Arquivo mensal: março 2012

8 de Março é das trabalhadoras de um mundo novo


Dia da Mulher Trabalhadora – Breves biografias de dez mulheres. Aos poucos, como as costureiras dessas histórias que vamos contar, vamos costurando essa colcha de retalhos tão rica que é a experiência de lutas dos povos do mundo. Como as educadoras, vamos passando isso pra adiante, para os filhos e filhas do povo, que já nascem com o punho levantado. Essas mulheres junto com aquelas 129 queimadas dentro da fábrica, junto com todas as lutadoras do povo que já se foram e as que seguem, recebam nossa modesta homenagem.

Companheiras libertárias


Malvina Tavares
Seu nome completo era Júlia Malvina Hailliot Tavares. Natural de Encruzilhada do Sul, RS, nasceu em 24 de novembro de 1866. Pioneira do ensino laico no Brasil.  Formada, foi lecionar na vila de Encruzilhada, em 1898, ministrando aos seus alunos um tipo de educação laica e libertadora, espécie de Escola Moderna, nos moldes daquela defendida pelo educador espanhol anarquista Francisco Ferrer. Malvina faleceu em 16 de outubro de 1939. Há uma rua com seu nome em Porto Alegre.

Fonte:  Os anarquistas do Rio Grande do Sul – João Batista Marçal

Dorvalina Martins Ribas
Nasceu em Porto Alegre, RS, em 12 de agosto de 1900. Ainda estudante se tornou discípula de Francisco Ferrer e adepta do ensino laico. A escola funcionava na Rua Ramiro Barcelos, 197, na então chamada Colônia Africana, espécie de gueto negro localizado onde fica hoje o bairro Bom Fim. O “Correio do Povo” de 3 de maio de 1919 informa que nas comemorações do 1º de maio a passeata operária parou na frente da Escola Moderna e ali foi saudada por seus alunos com o hino “Porvir”. Os trabalhadores – segundo a mesma fonte – responderam a homenagem cantando o hino “Filhos do Povo”. À frente dos alunos, a professora Dorvalina Ribas. Dorvalina e Jesus integravam o Grupo Anarquista Internacional, em 1928, quando ela proferiu uma concorrida palestra na homenagem que a FORGS prestou à memória de Francisco Ferrer. Este ato ocorreu na rua Jerônimo Coelho. A partir dos anos 30, Dorvalina e o marido seguem dedicando-se è educação infantil, construindo o Instituto de Assistência e Proteção à Infância, junto à pedreira do Morro de Santo Antônio. A idéia surge depois que o casal recebe a denúncia de que um grupo católico mantinha crianças em um porão sujo, alimentadas de restos de comida de restaurantes da burguesia. Criam o instituto para abrigar as crianças, reunindo as poucas economias do casal, com muito empenho e apoio da comunidade. A educadora virá a falecer de câncer em março de 1944, com 43 anos.

Fonte: Os anarquistas do Rio Grande do Sul – João Batista Marçal

Espertirina Martins
Natural de Lajeado, RS, Espertirina era a mais jovem das irmãs Martins, nascida em 1902. Foi aluna da Escola Moderna de Malvina Tavares, e com apenas quinze anos, em 1917, carregava a bomba com que Djalma Fettermann enfrentou a carga de cavalaria da Brigada Militar na batalha campal travada na Várzea, hoje avenida João Pessoa, entre anarquistas e brigadianos, em janeiro deste ano. O confronto se deu durante o enterro de um trabalhador assassinado pela repressão. Espertirina levava essa bomba disfarçada dentro de um buquê de flores… Meses depois, em julho, estouraria a greve geral que ficaria conhecida como “A Guerra dos Braços Cruzados”, que pararia Porto Alegre e outras cidades do estado, e da qual Espertirina e sua família participaram ativamente. De novo em Porto Alegre, já moça, tornou-se uma feminista convicta . Em 1925 foi residir com Eulina e Zenon em Campos (RJ), ligando-se novamente aos grupos anarquistas, quando promoveu reuniões e pronunciou conferências”. Foi residir no Rio, na Ilha do Governador, Praia da Bandeira, ligando-se a Edgar Leuentoth, junto a quem prosseguiram nas atividades revolucionárias, até voltarem para Porto Alegre. Aqui. Espertirina veio a falecer em 22 de dezembro de 1942, em virtude das complicações de um parto prematuro e apendicite.

Fonte: Os anarquistas do Rio Grande do Sul – João Batista Marçal

Elvira Boni

Filha de imigrantes italianos, nasceu em 1889 no Espírito Santo do Pinhal, estado de São Paulo, começou ainda criança com suas irmãs e irmãos, assistindo a palestras na Sociedade Dante Alighieri. Começou a trabalhar aos 12 anos de idade como aprendiz de costureira na rua Uruguaiana. Inicialmente não recebia salário e depois passou a receber 10 mil réis por mês. Já conhecia a Liga Anti-Clerical, com sede na Av. Marechal Floriano. Por essa época (1911-12), a jornada de trabalho começava às 8 horas e terminava à 19 horas e quando o serviço apertava, prolongava-se até às 20 e 22 horas.

Aos poucos Elvira forma-se profissionalmente, começa alargar seus horizontes  lendo os jornais operários e anarquistas. Impulsionada pelo anarco-sindicalismo, em maio de 1919, com 50 companheiras de profissão, forma a União das Costureiras, Chapeleiras e Classes Anexas, passando a funcionar na sede da União dos Alfaiates do Rio de Janeiro.

A primeira iniciativa da associação das operárias costureiras, ainda em 1919, foi deflagrar greve pelas 8 horas de trabalho. Muitas grevistas foram punidas com a demissão sumária. Não obstante as medidas repressivas, as mulheres trabalhadoras continuaram sua luta, publicando manifestos e, no 3º Congresso Operário Brasileiro, Elvira Boni e Noêmia Lopes representaram as costureiras e por extensão as mulheres. Elvira presidiu a sessão final do Congresso, que ocorreu em 1920.

Tomou parte também na representação de peças anarquistas e anti-clericais de grande importância para a propaganda libertária, levadas à cena por grupos amadores nos palcos dos salões das associações operárias do Rio de Janeiro.

Fonte: “Companheiros” e “Alvorada Operária” de Edgar Rodrigues

Elena Quinteros
Nasce em 9 de setembro de 1945 em Montevidéu, Uruguai.

Estudou Magistério no Instituto de Professores Artigas, onde inicia sua militância no grêmio estudantil. Em 1966 aos 21 anos de idade, obtêm seu título como professora e começa a trabalhar em uma escola de Pando, Canelones. Nessa época se integra à Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e também a Resistência Operária Estudantil (ROE), da qual foi ativa militante. Atuou no meio sindical e integrou as Missões Sociopedagógicas, uma iniciativa dos professores do Instituto Cooperativo de Educação Rural.

Em 16 de novembro de 1967 foi detida pela primeira vez e liberada no outro dia. Em outubro de1969 foi detida, processada e enviada à prisão, onde permaneceu até outubro de 1970. Em 1975 é destituída de seu cargo pelo governo ditatorial.

Em 26 de junho de 1976 é seqüestrada nos jardins da Embaixada de Venezuela e levada ao Batalhão nº 13 de infantaria, e posteriormente retirada dali em 28 de junho sob forte custódia, para que não estabelecesse contato algum com sua organização. Enquanto é escoltada, salta de improviso o muro da Embaixada da Venezuela, grita seu nome e pede asilo; o pessoal da embaixada busca socorrê-la, mas a escolta consegue frustrar o auxílio e fuga. Se produz um forcejo entre o pessoal da embaixada e os efetivos militares, os quais terminam por arrastar Quinteros para um carro. Com a perna quebrada ao tentar a fuga, é levada de volta ao Batalhão n° 13, onde funciona um centro de tortura da ditadura uruguaia.Desde aí não se tem mais notícias do que houve com Quinteros. O embaixador da Venezuela no Uruguai, Júlio Ramos, se comunica por telefone com o Ministério de Relações Exteriores Uruguaio e denuncia o fato ao subsecretário Guido Michelín Salomón, posto que o Ministro Juan Carlos Blanco não se encontrava na sede ministerial. Esta situação se converte em um incidente diplomático de envergadura que finaliza com a ruptura de relações diplomáticas por parte de Venezuela.

De Elena, assim se recordam seus companheiros da FAU: “Dizia como era persistente. E persistente classista. Detestava o ascensionismo, o reformismo, o eleitoralismo… Lutava por uma revolução do povo, um protagonismo do povo, uma justiça do povo e não por soluções de Mazorcas. Nunca pelas soluções autoritárias e exploradoras largamente experimentadas e largamente tão desastrosas para os trabalhadores.” (…) “Sem falar de sua moral política impecável. Sua fraternidade, sua generosidade que também formam parte desta companheira que sempre formará parte de nós.”

Fonte: Wikipédia, FAU

Margarita Ortega
Como outros grupos revolucionários – zapatistas, villistas e etc – o movimento anarquista da México, encabeçado pelo Partido Liberal Mexicano, havia lançado-se às armas contra a brutal ditadura do general Porfirio Díaz. Com a luta e sob terrível repressão, a influência das idéias anarquistas de Magón e seus companheiros estendia-se cada vez com maior força no seio das sociedades camponesa e operária do norte do México e Baixa Califórnia, do mesmo modo que no sul acontecia a rebelião zapatista.

No inicio de 1911 uma das pessoas encarregadas do contato entre combatentes libertários magonistas era uma mulher: Margarita Ortega. Sua arriscada tarefa consistia em atravessar as linhas inimigas guiando os grupos que transportavam as armas, víveres e medicamentos até as agrupações que estavam armadas, e que viviam escondidas nas montanhas ou misturadas nas cidades e vilas. Sua valentia em combate e sua habilidade como amazona – que lhe permitiram escapar de várias emboscadas -, era proverbial entre os guerrilheiros.

A história daquela extraordinária mulher, que aparecia em canções populares, era bem conhecida e admirada entre os revolucionários. Ainda que filha de uma família estabelecida, desde de muito cedo preocupou-se com o destino dos trabalhadores e, como ela dizia, dos deserdados, vítimas da injustiça social. Seus familiares – que aspiravam fazer parte da burguesia endinheirada – não só rechaçavam as idéias que a filha tinha, como odiavam e repudiavam sua atitude. E nessa ambiente, Margarita se casou e em pouco tempo, deu a luz a uma filha que pôs o nome de Rosaura e devotará a ela um grande afeto.

Durante a infância de Rosaura, a mãe se vinculou ao movimento anarquista de Flores Magón. Desde o primeiro momento desenvolveu uma atividade organizativa extraordinária que lhe valeu a confiança dos grupos clandestinos. Mas a medida que chegava o fim da sangrenta ditadura, a luta tornava-se mais dura. Em princípios de 1911, alguns meses antes da queda do ditador, Margarita – segundo o próprio Magón – propôs ao marido irem juntos combater na guerrilha: Eu te amo – ela disse -, mas amo também a todos que sofrem e pelos quais luto e arrisco minha vida. Não quero ver mais homens e mulheres dando sua força, saúde, inteligência, seu futuro para enriquecer os burgueses; não quero que por mais tempo haja homens mandando em outros homens. O marido negou-se. Então Margarita dirigiu-se a sua jovem filha, Rosaura Gortari: E você, minha filha, está disposta a me seguir ou prefere ficar com a família? Rosaura não duvidou em seguir a sua mãe e ambas ingressaram como combatentes nos grupos armados.

Quando em 21 de Maio de 1911 cai Porfirio Díaz, uma explosão de alegria sacode todo o México. O povo saiu para a rua acreditando que a liberdade e o fim da miséria estavam ao alcance da mão. Também Margarita Ortega e sua filha regressaram a cidade e compartilharam com sua gente a ingênua ilusão de que o fim da exploração estava próximo.

Entretanto, pouco durou a alegria e a esperança. Uma vez que Madero foi nomeado presidente, ele nega ao povo tudo aquilo porquê havia lutado. Não acontece a reforma agrária, nem a devolução das terras comunais. E nas oficinas continuam as jornadas abusivas e salários infames. Os mineiros permanecem escravizados aos interesses das companhias estrangeiras que saqueiam o país… Em poucos meses, as prisões se enchem de novo. Os fuzilamentos e execuções sumárias se sucedem por todo o país e muitos revolucionários têm que retornar às montanhas. Entre eles Zapata, Flores Magón…

Naqueles dias, o general Rodolfo Gallegos ordenou que se levasse as duas mulheres até o deserto e as colocasse em marcha sobre o imenso areal, debaixo de um sol abrasador, sem água, sem alimentos e a pé, com a advertência de que seriam passadas pelas armas se voltassem ao povoado.

Durante vários dias, mãe e filha arrastaram-se por aquele imenso areal, que fazia fronteira com os Estados Unidos. A sede e a fome foram minando a resistência de ambas. Rosaura, a menina, foi a primeira a cair exausta com os lábios inchados e o rosto queimado. A mãe, ao vê-la cair desmaiada e com os olhos fechados, acreditou que tudo havia terminado decidindo assim suicidar-se, mais ao apontar o revólver para a cabeça viu que a filha a observava. Tirando forças sabe-se lá de onde conseguiram alcançar as cercanias do povoado de Yuma, já nos EUA.

Ainda não recuperadas do sofrimento, os inspetores da imigração norte-americana arrastaram as duas mulheres e pretendiam deportá-las para o México, entregando-as a uma morte certa. Afortunadamente, em Yuma havia uma importante seção do movimento anarquista de Flores Magón que, em seguida, organizou a fuga. Margarita e sua filha, – que todavia não haviam superado as penalidades vividas no deserto – foram transferidas pelos compatriotas magonistas para Phoenix, Arizona, trocando seus nomes respectivos por os de Maria Valdés e Josefina. Entretanto, apesar dos cuidados da mãe e dos companheiros a pequena Rosaura não pode salvar-se, falecendo logo que chegou. Durante algum tempo a mãe pareceu desesperar-se mas, com o passar dos dias, tendo os olhos dirigidos para a terrível fronteira que havia levado a sua filha, pouco a pouco foi reanimando-se em Margarita a necessidade de continuar a luta que havia iniciado com a sua querida filha. De algum modo, Rosaura continuaria vivendo nela, se manteria a esperança em um ideal comum. Assim o fez. Com o companheiro Natividad Cortés – conta Flores Magón – empreendeu a tarefa de organizar o movimento revolucionário no norte de Sonora, tendo como base de operações o vilarejo de Sonoyta, do dito estado.

Mas a tragédia a perseguia sob o nome do general Rodolfo Gallegos, agora partidário do novo chefe Carranza e contra o ditador Huerta que havia assassinado Madero e ocupado o cargo de presidente da República.

Em outubro de 1913, Gallegos havia sido encarregado por Carranza de vigiar a fronteira e cumprindo este trabalho policial, em uma triste casualidade, pôs as mãos nos anarquistas. Natividad Cortés foi fuzilado no ato, e Margarita levada prisioneira até a Baixa Califórnia, onde Gallegos mandou deixá-la em um lugar que forçosamente seria vista e aprisionada pelos huertistas, deixando a esses a tarefa de assassina-la.

Apenas um mês mais tarde, em 20 de novembro, Margarita foi entregue as tropas do ditador Huerta. Em um campo próximo a Mexicali. Submetida a tortura para que delatasse os companheiros que lutavam contra a nova ditadura e que sustentavam a organização anarquista clandestina, Margarita resistiu em silêncio. Durante quatro dias a obrigaram a ficar de pé e quando caia a levantavam por meio de chutes e coronhadas. Diante de seu obstinado silêncio, na manhã de 24 de novembro de 1913 a jogaram no deserto e ali a fuzilaram, deixando seu cadáver estirado.

No ano seguinte chegada a brutal notícia ao conhecimento de Flores Magón, este escreve uma dolorida crônica – que serviu de base para estes apontamentos – que segue, passo a passo, o terrível, enérgico testemunho desta mulher indomável, que será como uma premunição de si mesma.

Fonte: M. Genofonte – Revista La Campana

Lucia Parsons
“Lucia González de Parsons? ¡Ah!… sim é uma mulata que não chora”, escreveu José Martí em suas crônicas sobre os acontecimentos de Chicago em 1886 publicadas pelo jornal argentino La Nación.

Seu verdadeiro nome era Lucia Eldine González e nasceu em 1853 em Johnson Country, Texas, poucos anos depois de que este Estado deixasse de ser mexicano, sendo tomado pelos americanos invasores.

Lucia era filha de uma mexicana (possivelmente de origem africana) e de um índio creek, e se considerava mexicana. Aos três anos de idade ficou órfã, sendo criada por um tio materno em um rancho do Texas. Investigações recentes assinalam que provavelmente Lucia foi escrava nesse rancho. O historiador James D. Cockcroft a definiu como “uma mulher hispano falante de mistura índia-africana-mexicana e uma ativista operária toda sua vida”.

Foi em Austin (cidade que junto com San Antonio integrava o cordão do algodão, onde residia grande número de mexicanos) que Lucia González conheceu Albert Parsons. Ali ambos se casaram em 1871 ou 1872, e desde então ela passou a ser conhecida como Lucia Parsons.

Devido a sua condição de republicano radical e a que sua recém fundada família era uma mistura de raças, o irmão de Albert, que era general, obrigou-o abandonar o Estado. Com seus escassos pertences os esposos Parsons se trasladaram a Chicago em 1873. Lucia abriu uma pequena loja de roupa para ajudar na economia do lar e Alberto começou a trabalhar numa gráfica.

Chicago era uma cidade de “estrangeiros”, arrastados pelo sistema mundial de acumulação capitalista à periferia de uma cidade industrial onde já havia começado a gestação dos acontecimentos de 1886. Durante o inverno de 1872, milhares de pessoas famintas e sem lar por causa do Grande Incêndio, realizaram manifestações pedindo ajuda. Muitas delas levavam cartazes proclamando “pão ou sangue”. Receberam sangue: corridos ao túnel sob o rio Chicago, foram baleados e golpeados. Em 1877, uma onda de greves se estendeu pelas redes ferroviárias alcançando a Chicago, e as assembléias operárias eram dissolvidas pela polícia a balaços.

A burguesia industrial de Chicago gozava de uma merecida fama de selvageria e o Departamento de Polícia atuava como uma força privada a seu serviço. A maioria dos policiais, além do pagamento que recebiam do município, percebia dinheiro das organizações patronais e tinham assumido que todo grevista era um agente estrangeiro ao serviço do anarquismo ou do socialismo.

Lucia, que tinha qualidades de organizadora, se apaixonou pela leitura e em 1878 começou a redigir artigos sobre diversos temas, entre outros sobre os sem-teto, os desempregados, os vagabundos, os veteranos da Guerra Civil e sobre o papel da mulher na construção do socialismo. Também contribuiu a formar a União de Mulheres Trabalhadoras de Chicago, a mesma que em 1882 “Os Cavalheiros do Trabalho” reconheceram e somaram a suas fileiras (nesses anos não se permitia a militância de mulheres nas organizações). Alem disso, participou na fundação da International Workin People’s Asociation (IWPA), de idéias anarquistas, que promovia a ação direta contra os capitalistas.

Em 1885, em plena efervescência pela jornada de oito horas, foi muito ativa na organização das costureiras da indústria de grãos (sweat-shops). Colaborava com artigos para o jornal O Alarme que editava seu esposo

O 1o de maio de 1886, levando da mão a seus pequenos filhos (Lulu de oito anos e Albertinho de sete) Lucia e Alberto caminhavam para o lugar do comício repetindo a consigna que estava na boca de milhares de trabalhadores e trabalhadoras: “não queremos trabalhar mais de oito horas”. O mesmo dia, o Chicago Mail advertia no seu editorial: “Há dois rufiões perigosos que andam em liberdade nesta cidade; dois covardes que se ocultam e que estão tratando de criar dificuldades. Um deles se chama Parsons, o outro Spies. Marquem-nos hoje. Mantenham-nos à vista. Indiquem-nos como pessoalmente responsáveis de qualquer dificuldade que ocorrer. Façam um escarmento realmente exemplar com eles se de verdade se produzem dificuldades”. Estavam condenados de antemão. Mas aquele 1o de maio acabou sem incidentes.

O 4 de maio se realizou um comício na Praça Haymarket para protestar pela repressão policial, que tinha vitimado seis vidas operárias na frente da fábrica Mc Cormik quando uma bomba matou o policial Degan. Lucia e Alberto, depois que este falara no comício, se encontravam junto de seus filhos no Salão Zept’ s, o que demonstra que nada tiveram a ver com aquela bomba, pelo qual se condenou a quem depois se converteriam nos Mártires de Chicago ao morrer na forca ou purgar longas condenações na prisão.

Parsons, convencido de que seria culpado, conseguiu fugir no meio da confusão, e dias mais tarde, depois discutir o assunto com Lucia, decidiu apresentar-se. Subitamente apareceu perante da Corte exclamando: “Nossas Honorabilidades, tenho vindo para que se me processe junto de todos meus inocentes companheiros”. Lucia, acompanhada pelos seus filhos percorreu todo o país durante quase um ano. Dirigiu-se a mais de 200 mil pessoas em 16 estados, falando de noite e viajando de dia. Escreveu centenas de cartas a sindicatos e diferentes autoridades, tanto dos Estados Unidos como de todo o mundo.

Quando o 9 de outubro de 1886 se proclamou a sentença de morte Lucia estava na sala, apertou seu punho contra o rosto e não quis derramar lágrimas frente aos algozes. Lucia disse: “Se de mim depende que Albert peça perdão, que o enforquem”.

Pouco antes que o enforcassem, Alberto escrevia: “A minha pobre e querida esposa: Tu es uma mulher do povo e ao povo te lego. Devo fazer-te um pedido: não cometas nenhum ato temerário quando eu tenha ido, mas assume a causa do socialismo, já que eu me vejo obrigado a abandona-la”. Depois do enforcamento de seu esposo, Lucia seguiu percorrendo o país, organizando as trabalhadoras e escrevendo em jornais sindicais. Participou nas mobilizações de 1890, quando se comemorou pela primeira vez o 1o de Maio nos Estados Unidos.

Em junho de 1905 esteve presente na constituição de Trabalhadores Industriais do Mundo (IWW, pelas suas siglas em inglês), organização influenciada pelo anarco-sindicalismo. Naquela oportunidade manifestou: “Somos escravas dos escravos. Exploram-nos mais impiedosamente que aos homens. Onde queira que os salários devam ser reduzidos, os capitalistas utilizam as mulheres para reduzi-los, e se há qualquer coisa que vocês os homens devem fazer no futuro, é organizar as mulheres”.

O 15 de dezembro de 1911 realizou um balanço sobre os efeitos da publicação “Os famosos discursos dos Mártires de Haymarket”, declarando que já tinha vendido 10 mil cópias ao tempo que anunciava uma sexta edição de 12 mil exemplares. Em 1913, aos 60 anos de idade, foi detida pela polícia de Los Angeles.

Aos 89 anos, Lucia seguia ativa, quando a morte a surpreendeu em Chicago ao incendiar-se sua casa em 1942. Finalizavam 62 anos de militância político-sindical, mas ainda que morta, a polícia a seguia considerando uma ameaça, pois seus documentos pessoais foram confiscados.

Fonte: Enildo Iglesias- Rel-UITA

Louise Michel
Nasceu em 29 de maio de 1830 em Haute Marne (França). Era filha de uma servente, não reconhecida pelo pai, o patrão da sua mãe. Através do apoio do avô recebeu educação e se converteu em professora. Louise instrui as crianças conforme suas convicções e não como exige o governo imperial. Explica às crianças que Napoleão é um criminoso, um tirano, um traidor, os ensina cantos revolucionários e outras coisas. Os pequenos mostram-se muito contentes com a estranha professora mais o diretor chega logo à conclusão de que ela não serve para o magistério.

Louise vai então para Paris e começa a lecionar em uma escola livre, pois nas públicas tinha que prestar juramento de fidelidade ao imperador. Estas escolas pagavam muito mal, e Louise para poder sustentar e ajudar a mãe que dela dependia também dava classes particulares de música e desenho. Apesar disso não deixou de participar dos clubes revolucionários onde conheceu vários militantes de esquerda. Toma parte do grupo “O direito da mulher”, formado por socialistas e feministas .

Louise participa em todas as tentativas revolucionárias contra Napoleão III e quando o trono imperial cai destruído por ocasião da guerra franco-alemã. Ela é a primeira a atacar a chamada República de Setembro, a república da burguesia francesa.

Durante a Comuna de Paris, em 1871, animou o Clube da Revolução e suas milícias, comandando um batalhão feminino que se enfrentou com os reacionários nas barricadas de Paris. A condenaram a dez anos de exílio depois de ter declarado em juízo o seguinte:

“Não quero me defender. Pertenço por inteiro à revolução social. Declaro aceitar a responsabilidade dos meus atos. O que peço é para ser conduzida ao Campo de Satory, onde foram conduzidos e metralhados os nossos irmãos. Já que, segundo parece, todo coração que luta pela liberdade só tem direito a um tanto de chumbo, exijo minha parte. Se me deixarem viver, não cessarei de clamar vingança e de denunciar, e, vingança de meus irmãos, aos assassinos desta Comissão.”

Deportada para a ilha de Nouméa, uma colônia penitenciária francesa situada no Oceano Pacífico, no arquipélago de Nova Caledônia, colaborou com aqueles que lutavam pela independência política dessa colônia francesa. Lá eram assassinados centenas de índios canacos que fartos da exploração francesa, haviam levantado-se esgrimindo facas, lanças e flechas contra os poderoso canhões e fuzis do exército francês. Louise aprendeu seu idioma, se internou na selva e montou uma escola e uma dispensa.

Dois anos depois do seu regresso à França em 1881, foi processada por encabeçar uma manifestação de desempregados que culminou em uma expropriação dos comércios. Obteve uma nova condenação de seis anos de prisão. Escreveu “Memórias da Comuna”, em 1898, além de novelas e dramas sociais como “A Miséria”, “Os Filhos do Povo”, “Os delitos de uma época”, entre outros. Em 1889 Louise falava em um ato quando um espectador situado atrás dela lhe disparou duas vezes na cabeça. Detido imediatamente, Louise mesmo ferida pediu que o soltassem, entendendo ser um pobre miserável a quem pagaram para matá-la.

Em 1890 foi viver na Inglaterra, onde conheceu outros famosos libertários: Malatesta, Emma Goldmam, Kropotkin, Pedro Gori. Em Londres funda a “Escola Dominical Internacional” junto com Sebastian Faure e H. W. Nevinson.

Morreu em 1905, enquanto dava uma conferência para trabalhadores em Marselha. Milhares de pessoas seguram seu féretro. Foi enterrada envolta pelo estandarte da Comuna de Paris.

Fonte: Revista “La Campana”, Rudolf Rocker, Wikipédia

Emma Goldman
(27 de junho de 1869 – 14 de maio de 1940).

Célebre anarquista de origem lituana conhecida por seus escritos e seus manifestos libertários e feministas, foi uma das pioneiras na luta pela emancipação da mulher.

Nasceu no seio de uma família judia de Kaunas, na Lituânia, que regiam um pequeno hotel. Sofreu uma infância violenta, tendo sido estuprada com apenas 12 anos.Durante o período de repressão política que seguiu ao assassinato de Alexandre II, e quando tinha 13 anos, se transladou com sua família para São Petersburgo.

Emigrou aos Estados Unidos com uma irmã depois de um enfrentemento com seu pai, que pretendia casá-la aos 15 anos. Passou a trabalhar como operária têxtil. O enforcamento de quatro anarquistas depois do motim de Haymarket, em Chicago, animou a jovem Emma Goldman a unir-se ao movimento anarquista e converter-se aos 20 anos, em uma autêntica revolucionária. Nessa época casou com um emigrante russo, mas o casamento durou apenas 10 meses. Emma se separou e foi para Nova Iorque. Continuou legalmente casada para conservar sua cidadania americana.

Emma foi presa em 1893 na penitenciária das ilhas Blackwell. Publicamente instigou os operários à greve “Peçais trabalho, se não dai-vos, peçais pão, e se não dai-vos nem pão nem trabalho, tomem o pão”. Esta citação é um resumo do princípio de expropriação preconizada pelos anarco-comunistas como Piotr Kropotkin. Voltairine de Cleyre saiu em defesa de Emma Goldman em uma conferência dada depois de sua prisão. Enquanto permaneceu na prisão, desenvolveu um profundo interesse pela educação das crianças, para o que iria dedicar-se anos mais tarde.

Junto com nove pessoas foi novamente presa em 1901 acusada de participar de um complô de assassinato contra o presidente William Mc Kinley. Um deles, Léon Czolgosz que havia dado o tiro, havia assistido uma conferência de Emma Goldman e se tornado anarquista desde então.

Entre 1906 e 1917 publica a revista anarquista mensal “Mãe Terra”. Em 1910 escreve “Anarquismo e outros ensaios”. Em 11 de fevereiro de 1916 é detida e presa de novo pela distribuição de um manifesto em favor do aborto. Durante vários anos, e cada vez que dava uma conferência, esperava ser detida, por isso sempre carregava um bom livro.

Em 1917 é encarcerada junto com Alexander Berkman por conspirar contra a lei que obrigava ao serviço militar nos Estados Unidos. Fez públicas suas críticas à Primeira Guerra Mundial e seu caráter imperialista.

Seu apoio a Berkman na tentativa de assassinato do industrial Henry Clay Frick a fez ainda mais impopular frente as autoridades americanas. Berkman foi preso durante vários anos.

Em 1919 foi expulsa dos EUA e deportada para a Rússia. Durante a audiência que tratava de sua expulsão o presidente da mesma qualificou a Emma como “uma das mulheres mais perigosas da América”.

Residiu na URSS com A. Berkman entre 1920 e 1922 e participou da sublevação anarquista de Kronstadt. Dessa época datam seus escritos “Minha desilusão com Rússia” e “Minha posterior desilusão com Rússia”. Desconforme com o autoritarismo soviético, se instalou definitivamente no Canadá. Em 1931 escreve sua autobiografia “Vivendo minha vida”. Morreu em Toronto em 1940 e está enterrada em Chicago.

Fonte: Wikipédia

Ida Mett
Ida Gilman nasceu em 20 de julho de 1901 em Smorgone (atual Bielorrússia). Seus pais, comerciantes de telas pertenciam à comunidade judia, permitiram-na estudar medicina.

Jovem passou a freqüentar círculos anarquistas em Moscou. Algumas semanas antes de receber o diploma em 1924, foi presa pelas autoridades soviéticas por “atividades subversivas”. Com 23 anos se viu obrigada a deixar a Rússia. Vive dois anos na Polônia e em seguida chega a Paris, em 1926. Mudou seu sobrenome para Mett, como fizeram outros revolucionários russos.

Em Paris se encontra com Nestor Makhno, Volin , Valensky, P. Archinov, assim como com Nicolas Lazarévitch, que se converte em seu companheiro. O grupo editava o jornal “Dielo Trouda” (“A obra do trabalho”), o qual Ida se soma.

O grupo produz neste ano a “Plataforma Organizativa para a União Geral dos Anarquistas”. A “Plataforma” faz uma avaliação crítica da participação dos anarquistas na Revolução Russa, que dispersos, sem uma organização, não conseguiram atuar com eficácia. Propõe uma declaração de princípios e formas organizativas.

Em 1928 Ida e Nicolás organizam campanhas informativas sobre a realidade da classe operária na Rússia soviética. Editam o periódico em francês “A libertação sindical” até que são expulsos do país em 25 de novembro de 1928.

Refugiada e Bélgica junto a seu companheiro conclui seus estudos de medicina e obtêm o diploma, embora não seja autorizada a exercer a profissão nem na Bélgica nem na França. O encontro com Ascaso e Durruti os leva a partirem para Espanha em 1931, onde participam de reuniões, atos, e auxilia Ascaso quando este é ferido em um tiroteio. De retorno a Bélgica, criam em 1933, com Jean De Boe, o periódoco “O Despertar sindicalista” e sofrem sucessivas condenações por sua militância.

Em 1936 voltam a França e Ida se converte em secretária do Sindicato de Gás da União de Trabalhadores.

Em 8 de maio de 1940, Nicolás e Ida são presos e separados. Ida fica internada durante um ano junto de seus filhos no campo de Rieucros, do qual sairá graças à Boris Souvarine, que lhes consegue moradia em Var.

Em 1948 trabalha como médica, além de empregar-se como tradutora. Neste ano publica seu famoso livro “A Comuna de Kronstadt” . A obra foi a primeira análise com rigor histórico que se fez sobre a rebelião dos marinheiros, que seriam assassinados por ordem de Trotsky. Coloca em evidência o papel jogado pelo Estado e pela cúpula bolchevique na repressão, não só de Kronstadt mas do movimento de rebelião e luta que se estendeu até fins de 1920 e princípios de 1921 por toda Rússia (greves em Petrogrado, a rebelião camponesa de Tambow…).

Ela também escreveu o estudo “O camponês na Revolução Russa e Pós Revolução”, que apareceu em 1968, entre outros.Another work, Medicine in the USSR appeared in 1953.

Morre em Paris em 27 de junho de 1973.

Fontes: Ediciones Espartaco, Enciclopédia Livre do Ateneo Virtual, Nick Heath – Libcom.net
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