Arquivo da categoria: Anarquismo Social

ESTADO VIOLÊNCIA, GOVERNO DE EXCEÇÃO


“Violento é o sistema que excluiu a maioria da população das riquezas produzidas; violento é um sistema que mesmo abundante ainda reserva a miséria, a fome e a escassez à população pobre; violentos são os despejos e a repressão policial decorrentes das obras de megaeventos como a Copa e Olimpíadas. Violenta é a realidade a que o povo está submetido!”
CABN

Crise e falência das instituições

Há indicativos para uma crise de representação política no país instaurada há alguns anos pela gravidade mais complexa que atravessa conjunturalmente todo o mundo contemporâneo. São sintomas de desgaste da máquina estatal perante os rumos incertos. Ora causados pela falta de credibilidade na democracia representativa, ora pela tensão econômica da desigualdade. Esse abismo entre o Estado e a sociedade, transversalizado pela mídia burguesa, vem se alargando de forma que, em alguns lugares, inexiste quaisquer capilaridades – comprovando a parcialidade de Sua Onipresença. Remendos são feitos com o intuito de diminuir estas lacunas sociais, como os orçamentos participativos de planos diretores que viraram peças políticas eleitoreiras e fraudulentas. A orquestração midiática, de uma elite burguesa e detentora da maior fatia dos meios de comunicação, estrangula o direito à informação e à democratização desses meios, impossibilitando maior acesso e difusão dessa ponte entre as diversas esferas sociais. O antagonismo entre a grande mídia e as mídias livres, está condicionado no âmbito da oportunidade dos espaços disponíveis para questões importantes de toda a sociedade. Sem eles, a participação política dos indivíduos está confinada a cada quatro anos. Movimentos e novas instâncias criadas a partir de baixo, como A Outra Campanha são ferramentas e fóruns livres de debates horizontais, sem a intermediação do Estado e da mídia burguesa, que só tende a fortalecer a viva chama dos debates políticos e dá voz àqueles que não se sentem mais representados. Pelos espaços de inserção fora das eleições!

A necessidade do debate sobre o Poder Popular

O espetáculo democrático é assistido cotidianamente nas televisões, jornais e redes sociais de milhões de pessoas. O sentido da ausência de entendimento sobre o conceito real de política que é reproduzido violentamente, mostra um caráter monopolista de anulação por parte dos setores que defendem esta estratégia. Em notas nas matérias que cobriam as últimas manifestações no país, podíamos ver o discurso hegemônico em defesa de um “movimento apartidário” e “apolítico”, no sentido mais oportunista possível. Para um movimento apolítico, ou seja, sem pauta e sem objetivos concretos, apoiado pelos setores privado e de controle total da mídia global, os mecanismos de difusão dessa ideologia conservadora e reacionária só tende a chocar-se com a inevitabilidade de uma luta e combate ideológicos, cada vez mais acirrado.

Não há dúvidas, que mesmo entre os partidos legalistas auto-intitulados de esquerda, existem forças comprometidas com conquistas a curto e médio prazo, na amplitude da participação popular na vida institucional e pequenas instâncias como conselhos comunitários, etc. No entanto, as verdadeiras mudanças  concretas a nível de massas, estão condicionadas à organização de base das lutas sociais e, principalmente no acúmulo de forças. O debate sobre poder popular ainda não está inserido e enraizado nos setores mais baixos, precisamente pelo argumento anteriormente discutido, dada a ausência de credibilidade ao universo da política e do controle ao acesso da informação. Da mesma forma, o debate sobre poder popular entre as esquerdas não está alinhado pela unidade do conceito.

A grande parcela da população, as camadas mais baixas, marginalizadas, classes exploradas e oprimidas que sofrem cotidianamente e diretamente com este sistema político-econômico, vem a cada dia, com forças sociais reais, construindo a consciência de que, a democracia posta nos outdoors e nas propagandas midiáticas, já não possui os efeitos desejados. O povo, ressignificação dos de baixo, os oprimidos, e não uma massa informe e heterogênea de ideologias, vem tomando as ruas a partir do momento em que suas pautas históricas são finalmente ouvidas, suas bandeiras de lutas levantadas. Partidos e monopólios da mídia não dão mais conta da enormidade dessa tarefa que urge há décadas. Para as classes dominantes, não há mais tranqüilidade, a paz está conformada com os cemitérios, como nos escreve um velho militante da FAU. Os palanques e a jogatina política de alianças baseiam-se na maior parte das vezes para engrossar o caldo do domínio das regras do Estado, e não em projetos de transformação social.

Autocrítica, avanço e acúmulo

Não há reconhecimento e expectativa da grande massa que vive, segundo o IBGE com padrão de vida entre a linha da miséria e entre ela, ou seja, 58% da população que, pelo menos entre quatro itens (educação, saneamento, mobilidade e saúde) apresenta uma falta em um desses serviços básicos. Onde os mecanismos de participação coletiva podem preencher a lacuna do Estado, no nível social, estes números poderão ser contestados. Um Estado de Bem-Estar Social não condizente com seu programa ideológico retrata sua insuficência política. E descontrole das ruas e das periferias em levante. É evidente que o mesmo espaço público é usado pelo oportunismo da direita golpista e a crescente fascistização da “opinião pública” gerada pelo inconformismo da governabilidade e seus acordos absurdos.

No entanto, o que deveria ser um passo à frente junto às antigas bandeiras de luta históricas, para gerar esse acúmulo de forças, imprimindo um caráter de protagonismo popular às demandas postas, voltamos passos atrás contra uma mascarada arena rasa de participação política das camadas médias. As incertezas dos modelos institucionais não canalizados para os processos de ruptura, implicam de forma refletida, nas manifestações contra o campo amplo da esquerda. O comportamento da mídia oportunista e as incompreensões letárgicas dos partidos de esquerda em seus posicionamentos, comprometidos com legendas, acordos para 2014, geraram uma armadilha para além de 2016.

Toda a lógica tecnocrática governista, viu-se incapaz de:

1 – compreender a realidade dos movimentos sociais que há anos vem conquistando espaço e ganhando debates nas ruas, escolas, universidades, na cidade e no campo;
2 – ter o poder da repressão às suas mãos de forma controlada, ou por vezes, quando não houve rebeliões internas nas forças militarizadas;
3 – ter o compasso ideal entre as bases e as cúpulas dos partidos do governo, gerando críticas e rachaduras cada vez mais evidentes em seus interiores;
4 – resolver e liquidar com a intelligentzia fascista de orientação radical que impôs ritmo às manifestações fazendo alimentar uma atmosfera de dejavu da Ditadura e do período varguista do Estado Novo;
5 – não ouvir e articular com os movimentos sociais de gênero em detrimento de favores chantagistas de bancadas de fundamentalistas religiosos;
6 – retroceder na luta pelos Sem-Terra, atingidos por barragens, pelos direitos indígenas e quilombolas, entre outros.

O caos fez capitular administrações oligárquicas e ganha corpo ao embate físico contra os hostilizadores das pautas concretas. Na Espanha com os indignados, os países árabes com suas Primaveras, crise democrática na Grécia e Turquia, demonstraram claramente que as massas ao saírem pras ruas, são capazes de demonstrarem sua força e por meios ditos “violentos” adquirirem suas conquistas legítimas. Mas, retornando ao entendimento do poder popular, força não organizada, que não vem implicada diretamente na base-raiz dos problemas estruturais, também não podem ter a capacidade e potencial de garantir a transformação social. No exemplo da Espanha, após as mobilizações e ocupações dos espaços públicos, um partido conservador de orientação fascista (quase franquista) assumiu o governo; no Egito, há um ultimato para que as forças militares passem a controlar novamente o país.

Governabilidade e Estado de Exceção

O projeto desenvolvimentista concebe a sociedade como um grande mercado. Nele, sob a bandeira liberal, conformam-se aglomerados econômicos das mais diferentes matizes. Se esfacelam entre si, como no sistema parlamentar, mas apostam em uníssono a unidade do sistema. Essa autocracia liberal, ao organizar os espaços da vida social, diminuem e prejudicam as formas horizontais alternativas ao sistema de controle, seja ele político, econômico, jurídico ou cultural. Somos parte de um organismo sistêmico que é/foi concebido como uma microempresa, que recebe ou investe em fundos por outros conglomerados, estados, países, federações.

Tanto a social democracia do PT quanto o neo-desenvolvimentismo do PCdoB, no 4º CODE (Conferência do Desenvolvimento realizada pelo IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) focam-se na “continuidade do processo de expansão econômica” no intuito de alimentar o mercado interno com novos empreendimentos, estabilizar a renda, garantindo um mercado cada vez mais forte e competitivo. Um pouco diferente do desenvolvimentismo clássico do PSDB e demais bases progressistas empresariais, o neo-desenvolvimentismo contorna o fisiologismo e instâncias de participação popular um tanto mais envernizadas.

Desde a exasperada corrida em abraçar desesperadamente os megaeventos da Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas, o governo do aço e do concreto transforma os espaços urbanos (sem falar no Código Florestal e Belo Monte) em pequenos estados de exceção. O escândalos se iniciam com pequenos comitês pró-Copa do Mundo nas capitais e a base governista toma as iniciativas em defesa da recepção dos megaeventos. Ex-Ministro dos Esportes, Orlando Silva, demitiu-se para que o PCdoB não ficasse na contenção das acusações de corrupção e convênios, dentre elas a PF no Rio Grande do Sul que dirigiu operações contra crimes no código penal este ano. Na briga para não perder os cargos e promessas, assume Aldo Rebelo, relator do novo Código Florestal para o Ministério dos Esportes. Não obstante, vagas são disputadas a foice e martelo pelas forças governistas que compõem a UNE que se “voluntariam” para trabalhar e incentivar esse voluntarismo para a Copa do Mundo, em troca de outros jogos em pauta.

Multinacionais como a FIFA e a Coca Cola tem ditado as regras mercadológicas e do espaço urbano. Organizações de classe como o Comitê Popular da Copa e o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), além da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST), Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD-pela Base) são forças políticas que vem denunciando e atuando na mobilização popular desde 2010. Com os olhos nos projetos megalomaníacos na Copa do Mundo na África do Sul em 2010, as organizações populares daquele e deste país já denunciavam o rombo numérico de bilhões de dólares em elefantes brancos. Estão sendo demolidos. Foram gastos US$ 4,9 bilhões com o velho discurso de geração de renda e turismo local – como até hoje grandes corporações propagandeiam para a mídia burguesa. Mentira. Aproximadamente 100 mil trabalhadores deixaram seus subempregos para engressarem na longa fila da miséria. O próprio Serviço de Proteção ao Crédito e a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas informava que só 3% do total de ingressos na Copa das Confederações foram comprados por não brasileiros, desfazendo a máxima das oportunidades turísticas e empreendedoras para as regiões.

Cerca de 627.000 empregos foram perdidos e milhares de removidos à força de suas casas. No Pan-Americano do Rio de Janeiro em 2007, seria um prenúncio da lógica mercantil: sob a caneta de Eduardo Paes (PMDB), como Secretario de Esportes e Turismo foi posta em prática a famigerada “força-tarefa” do governador Sérgio Cabral (PMDB), que visava o início das remoções de comunidades e a recuperação da Aldeia do Maracanã, para os Jogos Pan-Americanos que teve o orçamento superfaturado. A onda é “derrubar e depois reassentar”, sem atender os mínimos critérios do Plano Diretor ou seus direitos garantidos. Até a presente data, só em São Paulo, mais de 70 favelas foram incendiadas desde 2012 – número divulgado pela Defesa Civil – sem contar outras grandes capitais, como Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre, esta última, com uma ocorrência trágica ao lado de um novo estádio. Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) teve pedido de prisão preventiva pelos crimes cometidos pela PM na reintegração de posse do Pinheirinho no ano passado.

Na verdade, os gastos são ainda maiores contando com a privatização dos portos e dos aeroportos. As remoções forçadas não são exclusividade do Brasil ou dos países sedes de megaeventos, já que fazem parte da lógica mercantilista liberal e expropriadora em todos os países com matizes subimperialistas. Nas Olimpíadas de Pequim de 2008, mais de 1 milhão de pessoas sofreram da mesma forma este novo modelo.

Para o TCU, de setembro de 2011 a fevereiro de 2012, o valor total das obras superam a casa dos R$ 25 bilhões, mais da metade dinheiro do Estado, público. A ordem é, primeiro elitiza-se o acesso à cidade, restringindo a mobilidade urbana com valores tarifários altos para o povo, segundo, aumento das condições de moradia com aluguéis caros, terceiro, aumento das cestas básicas e, por último, aqueles que não se enquadram no nível de “qualidade de vida” são expulsos ante uma cidade que se molda às novas infraestruturas globais.

Através de leis de exceção, onde Estado/União e Multinacional (FIFA) atuam como entidades semelhantes, fazem acordos sobre de regulação, do espaço urbano, mercadológico, das forças de repressão, fundiários, ambientiais e jurídicas. Uma delas como a Lei Geral da Copa, dita os privilégios da empresa sobre a exclusividade total de atividades comerciais assim como de mobilidade urbana. Outra lei em trâmite, é a de negar direitos de manifestação, mesmo pacífica, durante a Copa, chamada Lei do Terrorismo. Lei da Greve, que suprime o direito de paralização. Lei da Cultura, que proíbe as mais variadas manifestações culturais durante o evento. Lei da Exibição que também proíbe as massas de assistirem aos telões nas ruas em razão do alto valor dos ingressos. Lei de Propaganda, proibição da decoração das ruas com quaisquer cartazes políticos contrários ao evento, reforçando o monopólio da informação. São todas leis concedidas pelo Estado a uma multinacional para que opere em conjunto, com sanções civis e penais, além da criminalização dos movimentos sociais. A “soberania nacional” tão defendida tanto pelos neo-desenvolvimentistas quanto pelos liberais está posta em cheque, através dos projetos de lei geral, que abre as fronteiras para uma invasão capitalista sem precedentes. O Estado brasileiro assinou termos de responsabilidade quanto a “todo e qualquer dano resultante” à FIFA.

Estamos diante de aproximadamente 200 mil pessoas removidas… e de acordo com o Sr. Valcke,  secretário-geral da FIFA, “menos democracia é melhor para se organizar uma Copa do Mundo”. Estamos diante de uma visível guerra de classes e higienização social.

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1º de Maio: Dia do Trabalho ou Dia do Trabalhador?


Está na hora de ver o horizonte à frente e buscar outra sociedade, livre de exploração, desigualdade e miséria. O ideal de uma vida conquistada pela solidariedade e na luta. Para superar essa sociedade onde comanda a miséria, o desemprego e a perda dos direitos dos trabalhadores, é necessário a união dos trabalhadores e explorados! Unidos e mobilizados temos força para reivindicar nossos direitos, reivindicar justiça e liberdade!

O que realmente o 1º de maio? Como registro da luta contra a opressão, vamos relembrar:

1. “A redução das horas de trabalho é o 1ª passo da emancipaçao operaria”.

2. Reivindicação pela redução progressiva das jornadas de trabalho, de 16 para 8 diárias.

3. Salário profissional.

4. Meia jornada de trabalho para jovens poderem estudar.

5. Aposentadoria

6. Creches nas empresas.

7. Assistência médica e hospitalar.

8. Igualdade de direitos e justiça para todos os trabalhadores: homens e mulheres

O 1º de Maio tem sido, ao longo dos anos, uma comemoração, um feriado para quem trabalha ou quem está desempregado, um dia de descanso, uma data no calendário de feriadões a mais no ano. Vemos toda uma apologia ao lazer e ao ócio, literalmente um dia em que os empresários, CDL, indústria e demais setores do trabalho fazem desta data uma festa. A começar pela propaganda: “Dia do Trabalho!”. Sindicatos fazem sorteios de carros e prêmios, apresentações artísticas, dentre outros eventos culturais que, segundo eles, visam ao prazer do ofício. O que muita gente não sabe é que a história deste “feriado” condiz com uma batalha constante daqueles que lutavam por melhores condições de vida. Seu nome correto era “Dia do Trabalhador”, mais precisamente: “Dia do Internacionalismo Proletário”. Alguns costumam pensar que aquelas lutas pelos direitos são muito antigas e hoje já estão ultrapassadas, por isso não há motivos para continuar lembrando de velhas memórias. Será mesmo?

Essa data marcou definitivamente o que chamamos de luta de classes e, no entanto, esse confronto entre aqueles poucos que têm muito contra aqueles muitos que têm pouco, hoje em dia é cada vez mais atual. Há desigualdade entre categorias, assim como precarização dos trabalhos, desigualdade entre homens e mulheres, trabalho infantil, informalidade, semi-escravidão, altos impostos, aposentadoria individual, déficit de carteiras assinadas, dentre outras carências que o trabalhador e o desempregado sofrem. Enquanto os políticos passam a reivindicar seus próprios salários, a maioria da população reparte as migalhas dessa riqueza não distribuída. Isso, sem falar das contínuas reformas trabalhistas, com antigos direitos que são definitivamente usurpados pelas novas leis, na chamada “flexibilização”. De fato, se estamos tão longe das discussões abertas e públicas sobre política, estamos mais longe ainda das jornadas de luta pela melhoria salarial e por nossos direitos, que hoje perdemos pouco a pouco.

Ter uma carteira assinada hoje é uma vitória! Mais de 15 milhões de pessoas estão inseridas no trabalho informal sem quaisquer assistências e direitos, como férias, vale-alimentação, vale-transporte, 13º salário, etc. Toda cidadã e cidadão tem direito a uma vida de subsistência digna, livre da exploração. Isso é exatamente o que não acontece neste país e no mundo.

Normalmente, a história contada é a versão dos vencedores. Pouco se sabe que, em 1937, Getúlio Vargas foi obrigado a criar um ministério do trabalho que se encarregou de controlar todos os sindicatos, uma resposta dada para a organização em massa dos trabalhadores, que era capaz de conquistar grandes mudanças. Vargas destrói o sindicalismo e se proclama “pai dos pobres”, “pai dos trabalhadores”. Não é à toa: aqueles que deveriam ser defensores das causas sociais, os políticos, são os nossos maiores inimigos porque privilegiam seus próprios interesses individuais e não nos representam. Aqueles que deveriam ser nossos defensores contra a exploração no trabalho, as centrais sindicais, são nossos traidores quando não estão ombro a ombro com os que estão todo o dia na labuta. É através de festas e “feriados” que um e outro transformam a vida do povo em pão-e-circo. Ainda por cima, a mídia tem a função de propagandear a ideologia dos poderosos, escondendo a história do 1º de maio e tirando seu caráter de reivindicação.

8 de Março é das trabalhadoras de um mundo novo


Dia da Mulher Trabalhadora – Breves biografias de dez mulheres. Aos poucos, como as costureiras dessas histórias que vamos contar, vamos costurando essa colcha de retalhos tão rica que é a experiência de lutas dos povos do mundo. Como as educadoras, vamos passando isso pra adiante, para os filhos e filhas do povo, que já nascem com o punho levantado. Essas mulheres junto com aquelas 129 queimadas dentro da fábrica, junto com todas as lutadoras do povo que já se foram e as que seguem, recebam nossa modesta homenagem.

Companheiras libertárias


Malvina Tavares
Seu nome completo era Júlia Malvina Hailliot Tavares. Natural de Encruzilhada do Sul, RS, nasceu em 24 de novembro de 1866. Pioneira do ensino laico no Brasil.  Formada, foi lecionar na vila de Encruzilhada, em 1898, ministrando aos seus alunos um tipo de educação laica e libertadora, espécie de Escola Moderna, nos moldes daquela defendida pelo educador espanhol anarquista Francisco Ferrer. Malvina faleceu em 16 de outubro de 1939. Há uma rua com seu nome em Porto Alegre.

Fonte:  Os anarquistas do Rio Grande do Sul – João Batista Marçal

Dorvalina Martins Ribas
Nasceu em Porto Alegre, RS, em 12 de agosto de 1900. Ainda estudante se tornou discípula de Francisco Ferrer e adepta do ensino laico. A escola funcionava na Rua Ramiro Barcelos, 197, na então chamada Colônia Africana, espécie de gueto negro localizado onde fica hoje o bairro Bom Fim. O “Correio do Povo” de 3 de maio de 1919 informa que nas comemorações do 1º de maio a passeata operária parou na frente da Escola Moderna e ali foi saudada por seus alunos com o hino “Porvir”. Os trabalhadores – segundo a mesma fonte – responderam a homenagem cantando o hino “Filhos do Povo”. À frente dos alunos, a professora Dorvalina Ribas. Dorvalina e Jesus integravam o Grupo Anarquista Internacional, em 1928, quando ela proferiu uma concorrida palestra na homenagem que a FORGS prestou à memória de Francisco Ferrer. Este ato ocorreu na rua Jerônimo Coelho. A partir dos anos 30, Dorvalina e o marido seguem dedicando-se è educação infantil, construindo o Instituto de Assistência e Proteção à Infância, junto à pedreira do Morro de Santo Antônio. A idéia surge depois que o casal recebe a denúncia de que um grupo católico mantinha crianças em um porão sujo, alimentadas de restos de comida de restaurantes da burguesia. Criam o instituto para abrigar as crianças, reunindo as poucas economias do casal, com muito empenho e apoio da comunidade. A educadora virá a falecer de câncer em março de 1944, com 43 anos.

Fonte: Os anarquistas do Rio Grande do Sul – João Batista Marçal

Espertirina Martins
Natural de Lajeado, RS, Espertirina era a mais jovem das irmãs Martins, nascida em 1902. Foi aluna da Escola Moderna de Malvina Tavares, e com apenas quinze anos, em 1917, carregava a bomba com que Djalma Fettermann enfrentou a carga de cavalaria da Brigada Militar na batalha campal travada na Várzea, hoje avenida João Pessoa, entre anarquistas e brigadianos, em janeiro deste ano. O confronto se deu durante o enterro de um trabalhador assassinado pela repressão. Espertirina levava essa bomba disfarçada dentro de um buquê de flores… Meses depois, em julho, estouraria a greve geral que ficaria conhecida como “A Guerra dos Braços Cruzados”, que pararia Porto Alegre e outras cidades do estado, e da qual Espertirina e sua família participaram ativamente. De novo em Porto Alegre, já moça, tornou-se uma feminista convicta . Em 1925 foi residir com Eulina e Zenon em Campos (RJ), ligando-se novamente aos grupos anarquistas, quando promoveu reuniões e pronunciou conferências”. Foi residir no Rio, na Ilha do Governador, Praia da Bandeira, ligando-se a Edgar Leuentoth, junto a quem prosseguiram nas atividades revolucionárias, até voltarem para Porto Alegre. Aqui. Espertirina veio a falecer em 22 de dezembro de 1942, em virtude das complicações de um parto prematuro e apendicite.

Fonte: Os anarquistas do Rio Grande do Sul – João Batista Marçal

Elvira Boni

Filha de imigrantes italianos, nasceu em 1889 no Espírito Santo do Pinhal, estado de São Paulo, começou ainda criança com suas irmãs e irmãos, assistindo a palestras na Sociedade Dante Alighieri. Começou a trabalhar aos 12 anos de idade como aprendiz de costureira na rua Uruguaiana. Inicialmente não recebia salário e depois passou a receber 10 mil réis por mês. Já conhecia a Liga Anti-Clerical, com sede na Av. Marechal Floriano. Por essa época (1911-12), a jornada de trabalho começava às 8 horas e terminava à 19 horas e quando o serviço apertava, prolongava-se até às 20 e 22 horas.

Aos poucos Elvira forma-se profissionalmente, começa alargar seus horizontes  lendo os jornais operários e anarquistas. Impulsionada pelo anarco-sindicalismo, em maio de 1919, com 50 companheiras de profissão, forma a União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas, passando a funcionar na sede da União dos Alfaiates do Rio de Janeiro.

A primeira iniciativa da associação das operárias costureiras, ainda em 1919, foi deflagrar greve pelas 8 horas de trabalho. Muitas grevistas foram punidas com a demissão sumária. Não obstante as medidas repressivas, as mulheres trabalhadoras continuaram sua luta, publicando manifestos e, no 3º Congresso Operário Brasileiro, Elvira Boni e Noêmia Lopes representaram as costureiras e por extensão as mulheres. Elvira presidiu a sessão final do Congresso, que ocorreu em 1920.

Tomou parte também na representação de peças anarquistas e anti-clericais de grande importância para a propaganda libertária, levadas à cena por grupos amadores nos palcos dos salões das associações operárias do Rio de Janeiro.

Fonte: “Companheiros” e “Alvorada Operária” de Edgar Rodrigues

Elena Quinteros
Nasce em 9 de setembro de 1945 em Montevidéu, Uruguai.

Estudou Magistério no Instituto de Professores Artigas, onde inicia sua militância no grêmio estudantil. Em 1966 aos 21 anos de idade, obtêm seu título como professora e começa a trabalhar em uma escola de Pando, Canelones. Nessa época se integra à Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e também a Resistência Operária Estudantil (ROE), da qual foi ativa militante. Atuou no meio sindical e integrou as Missões Sociopedagógicas, uma iniciativa dos professores do Instituto Cooperativo de Educação Rural.

Em 16 de novembro de 1967 foi detida pela primeira vez e liberada no outro dia. Em outubro de1969 foi detida, processada e enviada à prisão, onde permaneceu até outubro de 1970. Em 1975 é destituída de seu cargo pelo governo ditatorial.

Em 26 de junho de 1976 é seqüestrada nos jardins da Embaixada de Venezuela e levada ao Batalhão nº 13 de infantaria, e posteriormente retirada dali em 28 de junho sob forte custódia, para que não estabelecesse contato algum com sua organização. Enquanto é escoltada, salta de improviso o muro da Embaixada da Venezuela, grita seu nome e pede asilo; o pessoal da embaixada busca socorrê-la, mas a escolta consegue frustrar o auxílio e fuga. Se produz um forcejo entre o pessoal da embaixada e os efetivos militares, os quais terminam por arrastar Quinteros para um carro. Com a perna quebrada ao tentar a fuga, é levada de volta ao Batalhão n° 13, onde funciona um centro de tortura da ditadura uruguaia.Desde aí não se tem mais notícias do que houve com Quinteros. O embaixador da Venezuela no Uruguai, Júlio Ramos, se comunica por telefone com o Ministério de Relações Exteriores Uruguaio e denuncia o fato ao subsecretário Guido Michelín Salomón, posto que o Ministro Juan Carlos Blanco não se encontrava na sede ministerial. Esta situação se converte em um incidente diplomático de envergadura que finaliza com a ruptura de relações diplomáticas por parte de Venezuela.

De Elena, assim se recordam seus companheiros da FAU: “Dizia como era persistente. E persistente classista. Detestava o ascensionismo, o reformismo, o eleitoralismo… Lutava por uma revolução do povo, um protagonismo do povo, uma justiça do povo e não por soluções de Mazorcas. Nunca pelas soluções autoritárias e exploradoras largamente experimentadas e largamente tão desastrosas para os trabalhadores.” (…) “Sem falar de sua moral política impecável. Sua fraternidade, sua generosidade que também formam parte desta companheira que sempre formará parte de nós.”

Fonte: Wikipédia, FAU

Margarita Ortega
Como outros grupos revolucionários – zapatistas, villistas e etc – o movimento anarquista da México, encabeçado pelo Partido Liberal Mexicano, havia lançado-se às armas contra a brutal ditadura do general Porfirio Díaz. Com a luta e sob terrível repressão, a influência das idéias anarquistas de Magón e seus companheiros estendia-se cada vez com maior força no seio das sociedades camponesa e operária do norte do México e Baixa Califórnia, do mesmo modo que no sul acontecia a rebelião zapatista.

No inicio de 1911 uma das pessoas encarregadas do contato entre combatentes libertários magonistas era uma mulher: Margarita Ortega. Sua arriscada tarefa consistia em atravessar as linhas inimigas guiando os grupos que transportavam as armas, víveres e medicamentos até as agrupações que estavam armadas, e que viviam escondidas nas montanhas ou misturadas nas cidades e vilas. Sua valentia em combate e sua habilidade como amazona – que lhe permitiram escapar de várias emboscadas -, era proverbial entre os guerrilheiros.

A história daquela extraordinária mulher, que aparecia em canções populares, era bem conhecida e admirada entre os revolucionários. Ainda que filha de uma família estabelecida, desde de muito cedo preocupou-se com o destino dos trabalhadores e, como ela dizia, dos deserdados, vítimas da injustiça social. Seus familiares – que aspiravam fazer parte da burguesia endinheirada – não só rechaçavam as idéias que a filha tinha, como odiavam e repudiavam sua atitude. E nessa ambiente, Margarita se casou e em pouco tempo, deu a luz a uma filha que pôs o nome de Rosaura e devotará a ela um grande afeto.

Durante a infância de Rosaura, a mãe se vinculou ao movimento anarquista de Flores Magón. Desde o primeiro momento desenvolveu uma atividade organizativa extraordinária que lhe valeu a confiança dos grupos clandestinos. Mas a medida que chegava o fim da sangrenta ditadura, a luta tornava-se mais dura. Em princípios de 1911, alguns meses antes da queda do ditador, Margarita – segundo o próprio Magón – propôs ao marido irem juntos combater na guerrilha: Eu te amo – ela disse -, mas amo também a todos que sofrem e pelos quais luto e arrisco minha vida. Não quero ver mais homens e mulheres dando sua força, saúde, inteligência, seu futuro para enriquecer os burgueses; não quero que por mais tempo haja homens mandando em outros homens. O marido negou-se. Então Margarita dirigiu-se a sua jovem filha, Rosaura Gortari: E você, minha filha, está disposta a me seguir ou prefere ficar com a família? Rosaura não duvidou em seguir a sua mãe e ambas ingressaram como combatentes nos grupos armados.

Quando em 21 de Maio de 1911 cai Porfirio Díaz, uma explosão de alegria sacode todo o México. O povo saiu para a rua acreditando que a liberdade e o fim da miséria estavam ao alcance da mão. Também Margarita Ortega e sua filha regressaram a cidade e compartilharam com sua gente a ingênua ilusão de que o fim da exploração estava próximo.

Entretanto, pouco durou a alegria e a esperança. Uma vez que Madero foi nomeado presidente, ele nega ao povo tudo aquilo porquê havia lutado. Não acontece a reforma agrária, nem a devolução das terras comunais. E nas oficinas continuam as jornadas abusivas e salários infames. Os mineiros permanecem escravizados aos interesses das companhias estrangeiras que saqueiam o país… Em poucos meses, as prisões se enchem de novo. Os fuzilamentos e execuções sumárias se sucedem por todo o país e muitos revolucionários têm que retornar às montanhas. Entre eles Zapata, Flores Magón…

Naqueles dias, o general Rodolfo Gallegos ordenou que se levasse as duas mulheres até o deserto e as colocasse em marcha sobre o imenso areal, debaixo de um sol abrasador, sem água, sem alimentos e a pé, com a advertência de que seriam passadas pelas armas se voltassem ao povoado.

Durante vários dias, mãe e filha arrastaram-se por aquele imenso areal, que fazia fronteira com os Estados Unidos. A sede e a fome foram minando a resistência de ambas. Rosaura, a menina, foi a primeira a cair exausta com os lábios inchados e o rosto queimado. A mãe, ao vê-la cair desmaiada e com os olhos fechados, acreditou que tudo havia terminado decidindo assim suicidar-se, mais ao apontar o revólver para a cabeça viu que a filha a observava. Tirando forças sabe-se lá de onde conseguiram alcançar as cercanias do povoado de Yuma, já nos EUA.

Ainda não recuperadas do sofrimento, os inspetores da imigração norte-americana arrastaram as duas mulheres e pretendiam deportá-las para o México, entregando-as a uma morte certa. Afortunadamente, em Yuma havia uma importante seção do movimento anarquista de Flores Magón que, em seguida, organizou a fuga. Margarita e sua filha, – que todavia não haviam superado as penalidades vividas no deserto – foram transferidas pelos compatriotas magonistas para Phoenix, Arizona, trocando seus nomes respectivos por os de Maria Valdés e Josefina. Entretanto, apesar dos cuidados da mãe e dos companheiros a pequena Rosaura não pode salvar-se, falecendo logo que chegou. Durante algum tempo a mãe pareceu desesperar-se mas, com o passar dos dias, tendo os olhos dirigidos para a terrível fronteira que havia levado a sua filha, pouco a pouco foi reanimando-se em Margarita a necessidade de continuar a luta que havia iniciado com a sua querida filha. De algum modo, Rosaura continuaria vivendo nela, se manteria a esperança em um ideal comum. Assim o fez. Com o companheiro Natividad Cortés – conta Flores Magón – empreendeu a tarefa de organizar o movimento revolucionário no norte de Sonora, tendo como base de operações o vilarejo de Sonoyta, do dito estado.

Mas a tragédia a perseguia sob o nome do general Rodolfo Gallegos, agora partidário do novo chefe Carranza e contra o ditador Huerta que havia assassinado Madero e ocupado o cargo de presidente da República.

Em outubro de 1913, Gallegos havia sido encarregado por Carranza de vigiar a fronteira e cumprindo este trabalho policial, em uma triste casualidade, pôs as mãos nos anarquistas. Natividad Cortés foi fuzilado no ato, e Margarita levada prisioneira até a Baixa Califórnia, onde Gallegos mandou deixá-la em um lugar que forçosamente seria vista e aprisionada pelos huertistas, deixando a esses a tarefa de assassina-la.

Apenas um mês mais tarde, em 20 de novembro, Margarita foi entregue as tropas do ditador Huerta. Em um campo próximo a Mexicali. Submetida a tortura para que delatasse os companheiros que lutavam contra a nova ditadura e que sustentavam a organização anarquista clandestina, Margarita resistiu em silêncio. Durante quatro dias a obrigaram a ficar de pé e quando caia a levantavam por meio de chutes e coronhadas. Diante de seu obstinado silêncio, na manhã de 24 de novembro de 1913 a jogaram no deserto e ali a fuzilaram, deixando seu cadáver estirado.

No ano seguinte chegada a brutal notícia ao conhecimento de Flores Magón, este escreve uma dolorida crônica – que serviu de base para estes apontamentos – que segue, passo a passo, o terrível, enérgico testemunho desta mulher indomável, que será como uma premunição de si mesma.

Fonte: M. Genofonte – Revista La Campana

Lucia Parsons
“Lucia González de Parsons? ¡Ah!… sim é uma mulata que não chora”, escreveu José Martí em suas crônicas sobre os acontecimentos de Chicago em 1886 publicadas pelo jornal argentino La Nación.

Seu verdadeiro nome era Lucia Eldine González e nasceu em 1853 em Johnson Country, Texas, poucos anos depois de que este Estado deixasse de ser mexicano, sendo tomado pelos americanos invasores.

Lucia era filha de uma mexicana (possivelmente de origem africana) e de um índio creek, e se considerava mexicana. Aos três anos de idade ficou órfã, sendo criada por um tio materno em um rancho do Texas. Investigações recentes assinalam que provavelmente Lucia foi escrava nesse rancho. O historiador James D. Cockcroft a definiu como “uma mulher hispano falante de mistura índia-africana-mexicana e uma ativista operária toda sua vida”.

Foi em Austin (cidade que junto com San Antonio integrava o cordão do algodão, onde residia grande número de mexicanos) que Lucia González conheceu Albert Parsons. Ali ambos se casaram em 1871 ou 1872, e desde então ela passou a ser conhecida como Lucia Parsons.

Devido a sua condição de republicano radical e a que sua recém fundada família era uma mistura de raças, o irmão de Albert, que era general, obrigou-o abandonar o Estado. Com seus escassos pertences os esposos Parsons se trasladaram a Chicago em 1873. Lucia abriu uma pequena loja de roupa para ajudar na economia do lar e Alberto começou a trabalhar numa gráfica.

Chicago era uma cidade de “estrangeiros”, arrastados pelo sistema mundial de acumulação capitalista à periferia de uma cidade industrial onde já havia começado a gestação dos acontecimentos de 1886. Durante o inverno de 1872, milhares de pessoas famintas e sem lar por causa do Grande Incêndio, realizaram manifestações pedindo ajuda. Muitas delas levavam cartazes proclamando “pão ou sangue”. Receberam sangue: corridos ao túnel sob o rio Chicago, foram baleados e golpeados. Em 1877, uma onda de greves se estendeu pelas redes ferroviárias alcançando a Chicago, e as assembléias operárias eram dissolvidas pela polícia a balaços.

A burguesia industrial de Chicago gozava de uma merecida fama de selvageria e o Departamento de Polícia atuava como uma força privada a seu serviço. A maioria dos policiais, além do pagamento que recebiam do município, percebia dinheiro das organizações patronais e tinham assumido que todo grevista era um agente estrangeiro ao serviço do anarquismo ou do socialismo.

Lucia, que tinha qualidades de organizadora, se apaixonou pela leitura e em 1878 começou a redigir artigos sobre diversos temas, entre outros sobre os sem-teto, os desempregados, os vagabundos, os veteranos da Guerra Civil e sobre o papel da mulher na construção do socialismo. Também contribuiu a formar a União de Mulheres Trabalhadoras de Chicago, a mesma que em 1882 “Os Cavalheiros do Trabalho” reconheceram e somaram a suas fileiras (nesses anos não se permitia a militância de mulheres nas organizações). Alem disso, participou na fundação da International Workin People’s Asociation (IWPA), de idéias anarquistas, que promovia a ação direta contra os capitalistas.

Em 1885, em plena efervescência pela jornada de oito horas, foi muito ativa na organização das costureiras da indústria de grãos (sweat-shops). Colaborava com artigos para o jornal O Alarme que editava seu esposo

O 1o de maio de 1886, levando da mão a seus pequenos filhos (Lulu de oito anos e Albertinho de sete) Lucia e Alberto caminhavam para o lugar do comício repetindo a consigna que estava na boca de milhares de trabalhadores e trabalhadoras: “não queremos trabalhar mais de oito horas”. O mesmo dia, o Chicago Mail advertia no seu editorial: “Há dois rufiões perigosos que andam em liberdade nesta cidade; dois covardes que se ocultam e que estão tratando de criar dificuldades. Um deles se chama Parsons, o outro Spies. Marquem-nos hoje. Mantenham-nos à vista. Indiquem-nos como pessoalmente responsáveis de qualquer dificuldade que ocorrer. Façam um escarmento realmente exemplar com eles se de verdade se produzem dificuldades”. Estavam condenados de antemão. Mas aquele 1o de maio acabou sem incidentes.

O 4 de maio se realizou um comício na Praça Haymarket para protestar pela repressão policial, que tinha vitimado seis vidas operárias na frente da fábrica Mc Cormik quando uma bomba matou o policial Degan. Lucia e Alberto, depois que este falara no comício, se encontravam junto de seus filhos no Salão Zept’ s, o que demonstra que nada tiveram a ver com aquela bomba, pelo qual se condenou a quem depois se converteriam nos Mártires de Chicago ao morrer na forca ou purgar longas condenações na prisão.

Parsons, convencido de que seria culpado, conseguiu fugir no meio da confusão, e dias mais tarde, depois discutir o assunto com Lucia, decidiu apresentar-se. Subitamente apareceu perante da Corte exclamando: “Nossas Honorabilidades, tenho vindo para que se me processe junto de todos meus inocentes companheiros”. Lucia, acompanhada pelos seus filhos percorreu todo o país durante quase um ano. Dirigiu-se a mais de 200 mil pessoas em 16 estados, falando de noite e viajando de dia. Escreveu centenas de cartas a sindicatos e diferentes autoridades, tanto dos Estados Unidos como de todo o mundo.

Quando o 9 de outubro de 1886 se proclamou a sentença de morte Lucia estava na sala, apertou seu punho contra o rosto e não quis derramar lágrimas frente aos algozes. Lucia disse: “Se de mim depende que Albert peça perdão, que o enforquem”.

Pouco antes que o enforcassem, Alberto escrevia: “A minha pobre e querida esposa: Tu es uma mulher do povo e ao povo te lego. Devo fazer-te um pedido: não cometas nenhum ato temerário quando eu tenha ido, mas assume a causa do socialismo, já que eu me vejo obrigado a abandona-la”. Depois do enforcamento de seu esposo, Lucia seguiu percorrendo o país, organizando as trabalhadoras e escrevendo em jornais sindicais. Participou nas mobilizações de 1890, quando se comemorou pela primeira vez o 1o de Maio nos Estados Unidos.

Em junho de 1905 esteve presente na constituição de Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, pelas suas siglas em inglês), organização influenciada pelo anarco-sindicalismo. Naquela oportunidade manifestou: “Somos escravas dos escravos. Exploram-nos mais impiedosamente que aos homens. Onde queira que os salários devam ser reduzidos, os capitalistas utilizam as mulheres para reduzi-los, e se há qualquer coisa que vocês os homens devem fazer no futuro, é organizar as mulheres”.

O 15 de dezembro de 1911 realizou um balanço sobre os efeitos da publicação “Os famosos discursos dos Mártires de Haymarket”, declarando que já tinha vendido 10 mil cópias ao tempo que anunciava uma sexta edição de 12 mil exemplares. Em 1913, aos 60 anos de idade, foi detida pela polícia de Los Angeles.

Aos 89 anos, Lucia seguia ativa, quando a morte a surpreendeu em Chicago ao incendiar-se sua casa em 1942. Finalizavam 62 anos de militância político-sindical, mas ainda que morta, a polícia a seguia considerando uma ameaça, pois seus documentos pessoais foram confiscados.

Fonte: Enildo Iglesias- Rel-UITA

Louise Michel
Nasceu em 29 de maio de 1830 em Haute Marne (França). Era filha de uma servente, não reconhecida pelo pai, o patrão da sua mãe. Através do apoio do avô recebeu educação e se converteu em professora. Louise instrui as crianças conforme suas convicções e não como exige o governo imperial. Explica às crianças que Napoleão é um criminoso, um tirano, um traidor, os ensina cantos revolucionários e outras coisas. Os pequenos mostram-se muito contentes com a estranha professora mais o diretor chega logo à conclusão de que ela não serve para o magistério.

Louise vai então para Paris e começa a lecionar em uma escola livre, pois nas públicas tinha que prestar juramento de fidelidade ao imperador. Estas escolas pagavam muito mal, e Louise para poder sustentar e ajudar a mãe que dela dependia também dava classes particulares de música e desenho. Apesar disso não deixou de participar dos clubes revolucionários onde conheceu vários militantes de esquerda. Toma parte do grupo “O direito da mulher”, formado por socialistas e feministas .

Louise participa em todas as tentativas revolucionárias contra Napoleão III e quando o trono imperial cai destruído por ocasião da guerra franco-alemã. Ela é a primeira a atacar a chamada República de Setembro, a república da burguesia francesa.

Durante a Comuna de Paris, em 1871, animou o Clube da Revolução e suas milícias, comandando um batalhão feminino que se enfrentou com os reacionários nas barricadas de Paris. A condenaram a dez anos de exílio depois de ter declarado em juízo o seguinte:

“Não quero me defender. Pertenço por inteiro à revolução social. Declaro aceitar a responsabilidade dos meus atos. O que peço é para ser conduzida ao Campo de Satory, onde foram conduzidos e metralhados os nossos irmãos. Já que, segundo parece, todo coração que luta pela liberdade só tem direito a um tanto de chumbo, exijo minha parte. Se me deixarem viver, não cessarei de clamar vingança e de denunciar, e, vingança de meus irmãos, aos assassinos desta Comissão.”

Deportada para a ilha de Nouméa, uma colônia penitenciária francesa situada no Oceano Pacífico, no arquipélago de Nova Caledônia, colaborou com aqueles que lutavam pela independência política dessa colônia francesa. Lá eram assassinados centenas de índios canacos que fartos da exploração francesa, haviam levantado-se esgrimindo facas, lanças e flechas contra os poderoso canhões e fuzis do exército francês. Louise aprendeu seu idioma, se internou na selva e montou uma escola e uma dispensa.

Dois anos depois do seu regresso à França em 1881, foi processada por encabeçar uma manifestação de desempregados que culminou em uma expropriação dos comércios. Obteve uma nova condenação de seis anos de prisão. Escreveu “Memórias da Comuna”, em 1898, além de novelas e dramas sociais como “A Miséria”, “Os Filhos do Povo”, “Os delitos de uma época”, entre outros. Em 1889 Louise falava em um ato quando um espectador situado atrás dela lhe disparou duas vezes na cabeça. Detido imediatamente, Louise mesmo ferida pediu que o soltassem, entendendo ser um pobre miserável a quem pagaram para matá-la.

Em 1890 foi viver na Inglaterra, onde conheceu outros famosos libertários: Malatesta, Emma Goldmam, Kropotkin, Pedro Gori. Em Londres funda a “Escola Dominical Internacional” junto com Sebastian Faure e H. W. Nevinson.

Morreu em 1905, enquanto dava uma conferência para trabalhadores em Marselha. Milhares de pessoas seguram seu féretro. Foi enterrada envolta pelo estandarte da Comuna de Paris.

Fonte: Revista “La Campana”, Rudolf Rocker, Wikipédia

Emma Goldman
(27 de junho de 1869 – 14 de maio de 1940).

Célebre anarquista de origem lituana conhecida por seus escritos e seus manifestos libertários e feministas, foi uma das pioneiras na luta pela emancipação da mulher.

Nasceu no seio de uma família judia de Kaunas, na Lituânia, que regiam um pequeno hotel. Sofreu uma infância violenta, tendo sido estuprada com apenas 12 anos.Durante o período de repressão política que seguiu ao assassinato de Alexandre II, e quando tinha 13 anos, se transladou com sua família para São Petersburgo.

Emigrou aos Estados Unidos com uma irmã depois de um enfrentemento com seu pai, que pretendia casá-la aos 15 anos. Passou a trabalhar como operária têxtil. O enforcamento de quatro anarquistas depois do motim de Haymarket, em Chicago, animou a jovem Emma Goldman a unir-se ao movimento anarquista e converter-se aos 20 anos, em uma autêntica revolucionária. Nessa época casou com um emigrante russo, mas o casamento durou apenas 10 meses. Emma se separou e foi para Nova Iorque. Continuou legalmente casada para conservar sua cidadania americana.

Emma foi presa em 1893 na penitenciária das ilhas Blackwell. Publicamente instigou os operários à greve “Peçais trabalho, se não dai-vos, peçais pão, e se não dai-vos nem pão nem trabalho, tomem o pão”. Esta citação é um resumo do princípio de expropriação preconizada pelos anarco-comunistas como Piotr Kropotkin. Voltairine de Cleyre saiu em defesa de Emma Goldman em uma conferência dada depois de sua prisão. Enquanto permaneceu na prisão, desenvolveu um profundo interesse pela educação das crianças, para o que iria dedicar-se anos mais tarde.

Junto com nove pessoas foi novamente presa em 1901 acusada de participar de um complô de assassinato contra o presidente William Mc Kinley. Um deles, Léon Czolgosz que havia dado o tiro, havia assistido uma conferência de Emma Goldman e se tornado anarquista desde então.

Entre 1906 e 1917 publica a revista anarquista mensal “Mãe Terra”. Em 1910 escreve “Anarquismo e outros ensaios”. Em 11 de fevereiro de 1916 é detida e presa de novo pela distribuição de um manifesto em favor do aborto. Durante vários anos, e cada vez que dava uma conferência, esperava ser detida, por isso sempre carregava um bom livro.

Em 1917 é encarcerada junto com Alexander Berkman por conspirar contra a lei que obrigava ao serviço militar nos Estados Unidos. Fez públicas suas críticas à Primeira Guerra Mundial e seu caráter imperialista.

Seu apoio a Berkman na tentativa de assassinato do industrial Henry Clay Frick a fez ainda mais impopular frente as autoridades americanas. Berkman foi preso durante vários anos.

Em 1919 foi expulsa dos EUA e deportada para a Rússia. Durante a audiência que tratava de sua expulsão o presidente da mesma qualificou a Emma como “uma das mulheres mais perigosas da América”.

Residiu na URSS com A. Berkman entre 1920 e 1922 e participou da sublevação anarquista de Kronstadt. Dessa época datam seus escritos “Minha desilusão com Rússia” e “Minha posterior desilusão com Rússia”. Desconforme com o autoritarismo soviético, se instalou definitivamente no Canadá. Em 1931 escreve sua autobiografia “Vivendo minha vida”. Morreu em Toronto em 1940 e está enterrada em Chicago.

Fonte: Wikipédia

Ida Mett
Ida Gilman nasceu em 20 de julho de 1901 em Smorgone (atual Bielorrússia). Seus pais, comerciantes de telas pertenciam à comunidade judia, permitiram-na estudar medicina.

Jovem passou a freqüentar círculos anarquistas em Moscou. Algumas semanas antes de receber o diploma em 1924, foi presa pelas autoridades soviéticas por “atividades subversivas”. Com 23 anos se viu obrigada a deixar a Rússia. Vive dois anos na Polônia e em seguida chega a Paris, em 1926. Mudou seu sobrenome para Mett, como fizeram outros revolucionários russos.

Em Paris se encontra com Nestor Makhno, Volin , Valensky, P. Archinov, assim como com Nicolas Lazarévitch, que se converte em seu companheiro. O grupo editava o jornal “Dielo Trouda” (“A obra do trabalho”), o qual Ida se soma.

O grupo produz neste ano a “Plataforma Organizativa para a União Geral dos Anarquistas”. A “Plataforma” faz uma avaliação crítica da participação dos anarquistas na Revolução Russa, que dispersos, sem uma organização, não conseguiram atuar com eficácia. Propõe uma declaração de princípios e formas organizativas.

Em 1928 Ida e Nicolás organizam campanhas informativas sobre a realidade da classe operária na Rússia soviética. Editam o periódico em francês “A libertação sindical” até que são expulsos do país em 25 de novembro de 1928.

Refugiada e Bélgica junto a seu companheiro conclui seus estudos de medicina e obtêm o diploma, embora não seja autorizada a exercer a profissão nem na Bélgica nem na França. O encontro com Ascaso e Durruti os leva a partirem para Espanha em 1931, onde participam de reuniões, atos, e auxilia Ascaso quando este é ferido em um tiroteio. De retorno a Bélgica, criam em 1933, com Jean De Boe, o periódoco “O Despertar sindicalista” e sofrem sucessivas condenações por sua militância.

Em 1936 voltam a França e Ida se converte em secretária do Sindicato de Gás da União de Trabalhadores.

Em 8 de maio de 1940, Nicolás e Ida são presos e separados. Ida fica internada durante um ano junto de seus filhos no campo de Rieucros, do qual sairá graças à Boris Souvarine, que lhes consegue moradia em Var.

Em 1948 trabalha como médica, além de empregar-se como tradutora. Neste ano publica seu famoso livro “A Comuna de Kronstadt” . A obra foi a primeira análise com rigor histórico que se fez sobre a rebelião dos marinheiros, que seriam assassinados por ordem de Trotsky. Coloca em evidência o papel jogado pelo Estado e pela cúpula bolchevique na repressão, não só de Kronstadt mas do movimento de rebelião e luta que se estendeu até fins de 1920 e princípios de 1921 por toda Rússia (greves em Petrogrado, a rebelião camponesa de Tambow…).

Ela também escreveu o estudo “O camponês na Revolução Russa e Pós Revolução”, que apareceu em 1968, entre outros.Another work, Medicine in the USSR appeared in 1953.

Morre em Paris em 27 de junho de 1973.

Fontes: Ediciones Espartaco, Enciclopédia Livre do Ateneo Virtual, Nick Heath – Libcom.net
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Novo estatismo econômico e antiga proletarização


A escola keynesiana que defende a intervenção do Estado ou New Deal no mercado interno, não implica a sua substituição por modelos alternativos. De forma a gerar um mercado cada vez mais includente e de incentivos a novos empreendorismos, tende a sustentar a lógica do capital sob o abrigo do Estado.  Toda a geração de renda e emprego estão subordinadas a este controle igualmente, de modo que a economia não poderia curar as crises por si própria, mas se utilizar do Estado o seu controle, pode administrar melhor o capitalismo.  No meio de crises sistêmicas como recentemente em 2008 e as revoltas populares no coração do pensamento do Welfare State, pode existir uma lacuna na teoria econômica, tanto do “controle estatista” quanto ao liberalismo, em seu “Estado Mínimo“. Desde que a “questão social”, a “terceira via” está posta em cheque nos países do capitalismo clássico, como Inglaterra, Espanha e França, as medidas keynesianas de contenção de crises tende a expressar uma incapacidade de resolver problemas graves que só pertencem à lógica do mercado. A austeridade em cortes públicos ou uma política inflacionária que alinha uma a outra, ou acordos trabalhistas entre Estado e empresas, o rigoroso controle do Estado sobre a economia, num mundo universo cada vez mais globalizado por transnacionais desreguladoras dos comércios, torna a visão keynesiana obsoleta. O capital transgrediu nações e o sistema financeiro atropelou as políticas públicas e decisões que eram tomadas no nível micro.

A tal “sociedade da informação” tende a superar em lote o número de trabalhadores legalizados e informais que como massa de “mão-de-obra informatizada” ainda continuam a andar no terreno da alienação do trabalho, como no século XIX, andavam operários – agora com o incentivo reformista dos sindicatos. O projeto atual de salvação do capital está fadado a intervalos menores entre as crises. Desde os anos 20, as intervenções estatais, que nada tem de socialistas, um ledo engano para os intelectuais da esquerda estatista, apenas fizeram assegurar a manutenção e a concentração do capital em suas mãos. Do modo imperialista de acumulação para o Capitalismo de Estado, hoje EUA e China, por exemplo, as relações de trabalho tecem dois pólos, centro e periferia.  O desenvolvimentismo progressista e tecnológico crescente vem firmando suas bases desde o enfraquecimento da luta de classes nos refluxos da Guerra Fria, somando-se aos novos infoproletários, uma massa gerada pela indústria da tecnologia que só tende a acentuar o nível de desigualdade social com trabalhadores integrados e aqueles periféricos. Por exemplo, as transformações iniciadas após a chamada “revolução digital”, que negam o avanço do capitalismo a nível global, tendem a complexificar toda uma cadeia de elementos concretos. Experts da ciência tecnológica defendem que a atualidade representa um salto a uma Era Digital. Este discurso mercantil da megaprodução em “escala global” e da “cultura digital” reproduzem que o quantitativo de seus “progressos” mediante números de acesso, onde de fato, o analfabetismo funcional e capacitacional, indicam que só o acesso à informação não garante conhecimento, são os “desconectados” do mundo real material, das dependências cibernéticas, desagregação do sentido de identidade, gerada muitas vezes por uma descarga acelerada de informação em massa. Partidos de um fundamentalismo tecnológico, essa nova classe emergente de gestores culturais, info-gerências, ativistas “independentes”, administradores de banco de dados empresariais, alimentam a cada dia o imaginário do virtualismo real como uma “nova era”, destinada a prosseguir para a próxima fase sem as velhas bandeiras das ideologias. Articulados com a “nova ideologia” tecnocientífica, dirigem suas verdades abstratas para uma massa de trabalhadores que por condições sociais severas, são imputados novos estigmas, como a analfabetização digital, por exemplo, já não bastasse suas reais condições de sobrevivência.

Os “novos excluídos” agora lotam o exército de reserva, uma massa de milhões de pessoas já precarizadas pelo sistema global. Do centro à periferia, o modelo das relações de exploração segue a norma da profunda desregulamentação do trabalho e, consequentemente o acirramento de forças sociais como tem acontecido nos países do centro. Diferentemente das crises anteriores, como escalas de superprodução e, a crise atual encena um quadro de recessões a nível global em que a periferia dos países do antigo centro começam a desestabilizar a “harmonia” existente. A acumulação de capital organizada pela estrutura dos grandes blocos de megacorporações e pelo sistema financeiro privados ampara-se num momento da pior crise dos sujeitos críticos ao expansionismo capitalista. A falta de organização e inserção social nas lutas contra o capital são dividendos da crise da esquerda estatista.

Por Pablo Mizraji

Manifesto na Marcha pelo Estado Laico


Florianopolis, 01/09/11

O termo “laico” (do grego λαϊκός, laikós – “alguém do povo”) já denota sua importância conceitual.

“As nações modernas, após a Revolução Francesa, haviam quase todas, em virtude das muitas religiões existentes no mesmo país, resolvido separar oficialmente as duas castas. O Estado não reconhecia nenhuma religião, respeitava todas, tornava-se leigo. Nas suas escolas não se ensinava religião, que ficaria a cargo dos sacerdotes nos seus templos. Esse Estado leigo não dispensa a contribuição dos sacerdotes no serviço de escravização popular pelo temor do inferno. Apenas deixa de reconhecer só uma em detrimento das outras. Em suma, reconhece tacitamente a todas, o que mais lhe assegura a colaboração unânime de casta sacerdotal. Assim, no Estado moderno, permanece, com toda sua eficiência, a feição religiosa. Os homens acham-se, portanto, submetidos a uma dupla idolatria estupidificante: a cívica, dirigida pelo Estado, e a religiosa, dirigida pela Igreja ou igrejas. Os grandes industriais, compreendendo as vantagens dessa idolatrização intensiva, promovem movimento de toda sorte com tais tendências.”

A Doutrina Anarquista ao alcance de todos, José Oiticica

“Clérigos, instrumentos cegos dos ricos, só servem para embrutecer ao povo, conservando-o no maior obscurantismo, dizem a seu rebanho: Filhos! Trabalhai, sofrei, respeitai aos nossos patrões, aos poderosos, porque quanto mais sofreis na terra tanto mais gozarás no céu!”
Anarquismo e Anticlericalismo
, Eduardo Valladares

 O que propomos, de forma alguma, não é a exclusão fundamentalista da existência das religiões, enquanto sejam elas expressões populares da identidade de um povo, de uma cultura, mas deixar bem claro que o papel da subjetividade e da crença não seja o referencial político dentro da esfera das ações públicas como a escola e demais instituições. As tendências religiosas mescladas ao protagonismo político, em especial ao Legislativo, na criação de leis que apenas legitimam uma religião em sobreposição a outras, além de ferir gravemente o direito de laicidade do cidadão, observamos um fundamentalismo baseado na exploração e opressão. Portanto, devemos denunciá-las em todos os lugares como verdadeiras inimigas da liberdade.

Ora, a contradição existente em sua unilateral explicação para o tipo ideal de sociedade, geralmente excludente, opressora, castradora de direitos, não condiz com a prática. Devemos desconfiar sim daqueles que pregam a compaixão e o amor como fundamentos, quando incitam o ódio e a violência; desconfiar daqueles que pregam tolerância, quando criam leis que são reflexos de sua intolerância; desconfiar dos sermões do alto dos palcos dos seus altares, quando na verdade, promovem a defendem a tradição do conformismo. Historicamente, as desigualdades sociais passam pelo crivo da domesticação do ser humano frente aos momentos de contestação social, em ações vigilantes do clero. Não satisfeitos com as guerras santas, com as intervenções colonialistas mascaradas pelo catequismo, subserviências aos governos fascistas, com a luta contra a ciência, protetorados do capital, agoram nutrem a ambição exploradora do mercado de votos.

Eis a sombra de um idealização para um controle totalitário sobre a vida política das pessoas, sobre os corpos e sobre os direitos de contestação. Igreja e Estado juntos, um consagrado pelo outro, compreendem a mais absolutista representação da dominação social e política. De monarquia a república, mesma tutela do patriarcado religioso. “Homens de bem”, “de virtude”, “de família”, “de valor” foram e serão os mesmos tosquiados pela mão de seus tutores. Patrões, padrinhos, políticos e padres que subjugam trabalhadores, peões, povo e fiéis, num eterno ciclo que pouco se altera. Gritam aos quatro cantos sua nova democracia, trazem em suas malas as boas novas dos velhos valores, redigem leis contra o direito de propriedade do corpo, liberdade de pensamento, liberdade sexual e de vida. Nos ensinam como devemos nascer, como devemos crescer, aprender, pensar e agir, e como devemos morrer. São os guardiões do modo de vida correto de milhões de pessoas no mundo. Porém, como instituição política cada vez mais próxima do mundo dos homens, as igrejas são as mais mundanas entre as demais forças sociais. São elas deveras democráticas? Como nasceram, como levaram a cabo seus projetos maiores e como se constituem hoje? Em relação às mulheres, aos povos não-cristianizados, aos homossexuais, aos pobres em geral, ou ainda, a outras crenças? Manchados de crimes desde suas origens, a Igreja após o término das inquisições, passa a adotar outras alternativas em relação ao poder, e adequa-se sutilmente ao Estado.

Assim, propomos:

– Defesa do Principio de Laicidade do Estado enquanto garantia do direito de liberdade de consciência.

Criticar o Estado enquanto detentor das forças sociais e políticas que o compõem, incluindo as religiosas,que em vez de isentar e separa-las, agrega-as e rompe com o direito laico constituinte.

– Por uma educação pública laica.

Criticar as políticas educacionais em relação às obrigatoriedades do ensino religioso quando são unicamente respaldadas pelas instituições eclesiásticas vinculadas ao Estado e não uma historização do pensamento mítico-religioso isento de discriminação. Por uma escola pública livre, gratuita, independente e laica.

– Supressão de todo tipo de financiamento público às igrejas.

– Licença para o ensino de Educação Sexual nas escolas públicas.

– Contra os projetos de lei que desrespeitam e discriminam os homossexuais

Projetos nº 280/2011, Projeto Orgulho Hetero

– Repúdio aos projetos de lei que determinam a obrigatoriedade da leitura de versículos bíblicos em instituições públicas do Estado e fixação de símbolos religiosos em estabelecimentos, assim como a validade legal de casamentos realizados apenas pelas entidades religiosas.

versão I

ANTICLERICALISMO: novas contestações e tendências contemporâneas


Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, no momento em que a Igreja Católica passa por uma onda de críticas e protestos em massa sobre temas fundamentais, como AIDS, homossexualismo, pedofilia, laicismo, aborto, casamento, entre outros, vem articulando uma série de medidas políticas junto aos Estados. Talvez em péssima hora, sua visita marcada em países como a Espanha, por exemplo, fizeram ressoar em meio ao turbilhão de insatisfação popular, velhos ecos do anticlericalismo desde a Guerra Civil em 1936.

Televisionado por alguns documentários críticos, como da rede BBC de Londres, intitulado “Sexo, Crimes e Vaticano”, o Estado Papal reage vigorosamente contra a desconfiguração de sua vitrine. As acusações midiáticas não perdoam o Vaticano de insinuar que o fenômeno da pedofilia teria tornado-se um escândalo que se sucede há pelo menos alguns anos. A informação está cada vez mais democratizada e, portanto, novos casos surgem com mais frequência ou verdadeiramente há uma supermanifestação de ordem criminosa por parte do clero nos últimos tempos? O Papa João Paulo II não foi isento das acusações de negligenciar  tomadas de medidas mais severas em sua empresa. Toda uma pressão internacional, por parte da imprensa, órgãos ligados às entidades de direitos humanos, fizeram desde os recentes abusos, divulgação pesada sobre a ausência jurídica do Vaticano. João Paulo afirmava que a Carta de Proteção à Criança e ao Jovem” ainda era obsoleta em relação às tradicionais leis canônicas, salientando que precisava de tempo suficiente para que se chegasse a um consenso. A ineficiência dos argumentos eclesiásticos não alterou nem diminuiu a carga de centenas de vítimas inocentes. Segundo a justiça estadunidense na epóca, os abusos sexuais praticados pelos sacerdotes poderiam ultrapassar a marca das mil vítimas, desde a década de 1940, origem das primeiras notícias.

Seu sucessor, Bento XVI, logo ao assumir seu posto, ordenou rapidamente o protocolo oficial de combate à “imoralidade sexual”, que expunha com rigor crítico, a política da obrigatoriedade da ordenação de mulheres, a condenação do uso de preservativos e a prática do aborto. Seu passado, junto à militância hitlerista durante a Segunda Guerra Mundial, deixa-se atestar, para o reconhecimento de uma postura semiextremista, em relação aos diversos movimentos sociais, como os de gênero e de classe. Exames para a futuridade podem-se basear nos protestos de outras religiões que também foram gerados em razão de sua inadequação diplomática com outros setores religiosos, como por exemplo, na sua fala contra Maomé e a afirmação de que a Igreja Católica seria a única portadora da “verdade”, a “única que salva”, gerando milhares de críticas dentro e fora do mundo religioso. Seus livros que são conhecidos pela moralidade cristã, e temas sobre a sexualidade humana, atingiu a marca dos cinco milhões de euros, com recordes de vendagem, sendo que parte dessa verba, já está destinada a fundos de pesquisas para os cursos de Ensino Teológico em todo o mundo. Como mea-culpa, Ratzinger parece ter reconhecido que a Igreja não agiu de forma consistente e rápida para coibir novos casos de abusos sexuais de crianças por parte de seu sacerdócio, o que de fato, já legitima, por sua vez, os escândalos midiáticos, outrora chamados pela Igreja de “sensacionalistas e corruptivos”.

No entanto, além dos problemas que a Igreja já vem enfrentando, está surgindo das cinzas, um antigo inimigo herético: o anticlericalismo. Movimento político que se define como resposta à existência da instituição religiosa integrada junto às instituições públicas da sociedade, que mediante sua influência direta e de imposição de suas crenças e doutrinas, exerce a sustentação do poder teocrático, em oposição ao poder democrático. Correntes ateístas, agnósticas, anarquistas e socialistas foram defensoras de uma laicidade concreta e filosófica. Essa falta de flexibilização do Vaticano frente a novos movimentos contestatórios sociais, refletem o tamanho da dimensão da intolerância e do extremismo. No caso da Espanha, em particular, seio da Guerra Civil de 1936, em grande parte construída em cima dos alicerces teóricos do anticlericalismo, revê em sua juventude, desacreditada de todo discurso parlamentar e, quiçá, de “moralidade”, sua nova contestação ampliar-se e midiatizar-se a todos os cantos do planeta. As revoluções árabes, as contestações dos jovens no Chile e as barricadas em Londres, nas últimas semanas, demonstram que as consequências das crises da globalização, desemprego, racismo, faltas de perspectivas políticas são, de alguma forma, compartilhadas por pessoas em outros lugares.  Atestando a isso, a visita do Papa Bento XVI em Madrid na Jornada Mundial da Juventude, com todo o apoio do aparato do Estado e Monarquia espanholas, agregou-se milhares de jovens amotinados nas ruas que conclamavam a grito seus direitos.
O famoso “beijaço gay” foi realizado em meio à multidão como protesto à ordenação de proibição do casamento entre homossexuais. Como era de esperar e sob o regime do aparato da violência estatal, o ato foi energicamente atacado pelas forças policiais. De forma a defender seus princípios, não somente a condenação ao homossexualismo, Bento XVI, criticou severamente a exclusão do Ensino Religioso, antes obrigatório em todas as  escolas públicas do país, referindo-se diretamente ao crescente movimento em favor da laicidade entre os poderes estatais e clericais.
Como no exemplo da Espanha, um dos próximos compromissos da comitiva do Vaticano é a vinda para o Brasil, em 2013, na mesma Jornada Mundial da Juventude. Já a realidade no Brasil, na relação histórica entre a Igreja e o Estado sempre deixou subentendido ambas posições. Por um lado, a antiga monarquia brasileira teve o apoio da Igreja, assim como por outro, no período de vigência do Golpe Militar de 64, deixou ambíguas conclusões a respeito. O chamado apoio da Igreja Católica no momento em que se deu o golpe militar, aparece no discurso anti-esquerda de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, que teve entre suas ligações, diversos agentes ativos durante o processo de militarização do país naquele período. Anos depois do golpe, surge dentro das pastorais, movimentos contrários ao regime, como a Teologia da Libertação, no que evidencia uma bipolarização no contexto eclesiástico, de moções contrários ao autoritarismo, que posteriormente teve em suas perseguições, diversos padres e seminaristas envolvidos. Essa parte da história é bem demonstrada no filme “Batismo de Sangue” de Helvécio Ratton, lançado em 2007. No entanto, nos meados do século XXI, com a transição entre os novos movimentos sociais que com a retomada das bases representativas das entidades religiosas, percebeu-se uma nova era de formações partidárias e extra-parlamentares vinculadas à Educação cada vez mais crescente, sobretudo na competitividade entre evangélicos e católicos. As bancadas fortaleceram seus números e originou-se uma presença massiva do movimento obreirista amplamente organizado na política legislativa brasileira.

Esse crescimento antilaicismo na atualidade demonstra que na prática, o poder submetido pela vontade popular pode também criar novas leis ou impugnar outras, conforme seus princípios morais, éticos e religiosos formarem consenso. Temas como o aborto, a união homossexual, divórcio, a utilização de células-tronco, a obrigatoriedade do Ensino Religioso nas escolas públicas, bem como outras que se inserem dentro do ideário daquela ou desta corrente religiosa, estão cada vez menos sendo debatidas pela sociedade.

Bibliografia referencial:

https://pmizraji.wordpress.com/2009/05/01/o-santo-cabresto-i/

https://pmizraji.wordpress.com/2009/05/01/o-santo-cabresto-ii/

Apresentação do Coletivo Anarquista Bandeira Negra e Lançamento dos livros “Negras Tormentas” e “Além de Partidos e Sindicatos”


Apresentação do Coletivo Anarquista Bandeira Negra e Lançamento dos livros:

“Negras Tormentas: o Federalismo e o Internacionalismo na Comuna de Paris”, de Alexandre Samis. Conforme colocado pelo professor Wallace dos Santos de Moraes na orelha do livro, a presente obra “deve ser saudada com uma grande festa, tanto pela comunidade acadêmica como pelos leitores em geral”. Ele continua: “O leitor do século XXI deve colocar três grandes questões sobre a Comuna de Paris: 1) Como foi possível realizá-la? 2) Como foi seu desenvolvimento? 3) Qual foi seu legado? A obra de Samis trata dessas questões de forma magistral, respondendo-as sempre no plural, isto é, chamando a atenção para os diversos fatores que influenciaram na possibilidade, na necessidade e nos resultados da eclosão da Comuna. Para além disso, aquele que se debruçar sobre a obra terá a oportunidade de conhecer a gênese desse episódio nos seus aspectos mais longínquos. Com efeito, o leitor é presenteado com o conhecimento da história política e social francesa do século XIX por meio da narrativa dos fatos, e também conhece o rico debate entre seus intérpretes. Ademais, a história da Associação Internacional dos Trabalhadores e o grande debate entre anarquistas, marxistas e outras correntes políticas são passados em revista. A partir destas discussões, a Comuna de Paris é inserida em seu contexto. É esse o grande mérito do autor, diferenciando-se de outros que a tratam por si mesma, como se tivesse nascido do nada. No livro de Samis, a eclosão da Comuna é vista como resultado de todo um acúmulo de lutas e questões sociopolíticas que estavam na ordem do dia na Europa no século XIX. Assim, o autor, com propriedade — apropriando-se do conceito de autoinstituição de Castoriadis –, nega que a Comuna tenha sido a última revolução plebeia e também a primeira revolução proletária. Ela é posta no seu devido lugar: como evento autônomo e coberto de idiossincrasias. Para o bem do leitor e da teoria, trata-se de uma pesquisa que discute muito mais do que aquilo que se propõe — e que é ainda mais abrilhantada pelo prefácio de René Berthier, francês e estudioso do tema.” Publicado nesse ano que marca os 140 anos da Comuna de Paris, Negras tormentas, “o livro, hoje”, considera Moraes, “é a principal referência sobre o estudo da Comuna de Paris já publicado no país”.

Alexandre Samis é Doutor em História pela Universidade Federal Fluminense e professor do Colégio Pedro II. É militante da Federação Anarquista do Rio de Janeiro e diretor do SINDSCOPE. Autor dos livros “Clevelândia: anarquismo, sindicalismo e repressão política no Brasil” (Imaginário/Achaimé, 2002) e “Minha pátria é o mundo inteiro: Neno Vasco, o anarquismo e o sindicalismo revolucionário em dois mundos” (Letra Livre, 2009).

“Além de Partidos e Sindicatos: Organização Política em Anton Pannekoek”, de José Carlos Mendonça: Em meio ao fracasso, atestado pelas diversas convulsões sociais que continuam estourando por todo o mundo, das teses presentes nas crônicas de muitas mortes anunciadas (formuladas desde uma esquerda envergonhadas até uma direita enraivecida; que pronunciavam o “fim” das ideologias, da luta de classes, do socialismo, enfim, da própria História), o que presencia é a longevidade do único “sujeito” que nenhum desses apologetas espera ver falecer; o capital. A capacidade que esta relação social tem de continuar se reproduzindo ampliadamente, de forma alguma responde apenas a determinações econômicas.

José Carlos Mendonça é Doutorando em Ciências Sociais pela Unicamp e Pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO-UFSC).

Primeiro Curso de Formação Política do Fórum do Anarquismo Organizado – Região Sul


Reuniram-se em Curitiba, entre 23 e 24 de julho de 2011 algumas organizações especifistas do anarquismo brasileiro e também individualidades com afinidades com essa proposta para uma formação do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), conduzida pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC), de Curitiba. Além da FAG e do CALC, estiveram presentes as seguintes organizações: Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, Organização Dias de Luta, de Joinville, além de individualidades de Florianópolis e de outras regiões do sul/sudeste do Brasil com afinidade com a proposta do anarquismo especifista.

Curitiba 23-24 de julho de 2011

FORMAÇÃO REGIONAL DO FAO EM CURITIBA

Reuniram-se em Curitiba, entre 23 e 24 de julho de 2011 algumas organizações especifistas do anarquismo brasileiro e também individualidades com afinidades com essa proposta para uma formação do Fórum do Anarquismo Organizado (FAO), conduzida pela Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classes (CALC), de Curitiba. Além da FAG e do CALC, estiveram presentes as seguintes organizações: Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo, Organização Dias de Luta, de Joinville, além de individualidades de Florianópolis e de outras regiões do sul/sudeste do Brasil com afinidade com a proposta do anarquismo especifista.

Marcado pelo clima de solidariedade e pela calorosa recepção, todos os presentes puderam discutir durante dois dias distintos temas em torno do anarquismo que, por meio da dinâmica adotada, puderam apreender e debater significativamente, o que certamente acrescenta muito ao processo nacional brasileiro que o FAO vem buscando impulsionar desde 2002 quando foi fundado.

A formação teve uma agenda densa, com distintos temas que tinham por objetivo fortalecer teoricamente o conjunto da militância. Foi trabalhada em cinco eixos fundamentais: A formação política da corrente libertária (uma leitura do anarquismo), história social de processos revolucionários com participação anarquista, teoria da organização política anarquista, marco teórico e categorias de análise (método de análise) e via estratégica e poder popular. O eixo propaganda de intervenção foi tratado apenas brevemente.

Descrevemos muito sinteticamente os temas tratados para dar uma idéia ao leitor do conteúdo da formação.

Vale reforçar que a formação foi ministrada pela FAG e que, por isso, o conteúdo reflete a sua elaboração teórica, que tem muitas similaridades e algumas diferenças em relação a outras organizações que compõem o FAO. Nesse sentido, todo o conteúdo é de sua responsabilidade e queremos que ele contribua para o debate e o fortalecimento de nossa corrente.

Temos todo interesse de fortalecer o processo organizativo nas regiões e – no caso específico dessa formação conduzida pela FAG – de impulsionar, além do próprio Rio Grande do Sul, os estados de Santa Catarina, Paraná. Havendo interesse de aproximação nessas regiões, não deixe de nos escrever. Outras organizações do Brasil encarregam-se no momento de outras regiões; por isso, se houver interesse de militantes de outras regiões, entre em contato e daremos o encaminhamento necessário. Pedimos aos interessados que entrem em contato pelo e-mail fagsorg@riseup.net.

A CONSTRUÇÃO DO ANARQUISMO DE BASE ESPECIFISTA NO BRASIL

A formação realizada em Curitiba, conforme avaliação do FAO, foi uma experiência muito relevante. Realizada pela FAG anteriormente para seu conjunto de militantes, pôde ser aperfeiçoada e estendida a um coletivo mais amplo. Essa atividade de formação evidenciou a necessidade de construção de um material próprio de formação, capaz de potencializar aquilo que se convencionou chamar de anarquismo especifista no Brasil.

O momento parece bastante propício. O FAO constitui um espaço de debate e articulação entre organizações, grupos e indivíduos anarquistas que trabalham ou têm a intenção de trabalhar utilizando como base os princípios e a estratégia do anarquismo especifista. O objetivo maior do FAO é criar as condições para a construção de uma verdadeira organização anarquista no Brasil, de caráter especifista. Tarefa que sabemos não ser de curto prazo, mas que precisa ser iniciada desde já. Fazem parte do FAO hoje, cinco organizações pelo Brasil: Federação Anarquista Gaúcha (FAG), do Rio Grande do Sul; Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (CAZP), de Alagoas; Rusga Libertária, do Mato Grosso; Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), do Rio de Janeiro e a Organização Anarquista Socialismo Libertário (OASL), de São Paulo. Encontram-se em processo de aproximação organizações e grupos dos seguintes estados: Santa Catarina, Paraná, Ceará, Pernambuco, além de individualidades em outros estados. Portanto, esse momento tão importante para o anarquismo especifista que avança lutando e organizando, forjando as bases para uma unidade que permita constituir uma organização nacional.

Temos abertamente a intenção de fortalecer os estados em que estamos presentes e de conseguir aproximar a militância de outros estados, afim de fortalecer esse processo organizativo. Se você se interessa pelas nossas propostas, não deixe de entrar em contato!

Não tá morto quem peleia!
Arriba los que luchan!

Militância envolvida no Primeiro Curso de Formação Política da Região Sul
Fórum do Anarquismo Organizado – Brasil

http://www.vermelhoenegro.org

Declaração de Princípios e Intenções (FAO)
http://www.anarkismo.net/article/17346

Julho de 2011

FARSA DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO


Por Pablo Mizraji

  1.  Introdução: descentralização e desintegração do trabalho

Jürgen Habermas advoga que a centralidade do trabalho configura-se agora em um universo residual que, de certa forma, negando o avanço do capitalismo a nível global, o importante e prioritário é observar as sociabilidades e os novos valores. Essas ópticas fazem parte do pensamento pós-modernista, cada vez mais complexificado de elementos pluralistas. Assim, a partir dos anos 70 aproximadamente, ideólogos vão analisar que, no auge das emergentes sociabilidades, convergem com o advento do personal computer, o famoso PC, ou computador pessoal. Esse item, encontrado nas lojas de informática e de eletrodomésticos, é tão emblemático quanto sua história “pessoal”. A ciência tecnológica que desenvolveu ao longo do século XX grandes máquinas para uso matemático, viagens espaciais, cria o ENIAC, modelo para uso militar durante a Segunda Guerra Mundial, além dos mainframes para as megacorporações iniciarem a construção de redes interligadas. Desta forma seria muito mais fácil controlar os negócios na Ásia sem estar “presente”. Outros defendem que a revolução tecnológica não foi o PC, mas o mouse, como uma corruptela análoga dos primórdios da humanidade quando o homem passou a usar o polegar.

Determinadas questões que deveríamos fazer é se a relação homem-trabalho e homem-máquina (o homem híbrido de Bruno Latour), de fato caracterizaria definições globais de sociedade? Crianças que trabalham em feirões, mais de sete horas, que moram nas periferias suburbanas, não tem tempo para estudar, formando exércitos de milhões de crianças e adolescentes em todo o país, América Latina, África, Ásia e também nos países do Eixo Norte, com certeza algum dia, nas suas vidas ouviram falar da maravilhosa máquina que pode se comunicar à distância. Mas isso realmente representa um salto a uma Era Digital? Não estamos realmente potencializando o discurso mercantil da megaprodução de computadores em “escala global” para colar descuidadamente sobre um rótulo social novo? O número de analfabetos reais e funcionais ultrapassa a escala de fibras ópticas espalhadas pelo mundo. Será mesmo que esta titulação de sociedade informatizada contempla, de fato, todas as outras sociedades? Com certeza os teóricos do pós-modernismo pragmático (ativistas) não poderiam responder a estas questões dado o alcance macro da análise. Seria muito mais fácil obter os elementos de estudo através daquela média categoria que consome mais propriamente os modelos de Intel, IBM e Macintosh. Se perguntássemos a um adolescente hoje o que acha do computador, ele responderia: “É legal, é divertido, podemos jogar”. Mas certamente os mesmos jovens também devem se perguntar, por que afinal não temos acesso às máquinas de jogos e outros tem com tamanha facilidade? Por que somos analfabetos funcionais e outros não? Por que alguns de nós conseguem estudar e outros não? Por que alguns de nós raramente passam no vestibular ou completam os cursos médios e outros com facilidade estão empregados?

Há uma diferença fundamental nestas questões, assinalando que mesmo o acesso “irrestrito” ao computador não evidencia de modo algum, quebra ou evolução alguma no que diz respeito a uma nova sociedade digitalizada. Poder-se-ia advogar que cultura é tudo aquilo que torna o ambiente humano transformado ou transformador, mas não necessariamente a cultura se limita aos objetos por ele inventados. Os costumes, as crenças, a arte, os símbolos, os conhecimentos são elementos culturais. As promessas tecnológicas não podem de modo algum abraçar toda a humanidade, pois são desprovidas do elemento principal que as rege: o fator humano. Os múltiplos sistemas de gerenciamento e controle dos saberes e do espaço comercial são heterogêneos mesmo entre si, obliterando o pleno desenvolvimento da informatização na “sociedade pós-industrial.” Ao contrário do novo movimento primitivista, que descarta toda evolução tecnocientífica, apesar de, considerar em suas críticas grandes verdades, convém reconhecer que se pretende apenas subtrair o discurso homogêneo da megaprodução de computadores tanto quanto exporta-lo para o pensamento social contemporâneo, como se fosse um novo paradigma.

2.      Revolução Web 2.0 e a regência do capitalismo tecnológico

Por outro lado, a revolução tecnológica de fibras ópticas – revolução, no sentido sociológico do termo, como Revolução Industrial dos séculos XVIII-XIX, com a invenção da eletricidade -, reconfigurou grande parte do mercado financeiro, tornando o capital em interconexões de capitais flutuantes. Como de costume, toda invenção é creditada a um indíviduo/empresa, e neste caso da tecnologia digital, o conhecido www (world wide web, sistema de hipermídia de informações) pertence ao físico inglês Sir Timothy Berners-Lee, que coordena a Fundação World Wide Web, o Laboratório de Inteligência Artificial, Instituto de Ciência Web e membro da Academia Nacional  de Ciências dos EUA. Lee, considerado o “pai da internet” é militante radical a favor da proteção de direitos de propriedade, conceito hoje tão atacado pelos ativistas pró-internet. Segundo Lee[1], em entrevista coletiva no Parlamento Europeu defendia que castigos como desconexão e exclusão da internet eram cabíveis contra movimentos que alegam a livre circulação de informação, assim como redes sociais, etc. Ele, enquanto detentor de parcelas da internet patenteada por grandes empresas, hoje trabalha junto ao governo britânico com base de trabalho na Força-Tarefa de Poder da Informação, uma entidade internacional que atua dentro de um departamento específico da ONU.

A discussão sobre inclusão digital é o norte dos objetivos principais da ONU que interliga relações informacionais com os países cooperados, em aliança com políticas para a iniciativa pública/privada de investimento na área tecnológica. Porém, o que parecia uma norma, pelo menos substancialmente no Hemisfério Norte, em relação a uma “sociedade amplamente composta de novos usuários da rede”, evidenciou-se um enorme buraco entre o piso sócio-econômico da maioria dos países fora do eixo imperialista com aqueles outros. Os experts da ONU e da Força-Tarefa perceberam que era impossível engajar uma nova alcunha à sociedade “pós-industrial” pelo motivo mais aparente: a diferença econômica entre os usuários, ou seja, classe social, interfere acertadamente no uso e acesso aos PC’s, mesmo em lan houses, TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) implementadas em espaços públicos dos governos, como escolas, instituições políticas e projetos de inclusão digital. Apesar dos esforços aparentes dessas instituições, o processo de inclusão é barrado pela desintegração dos recursos, pela desigualdade social, onde as tecnologias da informação como celular, TV e internet são, no máximo, filtros para utilitarismos imediatos, ineficazes e inexistentes de verdadeiras inclusões. A maioria dos experts em cultura digital reproduzem incontesti o discurso quantitativo de seus “progressos” mediante números de acesso, pouco caracterizando de fato, o desenvolvimento eqüitativo de um projeto social específico (jornalismo comunitário, novos talentos/programadores, trabalhadores formais e informais) ou uma planificação para a construção de uma “sociedade digitalizada.” O que a cúpula da Força-Tarefa viu na grande maioria dos países com PIB abaixo do normativo ou IDH (medida que engloba riqueza e educação prioritariamente) foi a falta de infra-estrutura, aos equipamentos e qualidade de serviços prestados, todos dependentes de países fornecedores; analfabetismo funcional e capacitação, indicando que só o acesso à informação não garante conhecimento; uso dos recursos, ou a limitação da educação para uma “nova sociedade” informatizada.

Existe um imaginário político de conformismo em relação ao papel do uso da tecnologia (determinismo tecnológico) que está vinculado ao aspecto quantitativo, a perspectiva política da infra-estrutura como fim em si mesma. Na mesma medida em que prevalece a lógica de mercado ou a política da engenharia civil, voltadas exclusivamente para o o urbano (política do asfalto), o fator humanizante e social (qualitativo) é deslocado para uma precarização cada vez maior.

Novamente, não há dúvidas em defender a política da tecnologia digital, enquanto elemento importante e capacitador do desenvolvimento humano e social. A questão que se debruça nesta polêmica é o contrasenso político-econômico de imposição estrutural sobre uma realidade que reflete o oposto do discurso. A ciência produz meios tecnológicos novos para a sociedade mediante esforços capitais. A grande massa consumidora se apropria e ao mesmo tempo, têm nas mãos as condições reais de transformação, mas não como uma sociedade homogênea, sem contrastes. Nossas sociedades são explicitamente desiguais. Aqueles que não podem ou não fazem parte desta “sociedade nova” são os excluídos, poderão participar da Revolução 2.0? Esta afirmação parece soar um tanto anacrônica, já que esse modelo ideal de sociedade, além de não poder contemplar toda a estrutura social vigente, assim como o fazem hoje os ideólogos batizando-a de novos rótulos, está visivelmente fora dos processos considerados “sócio-dinâmicos” (eras) pela história. Desta forma, ela só é incorporada pelo fruto do trabalho de marketing das corporações da indústria tecnológica que atendem a um mercado global, porém, não em sua totalidade, apesar de interferir nas condições de vida da classe média. Quando interfere, geralmente pelo pior método, ou seja, pela sua exclusão. Como toda forma de consumismo está ligada a padrões de mercado sociais, o seu uso tecnológico digital é inteiramente individual. A relação indivíduo/máquina se torna cada vez mais estabelecida em conformidade com os meios midiáticos que intensificam a somatória dos lucros de empresas de hardware e software, além das políticas públicas como as TIC’s também relacionam a conectividade ao descentralismo com o “faça você mesmo.” Quando inseridos dentro de um processo de desenvolvimento social e utilização integral de todas as ferramentas digitais, a idéia de autonomia está correta, ela obstaculiza quando alija-se dos fatores educacionais de transformação coletiva, burocratiza-se e desestimula-se aos novos conectados. Esse individualismo, ora nos Ipods, nas escolas, nas lan houses, nos laptops portáteis, em casa, no trabalho, acaba por alimentar referências culturais um tanto consideradas alienantes, no ponto de vista sociológico. Ao mesmo tempo em que se defende a “rede social” como novo espaço criado para sociabilidades antes jamais pensadas, cria-se e gera-se uma via de mão dupla, que é a sedentarização em relação ao universo social, “desconectados” do mundo real material, dependências cibernéticas, desagregação do sentido de identidade, gerada muitas vezes por uma descarga acelerada de informação em massa. Altera e agrava fatores fundamentais nos comportamentos e interesses. A questão da materialidade é elemento preponderante à análise, ao contrário da limitação do uso das ferramentas. À realidade é conferida a reflexão das imagens externas, consideradas como reais internamente, o mundo conhecido é o mundo que se vê. Quando os indivíduos passam a ver na realidade virtual como forma a substituir ou como prioritariamente desencadeadora de eventos reais, as visões do cotidiano se alteram para conformar-se com aquela realidade virtual. As verdades sociais são agora regidas por bytes.

3.      A Sociedade da Informação tecida por capital-bytes

A centralidade da visão informacional adequa, nos seus interesses propagandísticos, um mote social, como ideal a ser reproduzido. Torna uma categoria social configurada pela classe de consumidores de informática, uma generalidade social. Isso ocorre pela miragem reducionista sobre a proposição na idéia futurista de que uma nova sociedade composta por empreendedores emergentes, democratizações ao acesso das ferramentas, geração de empregos, transformem rapidamente a condição de vida de milhões de pessoas. A “nova economia” para uma sociedade que representa um “mosaico de diversidades fluidas”. Esse aspecto redencionista do mercado que o substitui pelo bem imaterial não poderia nunca abarcar justamente suas pluralidades materiais. O conceito de sociedade digitalizada não está isento de teorizações parciais construídas pelas vanguardas do capitalismo avançado e defendido pelos experts da cultura digital. Partidos de um fundamentalismo tecnológico, essa nova classe emergente de gestores culturais, info-gerências, ativistas “independentes”, administradores de banco de dados empresariais, alimentam a cada dia o imaginário do virtualismo real como uma “nova era”, destinada a prosseguir para a próxima fase sem as velhas bandeiras das ideologias. Articulados com a “nova ideologia” tecnocientífica, dirigem suas verdades abstratas para uma massa de trabalhadores que por condições sociais severas, são imputados novos estigmas, como a analfabetização digital, por exemplo, já não bastasse suas reais condições de sobrevivência.

Os “novos excluídos” agora lotam o exército de reserva, uma massa de milhões de pessoas já precarizadas pelo sistema global. Segundo os dados da Nova Estatística de Usuários de Internet de 2011[2], a porcentagem de pessoas que tem acesso a rede na África é de 10%, América do Norte 77%, América Latina 34%, Ásia 21%, Oriente Médio 29%, Europa 58%, e total no mundo 28%. Esses dados são interessantes de avaliar no sentido de que, mesmo que a margem de crescimento seja sempre ascendente de ano para ano, não se caracteriza a capacitação qualitativa e funcional com os números de acessos por IP’s. Outro fator importante, é que a maioria dos usuários da rede pertença aos continentes ajustados geopoliticamente e que o inglês continua sendo a “língua oficial” no mundo digital, segundo os experts digitais, “mundo das pluralidades”. No Brasil, 37% das pessoas tiveram acesso à internet segundo o IBGE em 2010, dados de usuários ativos e inativos, porém, entre os mais pobres, somente 0,6% tem acesso a rede e entre os mais ricos, 56,3%. São novas soluções temáticas que trazem em seu cerne novos problemas sociais, pela cauda do cometa o vislumbre da nova tecnologia de ponta. É o canto da sereia das inovações e do rompimento progressista rumo à evolução desenvolvimentista. Um sistema capitalista renovado, oxigenado pela fluidez dos novos recursos técnicos, gerido e descentralizado por experts da eletrônica, cada vez mais atuante, onipresente nos PC’s, nos celulares, na TV, na rádio, nas redes sociais, na vida das pessoas, agregando e concentrando capital-bytes em todos os pontos.

Conclusão

Basta observarmos que a inclusão digital não inclui socialmente, como o Estado e empresas divulgam. O grande problema é como, num universo físico cada vez menor, onde os espaços de luta são esvaziados pela militância virtual, podemos utilizar as ferramentas tecnológicas com capacitação, sem que dependêssemos exclusivamente delas. O novo fluxo de informações deve prosseguir, aqui não refuta-se os fins, apenas salienta-se que na história social, a informação sempre sofreu e sofrerá constantes adaptações, anteriormente com o impresso e os jornais, posteriormente com as redes, mas no momento atual, o que se discute é o como o processo se dá quando, através de imposturas, sistematizações equivocadas da realidade, oriundas de um ofuscamento do deslumbre são vindas à tona. A luta por melhores condições de vida sempre existiu, independente de panfletos, jornais, TV ou internet, pois desde que o homem ocupa o lugar da centralidade de todo processo de relações com o meio e o personagem histórico da transformação social (e não as ferramentas para atingir os seus fins) substitui-lo pela imaterialidade é um verdadeiro contrasenso humano.

Advogar pelo fim da centralidade do trabalho como um ocaso residual das esferas da “velha sociedade” e suas contradições econômicas em prol de uma nova economia informacional e imaterial redunda em uma miopia sociológica profunda. Cada vez mais somos bombardeados pelos manufaturados chineses, fábricas que comportam milhares de operários – a produção industrial chinesa já é a maior do mundo em escala -, o crescente número de info-proletários de call centers no mundo, principalmente no Brasil – o setor trabalhista assalariado que mais cresce -, Índia, Rússia e América Latina são respostas imediatas contra a idealização genérica do trabalho social desta época. As teorias pós-fordistas invocam a nova corrente sob os olhares ambiciosos dos gestores e ideólogos como o FMI, OMC e ONU, além de BNDES mundo afora. Em vista de uma utopia redencionista atropelam seqüelas sociais históricas cada vez mais alijadas do direito às condições básicas de vida e coletividade.

Referências Bibliográficas

AMBROSI,PEUGEOT e PIMIENTA, Alain, Valérie e Daniel, Desafios de Palavras: Enfoques Multiculturais sobre as Sociedades da Informação, Editora C & F Éditions, 2005.

ANTUNES, BRAGA, Ricardo e Ruy. Infoproletarios: degradação real do trabalho virtual. São Paulo. Boitempo, 2009.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Exclusão digital: A miséria na era da informação. Fundação Perseu Abramo. 2001

___ Felipe, Sônia T., ed. (1998).Justiça como Eqüidade:Fundamentação e interlocuções Polêmicas (Kant, Rawls, Habermas) [Justice As Equality:Foundations and Debates (Kant, Rawls, Habermas). Florianópolis, Santa Catarina, Brazil: Editora Insular / Núcleo de Estudos em Éthica e Filosofia Política.

A Ilusão Democrática


Sobre a Ilusão Democrática Liberal

O cinismo dos países ocidentais chega ao absurdo quando o discurso proferido refere-se a processos e transições democráticas, salvaguardados pelo tom e pela dádiva do “ensinamento”, patriarcado que cuida dos mais necessitados: os países excluídos do eixo imperialista. É explicitamente visível o grau de prevalescência cultural pela qual chefes de estado utilizam quando se trata de acordar relações políticas e econômicas. Esse grau de pretensa superioridade possui raízes muito antigas, que podem ir desde a conquista da Gália pelo Império Romano. Quando o elemento militar está acima daquele pela qual se esnoba, é culturalmente praticável a política de assunção por liderança ou potência mundial, que tende a atravessar percursos que, na maioria das vezes, são geralmente arbitrários e refutáveis.  A antiga e preconceituosa classificação de 1º, 2º e 3º mundos retrata a representação bizarra do contraste entre a ilusão dos grupos que são privilegiados e daqueles que são subservientes às suas políticas, neste caso, a maioria.

A imagem de “Terceiro Mundo” também está vinculada à idéia das nações não-evoluidas, no sentido progressista do termo, ou “atrasadas socialmente”, em contraposição às industrialmente avançadas. A hegemonia do discurso do sucesso industrial que se acentuou depois da Revolução da Máquina de Vapor, ofereceu uma universalização de conceitos sociais amplos. O imperialismo monopolista e coletivo, leva o estandarte do sistema ideal de sociedade, que negligencia as relações dinâmicas que estão presentes em minorias locais, como etnias, mercados próprios, tradições sociais, etc. Porém, uma das marcas mais significativas desse processo de homogeinização do mercado ativo sobre a identidade dos povos, é a supervalorização étnica, elas sendo brancas, através da midiatização da superioridade científica-tecnológica. Com a fragmentação da União Soviética, esses termos passaram para o senso comum das mentes das massas.

É demasiado penoso não pensar que “1º Mundo” e “2º Mundo” sempre foram uma ilusão. Nos países do Norte industrializados, a imagem de que pela livre iniciativa, todos podem ter acesso à riqueza pela qual o sistema está fundamentado é tão ilusória quanto aquela realidade que parece ser única. É o capital fictício, ou a supervalorização do fetiche. A insustentabilidade da exploração já é gritante há séculos e o entedimento para o futuro do capitalismo está estampado na tragédia humana, em um mundo artificialmente gerado por ilusões. A máscara da democracia liberal, da representatividade, revelada ao líquido, fundamenta-se com a “crise” epistemológica da atualidade. Enquanto a retórica pós-moderna nos ilude com uma abstrata imparcialidade sobre as lentes da realidade concreta, o discurso democrático liberal não transcende nada além da inação do indivíduo. Democracia e pós-modernismo, ambos de mãos atadas. Objetos falíveis de sustentabilidade.

O esfacelamento dos sermões

Toda revolução traz sua surpresa, que consiste na impossibilidade de prever as consequências. No caso dos países árabes, especificamente do norte africano, as grandes potências não puderam prever a ação consciente das massas que derrubaram do poder dois presidentes em menos de dois meses. O discurso do conservadorismo e da omissão atestavam para a permanência dos dirigentes do poder, e no começo do ano, jamais imaginariam um levante que conclamaria pela cabeça da medusa, que com ela obteria seus benefícios. Para os europeus e estadunidenses, Marrocos, Tunísia e o Egito são apenas estações permanentes de veraneio turístico, o balneário da Europa. Não puderam prever que séculos de exploração tirânica acumulados debaixo do tapete do “pacto social”, pudesse um dia acordar o vulcão.

 

Essa soma se fez de dentro para fora, cujos gases e dejetos refletiram o que as massas exploradas de jovens desempregados e trabalhadores de baixíssima renda, estavam submetidas. A tensão gerada fez tremer os solos vizinhos, e as consequências foram inevitáveis. Fome, miséria, falta de empregos, impossibilidade da mobilidade social, ausência de liberdade de expressão, indignação com o sistema político vigente, somaram camadas de matéria que explodiram nas ruas das cidades árabes.

Por que no início do século XXI e não antes, uma pergunta que paira no cenário histórico desses países? É verdade que mesmo na grande maioria do povo encontram-se milhares de pessoas destituídas de instrução, o alto grau de senso político e percepção da realidade foram suficientes para emergir um sentimento coletivo que não pôde ser controlado mais pelo Estado. O alto grau de indignação foi uma bofetada no rosto do sistema de exploração arcaicos.

Numa época em que milhões têm acesso à televisão e à internet, em que as pessoas estão cientes do luxuoso estilo de vida dos ricos, a impossibilidade de escapar de uma pobreza opressiva e do desemprego torna-se crescentemente intolerável. Assim, nos países árabes do continente africano e do Oriente Médio, uma gigantesca onda de revoltas contra o status quo retumbou os pilares da democracia e pôs em cheque a significação dos processos decisórios dos Estados. As manifestações foram tomadas por intelectuais, classe média consumidora e por uma larga gama de desempregados que vivem às margens da miséria, tudo isso unido ao rancor milenar de sistemas de opressão, teocráticos e oligárquicos.

As nações (os países-corporações capitalistas) mais ricas entraram em catarse à impossível tese profética de que nos tempos atuais, populações em massa em espaço algum, teriam como se sublevar. Todos eles (e nós, reprodutores do senso comum) não poderíamos prever e crer que levantes populares de todos os setores da sociedade proclamassem em uníssono um “Chega!” tão forte. Os estadistas não podem deixar que estas “crises” ou “acomodações da democracia” possam usurpar a harmonia mundial. O fato de imaginar não poderem controlar e vigiar os mecanismos que regem as expressões das massas tornou-se o maior pesadelo no início desta década. O Egito hoje? El Baradei, prêmio Nobel da Paz será, segundo fontes egípcias, provavelmente o próximo presidente egípcio. As ações de desobediência civil, são agora aconselhadas a baixarem a poeira, dando lugar ao diálogo, em vez da retomada do poder popular insurgente nas ruas, que com vitória puderam depor do palanque um ditador há 30 anos.

Na Tunísia, na Espanha, Jordânia, Argélia, a mesma estratégia “democrática” para uma saída honrosa dos tiranos para a chegada dos divinos representantes do povo. A grande massa que exigia sem armas a queda das ditaduras, agora dorme nas Praças Tahrir tranquila de que um novo soberano com belos ideais fará crescer a estima de continuar vivendo. Sem armas, sem violência, entorpecidos pela nova democracia, o novo brinquedo. Como rapinas, os partidos e sindicatos rapidamente elegem seus representantes, desvinculados àqueles que levaram tiros à queima roupa, justamente porque protestavam contra a incapacidade de comprar pão. “Voltem para casa, seus lares, sem mais violência”, “em ordem e pacificamente”, “vocês venceram”, dizem de cima.

Enquanto a Al Jazeera retratava uma cena de um cartaz “a Jordânia não é somente para os ricos (…) o pão está fora do nosso alcance (…) tenham cuidado com a nossa fome e a nossa fúria”, muitas greves paralisaram quase que inteiramente o Egito que não foram publicizadas pela grande mídia. Qual é a atual perspectiva para uma nova transformação radical nos países árabes? Esta pergunta primeiro serve para nortear as divisas históricas e contextuais daqueles países, diferentemente de outros continentes. Em medida, os “avanços” contra a teocracia e as ditaduras militares são grandes ganhos de uma longínqua estrada rumo ao mundo da “sociedade ideal”, porém esta visão ainda é carregada de parcialidade ocidental. Críticos analisam que os mesmos mecanismos sociais não funcionam e não são análogos com os do Ocidente, por isso, não poderia se projetar em escala futura, prognósticos sobre estruturas políticas ideais, ou quais seriam os caminhos percorridos até chegarem a elas.

A esquerda em geral nos países árabes demonstra e tem demonstrado estar amplamente desarticulada, fato que a maioria dos levantes não foram organizados pelos setores partidários. As massas tiveram em suas mãos, por instantes, vislumbres breves de sua força e capacidade real. E agora, o que fazer e para onde ir? Cada trabalhador tende a voltar para a sua casa com a mente satisfeita de ter sido parte de uma revolução histórica para seu povo, realizado por meios justos. Cada um com seus sonhos. Mas e a realidade pós-“revolução”? A democracia foi instaurada, substituída, confiada. O grande capital agora está livre para encher as ruas de consumidores novos e vorazes, o Estado novo garantirá os dividendos com os menos favorecidos, num simulacro de bem-estar social e crescimento econômico.

A Cartilha Revolucionária da Tunísia

Esta cartilha foi divulgada nas semanas seguintes à apresentação das prováveis candidaturas de cargos presidenciáveis para o país, tendo como principal imagem, Ben-Ali. Note-se o teor altamente revolucionário do panfleto e a identificação com a autogestão dos trabalhadores tunisianos:

“O povo da Tunísia não é formado por tolos ou crianças de colo que se deixam adormecer com palavras hipócritas. Não deve desmobilizar-se e sim, pelo contrário, tem que intensificar a mobilização e dar-lhe uma expressão organizada e generalizada. Não deve dar nenhum fôlego aos restos do antigo regime. Não deve permitir que estes bandidos reorganizem uma nova versão “democrática” do velho regime. O tempo das palavras já passou há muito. Não mais intrigas! Abaixo o Governo! Fim imediato do estado de emergência! Plena liberdade de reunião, organização e de expressão! Por uma Assembleia Constituinte Revolucionária! Pela dissolução imediata de todos os órgãos repressivos e julgamento popular dos assassinos e torturadores!
Para conquistar essas reivindicações, deve-se organizar uma greve geral a nível nacional. A classe operária é a única força que tem o peso necessário para derrubar o antigo regime e reconstruir a sociedade de cima a baixo. O proletariado deve colocar-se à cabeça da sociedade. Essa é a única saída possível. A convocatória de uma greve geral já encontrou eco nas agrupações locais da UGTT. Segundo alguns informes, já ocorreram várias greves gerais em algumas regiões na semana passada (Kasserine, Sfax, Gabes, Kairouan e Jendouba). Visando preparar uma jornada de greve geral, devem ser formados Comités de Greve em todos os níveis: local, regional e nacional. A própria vida nos ensina que a única forma de obter a liberdade e a justiça é através da acção directa das massas. Na Tunísia, a questão do poder coloca-se abertamente. É necessário organizar e mobilizar todo o povo para propiciar o derrube decisivo do antigo regime. Também há informes de que estão a estabelecer-se Comités de Autodefesa nos bairros. Os trabalhadores devem confraternizar com os soldados que estão do seu lado. Deve-se fazer um apelo às fileiras do exército para que se formem comités de soldados vinculados ao povo. Os operários e camponeses devem conseguir armas para sua própria defesa e estabelecer uma milícia popular em cada fábrica, bairro e povoado, para manter a ordem e se defender dos bandidos e contra-revolucionários. Isso é crucial para o êxito da revolução.”

Talvez semelhante ao processo revolucionário em 1917 na Rússia, onde as camadas mais pobres da população exigiram a saída do poder dos czares, e posteriormente “direcionada” pelos bolcheviques – diferentemente, no caso da Espanha em 1936 -, a “revolução” árabe tenha sido tão supervalorizada. O pensamento crítico das massas precisaria estar em contínuos avanços, junto com o papel dos movimentos sociais reinvidando constantemente sua força social.

Historicamente, a trajetória do socialismo libertário e do comunismo estatal nos países árabes não foram excepcionalmente vinculados a vitórias. A própria noção de fundamentalismo islâmico anti-imperialista, deve-se tomar precaução em mesclar identidades antagonicamente díspares entre si. O marco desse abismo ideológico coube muito bem a tarefa do stalinismo em todos esses países. Somente depois dos acontecimentos de 2011, é que podemos prever ou entender o quão significativo foram estas desenraizamentos profundos no imaginário popular, que marcará futuras gerações. E que essas gerações possam usufruir de indivíduos e grupos cada vez mais atuantes no cenário árabe, relativizando o conhecimento das experiências de autogestão e críticas ao capitalismo globalizado.