Arquivo mensal: abril 2015

Uma entrevista de Eduardo Galeano a Alberto “Pocho” Mechoso


eduardogaleanoEsta trecho traduzido faz parte de um breve documental sobre a vida do companheiro uruguaio, desaparecido na ditadura rioplatense nos anos 70. Alberto “Pocho” Mechoso foi integrante da FAU desde sua fundação em 1956. Trabalhou durante muito tempo na indústria da carne, um dos ramos mais importantes da economia rioplatense. Naquela época ainda não existia a FAU, mas a Agrupação Anarquista Cerro-La Teja e o Ateneu Livre, ambos nesses bairros. Vários grupos de jovens como ele passaram a se organizar em vista da escassez de trabalho e de renda, então a idéia de uma cooperativa passou a ser uma das preocupações para os jovens trabalhadores. Participou em diversas atividades como de propaganda e agitação, inclusive na expropriação de bancos em Montevidéu. Foi no tempo livre da prisão que fez dos estudos sobre a desigualdade social e organização política que Pocho passou a ler clássicos como Rocker, Malatesta e Fabbri. Fez parte do braço armado da FAU, a OPR-33 Orientales, durante a ditadura no Uruguai, onde demonstrou sua capacidade pontual de organização, planejamento e de responsabilidade. Caiu preso pela última vez e foi brutalmente torturado pela polícia argentina numa operação conjunta dos militares, no chamado Plano Condor. Antes de cair, ainda fez uma inédita entrevista com Eduardo Galeano que consta no documento.

A reportagem depois da fuga

A reportagem de Eduardo Galeano com Pocho Mechoso começa assim escrita:

“O Pastor Georges Casalis, professor da Faculdade de Teologia Protestante de Paris, acaba de denunciar ‘a evolução fascista dos países do Rio da Prata…’ Referindo-se ao Uruguai… ‘é o horror austral.
Parece que se tem alcançado o fundo do abismo.’”

Galeano depois nos conta “entrevistamos um homem que emergiu do fundo do abismo e relata o que sofreu e viu…” Fugiu do quartel no dia 21 de novembro, em uma ação espetacular… No entanto, ainda urina sangue, não recuperou a sensibilidade da sua mão direita e duas de suas costelas ficaram afundadas em razão dos pontapés que lhe proporcionaram os oficiais. Ele tem pressa para retornar ao Uruguai. “Volto para me incorporar à luta”, disse. “A peleia se dá tanto dentro do quartel, na tortura, como fora, nas ruas…”.

Pergunta Galeano: “Fostes torturado desde o princípio?”

“Sim” [responde]… “queriam que lhes dissesse onde estava a Bandeira dos 3316, que a OPR levou do Museu Histórico Nacional. Também queriam que lhes falasse do sequestro de Molaguero…17”.

Foram muitos dias e noites de diferentes torturas. Passearam com ele por vários quartéis, e nada lhe tiravam. Então assim lhe disseram: “Você vai passar por todos os quartéis até que cante”.

Pergunta Galeano: “Mas, se não tinhas falado, era necessário fugir?”

P: Não iriam me deixar sair em liberdade. Eu sabia. Me colocar em liberdade era como deixar clara sua impotência, o fracasso de seus métodos.

G: O que você viu?

P: Bom, mais do que ver, escutei. Porque estive encapuzado o tempo todo. Mas não há pior tortura do que sentir como torturam os demais. No Quinto da Artilharia existia um menino de seis anos, trancado com seu pai e sua mãe. O menino escutava os alaridos da mãe quando estavam torturando-a. Uma mulher grávida de sete meses, torturavam seu marido na sua frente no 2º e 3º da Infantaria… vários casos de violações…

G: E o agora?

P: Quando se vê bem claro como são os inimigos, que outra coisa se pode fazer do que voltar e ocupar seu posto? Se há alguma coisa se sente bem dentro do submundo dos quartéis de meu país, no meio do aguilhão, do cavalete, do submarino18, é saber escolher qual lado da trincheira sempre terá que estar. Estarei de novo metido entre a gente da minha classe. Lutando. Ali eu vou me reencontrar com os meus filhos, junto com o meu irmão. Agora

G: Mas, depois da fuga, te buscarão por todos os lados, não será muito difícil para você estar no Uruguai?

P: Isto está claro. O momento é muito difícil para todos os que lutam. Eu sei que para mim são coisas de “Liberdade ou Morte”, como está na Bandeira dos 33.”

Pocho, antes de cair e desta fuga, já era um dos responsáveis por uma das partes da FAU: a OPR 33. Teve plena responsabilidade operativa sobre os feitos que lhe questionavam. Por outro lado, no organismo armado da OPR 33, sabia onde se encontrava a Bandeira. Nenhum efeito negativo teve a sua queda. Positivo sim, ganhou o respeito e o carinho de todos.

Tradução: Pablo Mizraji

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