impedindo a transformação que desejamos. ‘Experts’ de qualquer tipo podem apenas obstruir isto.

O estereótipo é um modelo de um papel; o papel é uma forma de modelo de comportamento. A repetição de uma atitude cria um papel”. Desempenhar um papel é cultivar uma aparência para a negligência de tudo que é autêntico: “sucumbimos à sedução das atitudes emprestadas”. Como desempenhadores de papéis nós vivemos em inautenticidade – reduzindo nossas vidas a uma gama de clichês – “quebrando [nosso] dia em uma série de posturas escolhidas mais ou menos inconscientemente dentro de uma gama de estereótipos dominantes”. O papel do ativista é apenas um desses papéis, e nesse sentido, apesar de toda a retórica revolucionária que existe nesse papel, ele reside em última instância no seu caráter conservador.

A atividade supostamente revolucionária do ativista é uma rotina cega e estéril – uma constante repetição de umas poucas ações sem potencial para a mudança. Ativistas provavelmente resistiriam à mudança se ela viesse, porque ela destruiria as fáceis certezas de seu papel e o agradável pequeno nicho que eles cavaram para eles mesmos. Como chefes de sindicatos, ativistas são eternos representantes e mediadores. Da mesma forma que líderes sindicais seriam contra o sucesso dos trabalhadores na luta porque isto provavelmente os colocariam fora do emprego, o papel do ativista é ameaçado pela mudança. De fato a revolução, ou mesmo algumas mudanças reais nessa direção, desagradariam profundamente ativistas por destituí-los de seus papéis. Se todos se tornam revolucionários então você não é mais tão especial, não é?

Então por que nós nos comportamos como ativistas? Simplesmente porque é a opção fácil dos covardes? É fácil cair no papel de ativista porque ele se adapta à essa sociedade e não a desafia – ativismo é uma forma aceita de dissidência. Mesmo se como ativistas fazemos coisas que não são aceitas e são ilegais, a forma de ativismo em si é da mesma forma de um emprego – significa que ela se adapta em nossa psicologia e nossa formação. Ela causa uma certa atração precisamente porque não é revolucionária.

NÓS NÃO PRECISAMOS MAIS DE MÁRTIRES

  A chave para entender o papel do militante e o ativista é o sacrifício próprio – o sacrifício de si mesmo para ‘a causa’ a qual é vista como algo separado de si próprio. Isto é claro não tem nada a ver com a verdadeira atividade revolucionária que é encontrar a si próprio. O martírio revolucionário caminha junto com a identificação de alguma causa separada de sua própria vida, o poder real do capital está aqui mesmo na nossa vida cotidiana – nós recriamos o seu poder todos os dias porque o capital não é uma coisa, mas uma relação social entre pessoas (e também entre classes) mediada por coisas.

O ativista torna a política cega e estéril e leva as pessoas a se afastarem dela, mas desempenhando esse papel também ele próprio acaba se destruindo. O papel do ativista cria uma separação entre fins e meios: sacrifício próprio significa criar uma divisão entre a revolução como amor e alegria no futuro mas o dever e a rotina agora. A visão de mundo do ativista é dominado pela culpa e obrigação porque o ativista não está lutando por ele mesmo mas por uma causa separada: “Todas as causas são igualmente inumanas”.

              Como um ativista você tem que negar seus próprios desejos porque sua atividade política é definida de tal modo que estas coisas não contam como ‘políticas’. Coloca-se ‘política’ em uma caixa separada do resto da vida – é como um emprego… se faz ‘política’ das 9 às 5 e então se vai para casa e se faz alguma outra coisa. Porque ela se encontra em uma caixa separada, a ‘política’ existe desobstruída de quaisquer considerações práticas de efetividade do mundo real. O ativista se sente obrigado a manter em funcionamento a mesma velha rotina sem pensar, incapaz de parar ou reconsiderar, o ponto principal é que o ativista é mantido ocupado e alivia sua culpa batendo  sua cabeça em um muro se necessário.

Parte de ser revolucionário pode consistir em saber a hora de parar e esperar. Pode ser importante saber como e quando atacar para uma máxima eficácia e também como e quando NÃO atacar. Ativistas têm a atitude ‘Nós precisamos fazer algo AGORA!’ que parece ser movida por culpa. Isto é completamente anti-tático.

O sacrifício próprio do ativista é refletido no seu poder sobre os outros como um expert – da forma como numa religião existe um tipo de hierarquia do sofrimento e da honradez. O ativista assume poder sobre outros pela virtude de seu alto grau de sofrimento (grupos ‘não-hierárquicos’ de ativistas de fato formam a ‘ditadura do mais empenhado’). O ativista utiliza a coerção moral e a culpa para ganhar poder sobre outros menos experientes na teogonia do sofrimento. Sua subordinação de si mesmo anda de mãos dadas com a sua subordinação de outros – todos escravizados pela ‘causa’. Políticos que se auto-sacrificam impedem o crescimento de suas próprias vidas e de seu próprio desejo de viver – isto gera uma amargura e antipatia para a vida que é então virada para o exterior para secar tudo o mais. Eles são “grandes desprezadores da vida… os partidários do auto-sacrifício absoluto… O mártir que se auto-sacrifica é ofendido e ultrajado quando percebe que outros não estão se auto-sacrificando. Da mesma forma que o ‘trabalhador honesto’ ataca o batedor de carteira ou distribui socos com tal causticidade, sabemos que é porque ele odeia o seu trabalho e o martírio que ele fez de sua vida e portanto odeia ver qualquer um que escapa à esta luta, odeia ver alguém se divertindo enquanto ele está sofrendo – ele deve trazer todos para a merda em que ele vive – uma igualdade de auto-sacrifício.

Na antiga cosmologia da religião, o mártir de sucesso ia para o céu. Na visão de mundo moderna, mártires bem sucedidos podem procurar entrar para a história. Quanto maior o auto-sacrifício, quanto maior o sucesso em criar um papel (ou ainda melhor, em deixar um completamente novo para as pessoas igualarem – isto é, o eco-guerreiro), se ganha uma recompensa na história – o céu burguês.

A velha esquerda era muito clara na sua chamada pelo sacrifício heróico: “Se auto-sacrifiquem com prazer, irmãos e irmãs! Pela causa, pela Ordem Estabelecida, pelo Partido, pelo Unidade, pela Carne e Batatas!”

ISOLAMENTO

  A função de ativista é um isolamento auto-imposto de todas as pessoas que deveríamos estar ligados. As pessoas tendem a pensar nelas mesmas na primeira pessoa do plural (a quem você está se referindo quando você diz ‘nós’? ) como se estivessem se referindo a alguma comunidade de ativistas, ao invés de uma classe. Por exemplo, durante algum tempo hoje em dia no meio ativista tem sido popular se expressar por ‘não mais temas isolados’ e pela importância de ‘fazer contatos’. Porém, muitas concepções para essas pessoas do que isso significava se limitava a ‘fazer contatos’ com outros ativistas e outros grupos de campanhas.  O especialista recruta outros para a sua pequena área de especialidade de maneira a aumentar seu próprio poder, deste modo dissipando a percepção de sua própria impotência. “O especialista… matricula a si próprio de maneira a matricular outros”. Como num jogo de pirâmide, a hierarquia é auto-replicante – se é recrutado de maneira a ficar na base da pirâmide, se tem que recrutar mais pessoas para estarem abaixo de você, que farão então exatamente o mesmo.

O grupo político ou partido se auto-substitui ao proletariado e sua própria sobrevivência e reprodução se torna o soberano supremo – a atividade revolucionária se torna sinônimo de ‘construir o partido’ e recrutar membros.  O grupo considera a si próprio como sendo o único possuidor da verdade e todos fora do grupo são tratados como um idiota que precisa ser educado por esta vanguarda. Este método desonesto de lidar com aqueles fora do grupo é semelhante a um culto religioso – eles nunca lhe dirão de frente seus objetivos e pensamentos.

Podemos ver algumas semelhanças com o ativismo, na maneira como o meio ativista age como a esquerda. O ativismo como um todo possui algumas características de uma ‘gangue’. Gangues de ativistas frequentemente acabam se tornando alianças entre classes, incluindo todo tipo de reformistas liberais por eles também serem ‘ativistas’. As pessoas se vêem primeiramente como ativistas e sua primeira lealdade se volta para a comunidade de ativistas e não para a luta em si. A “gangue” é uma comunidade ilusória, que nos distrai de formarmos uma comunidade maior de resistência.  Nós nos vemos como ativistas e portanto como estando separados e tendo diferentes interesses da massa da classe trabalhadora.

Nossa atividade deve ser a expressão imediata de uma luta real, não da afirmação da separação e distinção de um grupo particular. Em grupos marxistas a posse da ‘teoria’ é o elemento que determina o poder – é diferente no meio ativista, mas não tão diferente – a posse do ‘capital social’ relevante – conhecimento, experiência, contatos, equipamento, etc., é o elemento primário determinando o poder.

O ativismo reproduz a estrutura desta sociedade e como ela opera. Este não é um problema trivial, mas é a base das relações sociais capitalistas. O capital é uma relação social entre pessoas mediadas por coisas – o princípio básico da alienação é de que vivemos nossas vidas ao serviço de alguma coisa que nós mesmos criamos. Se nós reproduzimos esta estrutura em nome da política que se declara anti-capitalista, já perdemos antes mesmo de termos começado. Não se pode lutar contra a alienação por meios alienados.

UMA PROPOSTA MODESTA

              Esta é uma modesta proposta de que deveríamos desenvolver maneiras de operar adequadas às nossas idéias radicais. Essa tarefa não será fácil e o autor deste pequeno ensaio não possui uma idéia mais clara de como deveríamos agir sobre este assunto do que qualquer outra pessoa. Pode ser que em tempos de refluxo da luta, aqueles que continuam a trabalhar pela revolução social fiquem marginalizados e passem a ser vistos  (e vejam a si próprios) como um grupo especial separado das pessoas. Pode ser que isto só seja possível de ser corrigido por um generalizado ressurgir da luta, quando não seremos mais pessoas esquisitas e loucas, mas pareceremos simplesmente estar carregando o que se encontra na cabeça de todos. Porém, para trabalhar no sentido de aumentar a luta, será necessário quebrar com o papel de ativista até a proporção que for possível – para constantemente tentar empurrar as fronteiras de nossas limitações e constrangimentos.

Historicamente, aqueles movimentos que chegaram mais perto de desestabilizar, remover, ou ir além do capitalismo não tiveram como um todo a forma de ativismo. O ativismo é essencialmente uma forma política e um método de operar apropriado ao reformismo liberal que tem sido empurrado além de seus próprios limites e usado para propósitos revolucionários. O papel de ativista ele próprio deve se constituir em um problema para aqueles que desejam a revolução social.

 Andrew X

Lançamento do livro “ALÉM DE PARTIDOS E SINDICATOS: Organização Política em Anton Pannekoek” de José Carlos Mendonça


Convite

Editado pela Achiamé, intitulado ALÉM DE PARTIDOS E SINDICATOS: Organização Política em Anton Pannekoek.
Apresentado por Taiguara Oliveira (prefácio) e Iraldo Matias (orelha), eis um extrato de seu conteúdo retirado da quarta capa:

“Além de Partidos e Sindicatos vem em boa hora já que, no Brasil, assistimos ao desfecho – prolongado e agonizante – de um ciclo histórico bastante análogo. Muitos autores e militantes socialistas que tiveram a oportunidade de acompanhar o momento de fundação do Partido dos Trabalhadores, o PT, e da Central Única dos Trabalhadores, a CUT, no início dos anos 80, testemunham que, desde os primeiros passos, a evolução destas duas entidades era a resultante de uma aferrada disputa interna entre, pelo menos, dois projetos completamente antagônicos. De um lado, uma compreensão de organização política fortemente enraizada em núcleos de base combativos (comissões de fábrica, pastorais da terra, comunidades eclesiásticas de base, associações comunitárias, etc.) e animada pela certeza de que o mais importante de toda a construção seria fomentar o surgimento de mais organizações populares e impulsioná-las para a luta política independente. De outro, uma concepção de organização baseada no aprofundamento das diferenças entre massas e dirigentes, com fortes inclinações ao fisiologismo estatal e abertamente reformista. Logo nos primeiros anos da década de 1990, porém, já eram dados os sinais de que esta segunda tendência se tornara incontornavelmente hegemônica.
A partir da apresentação das teses políticas do militante e pensador holandês Anton Pannekoek (1873-1960), tido como um dos dos maiores representantes da tendência conhecida por comunismo de conselhos, o estudo de José Carlos Mendonça nos demonstra que subjacente a esta tendência política estava a constatação de que tanto partidos quanto sindicatos já não eram mais capazes de responder às circunstâncias evoluídas sob a qual se travava a luta de classes. E não só, isto significava que estas instituições tradicionais de luta, sob o capitalismo avançado, tenderiam a se apresentar como verdadeiros obstáculos ao livre desenvolvimento do protagonismo operário. Dado que na história não existem fatos que não tenham sido, um dia, projetos em disputa, o nosso problema teórico consiste em identificar quais “espíritos de organização” estão hoje em conflito e, na prática, empurrar à vitória aquele que privilegia a construção de relações sociais solidárias e igualitárias e a formação de uma consciência política que decorra da própria atividade dos oprimidos.
Por tudo isso, refletir sobre os dilemas da organização política continua sendo o maior dos desafios colocados para a esquerda anticapitalista no Brasil e no mundo. Eis uma questão de nosso tempo que, sob vários aspectos, é amplamente abordada em Além de Partidos e Sindicatos.

A nova coluna do SARCÁSTiCO estréia com o pé direito


– Novembro de 2007

Glauco Mattoso marca a temporada como novo sarcástico

Sem meias palavras, sem meias intenções e literalmente… sem meias, é a estréia do nosso novo colunista sarcástico e não poderia ser diferente, irreverente e polêmico: Pedro José Ferreira da Silva, poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias, sob o pseudônimo de Glauco Mattoso(paulistano de 1951), como trocadilho de “glaucomatoso” (portador de glaucoma, doença congênita que lhe acarretou perda progressiva da visão, até a cegueira total em 1995), além de aludir a Gregório de Matos, de quem é herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Ainda nos anos 70 participou, entre os chamados “poetas marginais”, da resistência cultural à ditadura militar, época em que, residindo temporariamente no Rio, editou o fanzine poético-panfletário Jornal do Brabil (trocadilho com o Jornal do Brasil e com o formato dobrável do folheto satírico) e começou a colaborar em diversos órgãos da imprensa alternativa, como Lampião (tablóide gay) e Pasquim (tablóide humorístico), além de periódicos literários como o Suplemento da Tribuna e as revistas Escrita, Inéditos e Ficção. Durante a década de 80 e o início dos 90 continuou militando no periodismo contracultural, desde a HQ (gibis Chiclete com Banana, Tralha, Mil Perigos) até a música (revistas Somtrês, Top Rock), além de colaborar na grande imprensa (crítica literária no Jornal da Tarde, ensaios na Status e na Around), e publicou vários volumes de poesia e prosa.

Com o advento da internet e da computação sonora, voltou, na virada do século, a produzir poesia escrita e textos virtuais, seja em livros, seja em seu sítio pessoal ou em diversas revistas eletrônicas (A Arte da Palavra, Blocos On-line, Fraude, Velotrol) e impressas (Caros Amigos, Outracoisa). Jamais deixou, entretanto, de explorar temas polêmicos, transgressivos ou politicamente incorretos (violência, repugnância, humilhação, discriminação) que lhe alimentam a reputação de “poeta maldito” e lhe inscrevem o nome na linhagem dos autores fesceninos e submundanos, como Bocage, Aretino, Apollinaire ou Genet.

Com esse brinde, é com o maior prazer ou desgosto para alguns, que temos não somente como admiradores deste autor maldito mas um romance de parceria do sarcasmo original.

à votre santé!

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8 de anos de Seattle


Florianópolis/SC, 30 de novembro de 2007

O aniversário bastardo da história

E você? O que estava fazendo no dia 30 de novembro de 1999? Não se lembra? Engraçado… é comum vermos a mesma pergunta para aquele “inesquecível” 11 de setembro de 2001, aqui e ali, na mesa de bar, geralmente às risadas ou piadinhas enfadonhas, mas talvez outras datas, que não nos remetem importância, parece termos em operante o “deletar” da memória. Naquele 11 de setembro podemos inclusive nos lembrar de cada minuto, cronologicamente, relacionando e construindo nosso diário, imerso nas divagações de por quê, como e para quê daquela fatalidade.
E 30 de novembro? Outra fatalidade? Poderia ser no mesmo ano talvez: Gênova, Itália, julho de 2001, antes do atentado às Torres Gêmeas…
Seattle, novembro de 1999 e Gênova, julho de 2001 são ambas memoráveis do ponto de vista “alternativo” paralela à ação “terrorista” de Nova Iorque e Washington. Os três acontecimentos têm relação entre si, assim como muitos outros em escala infinitamente menor, porém, aquilo que costumamos acreditar ou nos forçar a crêr, graças a um meio de comunicação, por exemplo, será nossa opinião formulada e ponto. Além daquelas imagens, diga-se de passagem, show de imagens, de fogo e fumaça na TV, formavam um cenário fantástico de um espetáculo televisivo onde talvez, pela primeira vez, depois da Copa do Mundo e a Pegada do Homem na Lua, dera absurdos picos de audiência. Um uníssono “Ohhh! Que terror!” e continuávamos com nosso cafezinho com açucar. Não demorou muito para que aquele espetáculo visual se transformasse rapidamente num sentimento xenófobo e virulento, onde até tivemos sérios problemas com imigrantes aqui no Brasil. Só que um detalhe: a mesma “opinião pública” – geralmente gerada pela TV – não qualifica o mesmo tipo de violência quando os mariners ou tanques sionistas destróem vilas e matam centenas de iraquianos, palestinos e afegãos.
Em 1999, o movimento anti-capitalista levou à frente as manifestações da “Ação Global dos Povos” que promovia vários “Dias Globais de Ação contra o Sistema Capitalista” por todo o mundo com início em 18 de Junho de 1999 durante a cimeira do Fundo Monetário Internacional (FMI) e 30 de Novembro de 1999 por ocasião da cimeira da Organização Mundial do Comércio (OMC). Seattle foi o palco que nesse dia ficou marcado “inesquecivelmente” para milhares de pessoas em todo o mundo. Esse fato, que atingiu proporções tamanhas, forçou a aliança das grandes corporações disfarçadas de nações na sua chegada e promovera a primeira vitória. O bloqueio de acesso ao WTO (World Trade Organization, ou Organização Mundial do Comércio) impediu a chegada dos vários “sócios” ao local da cimeira. Um dia que ficará na história pela força midiática da imprens alternativa e posteriormente às cenas de vilência policial que ficaram registradas. Surgido dessa linha está o primeiro Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 2001.
Parabéns pelos 8 anos àqueles que não esqueceram do memóravel bloqueio.
à votre santé!
artigo publicado no www.sarcastico.com.br

138 Anos do Nascimento de Emma Goldman – Colunas – Venus Genetrix


A criadora da revista anarquista Mother Earth (Mãe Terra) nascia em 27 de Junho de 1869
Mulheres… que tomam consciência de seus direitos todos os dias, com suas reinvidicações e lutas pelas longas jornadas de trabalho, radicais a cada centímetro conquistado. Certamente mais pertinentes ao que no século passado foi chamado de anarco-feminismo. Arrancou do patriarcado e do capital o seu direito de voz e emancipação, na construção pela dignidade autônoma em todos os aspectos sociais. Todas as mulheres, desde feministas, anti-capitalistas, guerreiras donas-de-casa a profissionais autônomas são identificadas como herdeiras de uma corrente muito anterior à revolução dos sutiãs e mini-saias das décadas de 40 e 50.
O mês de março para as mulheres como para todos os homens igualmente, significa historicamente a resistência heróica do movimento operário.
Quando no auge da contra-revolução e do sistema reacionário, operárias que reinvidicavam melhores condições de trabalho e horas diárias, foram queimadas quando se organizavam para conscientizar as massas de trabalhadores.
Mulheres como Maria Lacerda de Moura, Emma Goldman, Wollstonecraft e Louise Michel ajudaram a fundar a primeira Federação Internacional Feminina nos meados de 1920, dando à causa operária mais lenha para o fogo. Importâncias fundamentais como direitos da criança e da mulher, qualidade da educação, inclusão de cursos superiores como Pedagogia, Pediatria, Assistência Social e Higiene, debates políticos sobre trabalho doméstico e industrial, infância delinqüente, investigação à paternidade, direitos civis e políticos, tráfico humano, casamento-divórcio, salário, eugenia e proteção aos animais foram defendidos até a morte por estas mulheres.
Emma Goldman, a criadora da revista anarquista Mother Earth (Mãe Terra), nascia neste 27 de Junho de 1869. Emma Goldman ficou conhecida pelos seus textos e discursos feministas, além das suas críticas ácidas à Revolução Russa de 1917. Emigrou para os Estados Unidos com 17 anos em 1886, onde é expulsa em 1919 em razão da sua intensa atividade política. Participou da Guerra Civil Espanhola onde teve ampla cooperação de vários anarquistas na época. Vem a falecer no Canadá. Um dos fatos mais marcantes na história de Emma foi sua presença durante o enforcamento de quatro anarquistas depois da Revolta de Haymarket. Isso levou Emma diretamente à militância e com vinte anos ela se tornaria uma referência.
Em um dos trechos de Mother Earth, ela escreve: “A história nos diz que foi por seus esforços que em toda época os oprimidos realmente libertaram-se de seus senhores. É absolutamente necessário que a mulher guarde essa lição: que sua liberdade ampliar-se-á até onde se ampliar seu poder de libertar a si mesma.” E na Epopéia de uma Anarquista: “Para mim, o anarquismo não era uma teoria aplicável em um futuro distante, mas um trabalho cotidiano para libertar-se de suas inibições, as nossas e as alheias, e abolir as barreiras que separavam artificialmente as pessoas.”
A própria palavra “feminismo”, foi largamente distorcida e corrompida ao longo do tempo, seja pelos elementos repressores na figura do Estado-Patrão ou na figura santa do Pai-Sacerdote. Isto já desde o germe bíblico no papel de Adão e Eva, Zípora e Moisés, Sara e Abraão, Raquel e Jacó. Aliás, alguém sabe da história “heróica” destas sombras de mulheres? Certamente que não, pois podemos ter inumeráveis relatos sobre a vida destes patriarcas e nenhum destas pobres mulheres, em séculos de opressão e sujeição.
“As mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja.” (I Corintios 14:35-36) Ou: “Vós, mulheres, submetei-vos a vossos maridos, como ao Senhor; porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o Salvador do corpo. Mas, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres o sejam em tudo a seus maridos.” (Efésios 5:22-24) Mais: “Para que elas [mulheres idosas] ensinem as mulheres novas a amarem aos seus maridos e filhos, a serem moderadas, castas, operosas donas de casa, bondosas, submissas a seus maridos, para que a palavra de Deus não seja blasfemada.” (Tito 2:4-5) E para todos os gostos, temos para aqueles que gostam de refutar um ou outro, estas citações tanto encontram-se no Antigo como no Velho Testamento, como no próprio Gênesis: ”Deus disse à mulher: ‘Multiplicarei grandemente os teus sofrimentos e a tua gravidez; darás à luz teus filhos entre dores; contudo, sentir-te-ás atraída para o teu marido, e ele te dominará”’.Gênesis 3:16
Hoje, a palavra “feminismo” infelizmente ainda resvala para o deboche e a vulgarização do modelo feminino. A supra-exibição de sexismo à imagem de consumo são tidas como pequenas “vitórias” do feminismo, e há quem defende isso em teses! Enquanto se brinca de quebrar barreiras, mesmo que sejam as atléticas, a problemática da emancipação continua existente e muito cruel para a vida de todas as mulheres. Na TV você olha para aqueles belos comerciais, onde vê lindas mulheres com caríssimas jóias e apetrechos estéticos mui relevantes, porém altamente demagogos. A mulher e a família que assiste esse mesmo comercial vive uma realidade totalmente diferente.
Só este ano, pesquisas constatam que em cada 100 mulheres brasileiras 15 vivem ou já viveram algum tipo de violência doméstica, segundo o Relatório Analítico da Secretaria de Pesquisa e Opinião Pública de 2007. Sendo que a situação mais grave se encontra na Região Norte, onde 1 em cada 5 mulheres afirmaram que já foram vítimas de violência. Elas são sim duplamente mais esforçadas e por isso, exploradas, pois além de assumirem do berço a pré-condição de donas-de-casa, são obrigadas a trabalhar fora para contribuir na renda dentro de casa. Em todos os casos, sem benefício.
A história de luta feminina é uma história de saídas e desencontros, pois em muitos aspectos se obtém pequenas conquistas suadas, em outros, são simplesmente perdidos seus direitos. Mulheres negras, sem-terra, desempregadas e subempregadas (a maioria), deficientes, fazem parte da verdadeira realidade brasileira. E são mulheres como Matilde Magrassi, Isabel Cerruti, Antonia Soares, Maria Angelina Soares, Maria de Oliveira, Tibi e Miriam Moreira Leite que, aderindo à causa anarquista em meados dos anos 20, trouxeram novas críticas e acabaram fundamentando sérias organizações trabalhistas femininas. São as mesmas no seio de diversas sociedades libertárias como em Chiapas, onde vemos índias erguerem armas junto ao EZLN (Exército Zapatista de Libertação Nacional) contra o neoliberalismo a favor de sua autonomia. Esta resistência é ativa e permanente, apesar de viverem ainda em “clandestinidade” já têm reconhecimento de sua luta por todos os povos oprimidos.
Neste conceito, é impossível falar de movimento zapatista e luta armada dos Índios de Chiapas sem falar da luta das mulheres, assim como as atividades das ativistas da organização de Cabul RAWA (Associação Revolucionária da Mulher Afegã – a qual pessoalmente já enviei alguns artigos), que sofrem torturas e são perseguidas há 10 anos desde a criação do órgão. Elas trabalham com a assistência de famílias de perseguidos pelo antigo Taliban ou Jehadis.
Mas ainda muitas destas famílias têm membros presos no Afeganistão.
Em março deste ano, comemorou-se os 101 do lançamento de Mother Earth.
> Mais informações sobre Emma Goldman e suas obras:
www.sunsite.berkeley.edu/Goldman/www.pt.wikipedia.org/wiki/Emma_Goldman
O Significado Social do Teatro Moderno (1914)
Mother Earth (1906 – 1917)
Minha Desilusão na Rússia (1923)
Minha Nova Desilusão na Rússia (1924)
Vivendo Minha Vida (1931) – Autobiografia
Outras fontes:
artigo publicado no www.sarcastico.com.br