ANTICLERICALISMO: novas contestações e tendências contemporâneas

Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, no momento em que a Igreja Católica passa por uma onda de críticas e protestos em massa sobre temas fundamentais, como AIDS, homossexualismo, pedofilia, laicismo, aborto, casamento, entre outros, vem articulando uma série de medidas políticas junto aos Estados. Talvez em péssima hora, sua visita marcada em países como a Espanha, por exemplo, fizeram ressoar em meio ao turbilhão de insatisfação popular, velhos ecos do anticlericalismo desde a Guerra Civil em 1936.

Televisionado por alguns documentários críticos, como da rede BBC de Londres, intitulado “Sexo, Crimes e Vaticano”, o Estado Papal reage vigorosamente contra a desconfiguração de sua vitrine. As acusações midiáticas não perdoam o Vaticano de insinuar que o fenômeno da pedofilia teria tornado-se um escândalo que se sucede há pelo menos alguns anos. A informação está cada vez mais democratizada e, portanto, novos casos surgem com mais frequência ou verdadeiramente há uma supermanifestação de ordem criminosa por parte do clero nos últimos tempos? O Papa João Paulo II não foi isento das acusações de negligenciar  tomadas de medidas mais severas em sua empresa. Toda uma pressão internacional, por parte da imprensa, órgãos ligados às entidades de direitos humanos, fizeram desde os recentes abusos, divulgação pesada sobre a ausência jurídica do Vaticano. João Paulo afirmava que a Carta de Proteção à Criança e ao Jovem” ainda era obsoleta em relação às tradicionais leis canônicas, salientando que precisava de tempo suficiente para que se chegasse a um consenso. A ineficiência dos argumentos eclesiásticos não alterou nem diminuiu a carga de centenas de vítimas inocentes. Segundo a justiça estadunidense na epóca, os abusos sexuais praticados pelos sacerdotes poderiam ultrapassar a marca das mil vítimas, desde a década de 1940, origem das primeiras notícias.

Seu sucessor, Bento XVI, logo ao assumir seu posto, ordenou rapidamente o protocolo oficial de combate à “imoralidade sexual”, que expunha com rigor crítico, a política da obrigatoriedade da ordenação de mulheres, a condenação do uso de preservativos e a prática do aborto. Seu passado, junto à militância hitlerista durante a Segunda Guerra Mundial, deixa-se atestar, para o reconhecimento de uma postura semiextremista, em relação aos diversos movimentos sociais, como os de gênero e de classe. Exames para a futuridade podem-se basear nos protestos de outras religiões que também foram gerados em razão de sua inadequação diplomática com outros setores religiosos, como por exemplo, na sua fala contra Maomé e a afirmação de que a Igreja Católica seria a única portadora da “verdade”, a “única que salva”, gerando milhares de críticas dentro e fora do mundo religioso. Seus livros que são conhecidos pela moralidade cristã, e temas sobre a sexualidade humana, atingiu a marca dos cinco milhões de euros, com recordes de vendagem, sendo que parte dessa verba, já está destinada a fundos de pesquisas para os cursos de Ensino Teológico em todo o mundo. Como mea-culpa, Ratzinger parece ter reconhecido que a Igreja não agiu de forma consistente e rápida para coibir novos casos de abusos sexuais de crianças por parte de seu sacerdócio, o que de fato, já legitima, por sua vez, os escândalos midiáticos, outrora chamados pela Igreja de “sensacionalistas e corruptivos”.

No entanto, além dos problemas que a Igreja já vem enfrentando, está surgindo das cinzas, um antigo inimigo herético: o anticlericalismo. Movimento político que se define como resposta à existência da instituição religiosa integrada junto às instituições públicas da sociedade, que mediante sua influência direta e de imposição de suas crenças e doutrinas, exerce a sustentação do poder teocrático, em oposição ao poder democrático. Correntes ateístas, agnósticas, anarquistas e socialistas foram defensoras de uma laicidade concreta e filosófica. Essa falta de flexibilização do Vaticano frente a novos movimentos contestatórios sociais, refletem o tamanho da dimensão da intolerância e do extremismo. No caso da Espanha, em particular, seio da Guerra Civil de 1936, em grande parte construída em cima dos alicerces teóricos do anticlericalismo, revê em sua juventude, desacreditada de todo discurso parlamentar e, quiçá, de “moralidade”, sua nova contestação ampliar-se e midiatizar-se a todos os cantos do planeta. As revoluções árabes, as contestações dos jovens no Chile e as barricadas em Londres, nas últimas semanas, demonstram que as consequências das crises da globalização, desemprego, racismo, faltas de perspectivas políticas são, de alguma forma, compartilhadas por pessoas em outros lugares.  Atestando a isso, a visita do Papa Bento XVI em Madrid na Jornada Mundial da Juventude, com todo o apoio do aparato do Estado e Monarquia espanholas, agregou-se milhares de jovens amotinados nas ruas que conclamavam a grito seus direitos.
O famoso “beijaço gay” foi realizado em meio à multidão como protesto à ordenação de proibição do casamento entre homossexuais. Como era de esperar e sob o regime do aparato da violência estatal, o ato foi energicamente atacado pelas forças policiais. De forma a defender seus princípios, não somente a condenação ao homossexualismo, Bento XVI, criticou severamente a exclusão do Ensino Religioso, antes obrigatório em todas as  escolas públicas do país, referindo-se diretamente ao crescente movimento em favor da laicidade entre os poderes estatais e clericais.
Como no exemplo da Espanha, um dos próximos compromissos da comitiva do Vaticano é a vinda para o Brasil, em 2013, na mesma Jornada Mundial da Juventude. Já a realidade no Brasil, na relação histórica entre a Igreja e o Estado sempre deixou subentendido ambas posições. Por um lado, a antiga monarquia brasileira teve o apoio da Igreja, assim como por outro, no período de vigência do Golpe Militar de 64, deixou ambíguas conclusões a respeito. O chamado apoio da Igreja Católica no momento em que se deu o golpe militar, aparece no discurso anti-esquerda de Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, que teve entre suas ligações, diversos agentes ativos durante o processo de militarização do país naquele período. Anos depois do golpe, surge dentro das pastorais, movimentos contrários ao regime, como a Teologia da Libertação, no que evidencia uma bipolarização no contexto eclesiástico, de moções contrários ao autoritarismo, que posteriormente teve em suas perseguições, diversos padres e seminaristas envolvidos. Essa parte da história é bem demonstrada no filme “Batismo de Sangue” de Helvécio Ratton, lançado em 2007. No entanto, nos meados do século XXI, com a transição entre os novos movimentos sociais que com a retomada das bases representativas das entidades religiosas, percebeu-se uma nova era de formações partidárias e extra-parlamentares vinculadas à Educação cada vez mais crescente, sobretudo na competitividade entre evangélicos e católicos. As bancadas fortaleceram seus números e originou-se uma presença massiva do movimento obreirista amplamente organizado na política legislativa brasileira.

Esse crescimento antilaicismo na atualidade demonstra que na prática, o poder submetido pela vontade popular pode também criar novas leis ou impugnar outras, conforme seus princípios morais, éticos e religiosos formarem consenso. Temas como o aborto, a união homossexual, divórcio, a utilização de células-tronco, a obrigatoriedade do Ensino Religioso nas escolas públicas, bem como outras que se inserem dentro do ideário daquela ou desta corrente religiosa, estão cada vez menos sendo debatidas pela sociedade.

Bibliografia referencial:

https://pmizraji.wordpress.com/2009/05/01/o-santo-cabresto-i/

https://pmizraji.wordpress.com/2009/05/01/o-santo-cabresto-ii/

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Publicado em agosto 25, 2011, em Anarquismo Social. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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