Arquivo mensal: julho 2011

FARSA DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO


Por Pablo Mizraji

  1.  Introdução: descentralização e desintegração do trabalho

Jürgen Habermas advoga que a centralidade do trabalho configura-se agora em um universo residual que, de certa forma, negando o avanço do capitalismo a nível global, o importante e prioritário é observar as sociabilidades e os novos valores. Essas ópticas fazem parte do pensamento pós-modernista, cada vez mais complexificado de elementos pluralistas. Assim, a partir dos anos 70 aproximadamente, ideólogos vão analisar que, no auge das emergentes sociabilidades, convergem com o advento do personal computer, o famoso PC, ou computador pessoal. Esse item, encontrado nas lojas de informática e de eletrodomésticos, é tão emblemático quanto sua história “pessoal”. A ciência tecnológica que desenvolveu ao longo do século XX grandes máquinas para uso matemático, viagens espaciais, cria o ENIAC, modelo para uso militar durante a Segunda Guerra Mundial, além dos mainframes para as megacorporações iniciarem a construção de redes interligadas. Desta forma seria muito mais fácil controlar os negócios na Ásia sem estar “presente”. Outros defendem que a revolução tecnológica não foi o PC, mas o mouse, como uma corruptela análoga dos primórdios da humanidade quando o homem passou a usar o polegar.

Determinadas questões que deveríamos fazer é se a relação homem-trabalho e homem-máquina (o homem híbrido de Bruno Latour), de fato caracterizaria definições globais de sociedade? Crianças que trabalham em feirões, mais de sete horas, que moram nas periferias suburbanas, não tem tempo para estudar, formando exércitos de milhões de crianças e adolescentes em todo o país, América Latina, África, Ásia e também nos países do Eixo Norte, com certeza algum dia, nas suas vidas ouviram falar da maravilhosa máquina que pode se comunicar à distância. Mas isso realmente representa um salto a uma Era Digital? Não estamos realmente potencializando o discurso mercantil da megaprodução de computadores em “escala global” para colar descuidadamente sobre um rótulo social novo? O número de analfabetos reais e funcionais ultrapassa a escala de fibras ópticas espalhadas pelo mundo. Será mesmo que esta titulação de sociedade informatizada contempla, de fato, todas as outras sociedades? Com certeza os teóricos do pós-modernismo pragmático (ativistas) não poderiam responder a estas questões dado o alcance macro da análise. Seria muito mais fácil obter os elementos de estudo através daquela média categoria que consome mais propriamente os modelos de Intel, IBM e Macintosh. Se perguntássemos a um adolescente hoje o que acha do computador, ele responderia: “É legal, é divertido, podemos jogar”. Mas certamente os mesmos jovens também devem se perguntar, por que afinal não temos acesso às máquinas de jogos e outros tem com tamanha facilidade? Por que somos analfabetos funcionais e outros não? Por que alguns de nós conseguem estudar e outros não? Por que alguns de nós raramente passam no vestibular ou completam os cursos médios e outros com facilidade estão empregados?

Há uma diferença fundamental nestas questões, assinalando que mesmo o acesso “irrestrito” ao computador não evidencia de modo algum, quebra ou evolução alguma no que diz respeito a uma nova sociedade digitalizada. Poder-se-ia advogar que cultura é tudo aquilo que torna o ambiente humano transformado ou transformador, mas não necessariamente a cultura se limita aos objetos por ele inventados. Os costumes, as crenças, a arte, os símbolos, os conhecimentos são elementos culturais. As promessas tecnológicas não podem de modo algum abraçar toda a humanidade, pois são desprovidas do elemento principal que as rege: o fator humano. Os múltiplos sistemas de gerenciamento e controle dos saberes e do espaço comercial são heterogêneos mesmo entre si, obliterando o pleno desenvolvimento da informatização na “sociedade pós-industrial.” Ao contrário do novo movimento primitivista, que descarta toda evolução tecnocientífica, apesar de, considerar em suas críticas grandes verdades, convém reconhecer que se pretende apenas subtrair o discurso homogêneo da megaprodução de computadores tanto quanto exporta-lo para o pensamento social contemporâneo, como se fosse um novo paradigma.

2.      Revolução Web 2.0 e a regência do capitalismo tecnológico

Por outro lado, a revolução tecnológica de fibras ópticas – revolução, no sentido sociológico do termo, como Revolução Industrial dos séculos XVIII-XIX, com a invenção da eletricidade -, reconfigurou grande parte do mercado financeiro, tornando o capital em interconexões de capitais flutuantes. Como de costume, toda invenção é creditada a um indíviduo/empresa, e neste caso da tecnologia digital, o conhecido www (world wide web, sistema de hipermídia de informações) pertence ao físico inglês Sir Timothy Berners-Lee, que coordena a Fundação World Wide Web, o Laboratório de Inteligência Artificial, Instituto de Ciência Web e membro da Academia Nacional  de Ciências dos EUA. Lee, considerado o “pai da internet” é militante radical a favor da proteção de direitos de propriedade, conceito hoje tão atacado pelos ativistas pró-internet. Segundo Lee[1], em entrevista coletiva no Parlamento Europeu defendia que castigos como desconexão e exclusão da internet eram cabíveis contra movimentos que alegam a livre circulação de informação, assim como redes sociais, etc. Ele, enquanto detentor de parcelas da internet patenteada por grandes empresas, hoje trabalha junto ao governo britânico com base de trabalho na Força-Tarefa de Poder da Informação, uma entidade internacional que atua dentro de um departamento específico da ONU.

A discussão sobre inclusão digital é o norte dos objetivos principais da ONU que interliga relações informacionais com os países cooperados, em aliança com políticas para a iniciativa pública/privada de investimento na área tecnológica. Porém, o que parecia uma norma, pelo menos substancialmente no Hemisfério Norte, em relação a uma “sociedade amplamente composta de novos usuários da rede”, evidenciou-se um enorme buraco entre o piso sócio-econômico da maioria dos países fora do eixo imperialista com aqueles outros. Os experts da ONU e da Força-Tarefa perceberam que era impossível engajar uma nova alcunha à sociedade “pós-industrial” pelo motivo mais aparente: a diferença econômica entre os usuários, ou seja, classe social, interfere acertadamente no uso e acesso aos PC’s, mesmo em lan houses, TIC’s (Tecnologias da Informação e Comunicação) implementadas em espaços públicos dos governos, como escolas, instituições políticas e projetos de inclusão digital. Apesar dos esforços aparentes dessas instituições, o processo de inclusão é barrado pela desintegração dos recursos, pela desigualdade social, onde as tecnologias da informação como celular, TV e internet são, no máximo, filtros para utilitarismos imediatos, ineficazes e inexistentes de verdadeiras inclusões. A maioria dos experts em cultura digital reproduzem incontesti o discurso quantitativo de seus “progressos” mediante números de acesso, pouco caracterizando de fato, o desenvolvimento eqüitativo de um projeto social específico (jornalismo comunitário, novos talentos/programadores, trabalhadores formais e informais) ou uma planificação para a construção de uma “sociedade digitalizada.” O que a cúpula da Força-Tarefa viu na grande maioria dos países com PIB abaixo do normativo ou IDH (medida que engloba riqueza e educação prioritariamente) foi a falta de infra-estrutura, aos equipamentos e qualidade de serviços prestados, todos dependentes de países fornecedores; analfabetismo funcional e capacitação, indicando que só o acesso à informação não garante conhecimento; uso dos recursos, ou a limitação da educação para uma “nova sociedade” informatizada.

Existe um imaginário político de conformismo em relação ao papel do uso da tecnologia (determinismo tecnológico) que está vinculado ao aspecto quantitativo, a perspectiva política da infra-estrutura como fim em si mesma. Na mesma medida em que prevalece a lógica de mercado ou a política da engenharia civil, voltadas exclusivamente para o o urbano (política do asfalto), o fator humanizante e social (qualitativo) é deslocado para uma precarização cada vez maior.

Novamente, não há dúvidas em defender a política da tecnologia digital, enquanto elemento importante e capacitador do desenvolvimento humano e social. A questão que se debruça nesta polêmica é o contrasenso político-econômico de imposição estrutural sobre uma realidade que reflete o oposto do discurso. A ciência produz meios tecnológicos novos para a sociedade mediante esforços capitais. A grande massa consumidora se apropria e ao mesmo tempo, têm nas mãos as condições reais de transformação, mas não como uma sociedade homogênea, sem contrastes. Nossas sociedades são explicitamente desiguais. Aqueles que não podem ou não fazem parte desta “sociedade nova” são os excluídos, poderão participar da Revolução 2.0? Esta afirmação parece soar um tanto anacrônica, já que esse modelo ideal de sociedade, além de não poder contemplar toda a estrutura social vigente, assim como o fazem hoje os ideólogos batizando-a de novos rótulos, está visivelmente fora dos processos considerados “sócio-dinâmicos” (eras) pela história. Desta forma, ela só é incorporada pelo fruto do trabalho de marketing das corporações da indústria tecnológica que atendem a um mercado global, porém, não em sua totalidade, apesar de interferir nas condições de vida da classe média. Quando interfere, geralmente pelo pior método, ou seja, pela sua exclusão. Como toda forma de consumismo está ligada a padrões de mercado sociais, o seu uso tecnológico digital é inteiramente individual. A relação indivíduo/máquina se torna cada vez mais estabelecida em conformidade com os meios midiáticos que intensificam a somatória dos lucros de empresas de hardware e software, além das políticas públicas como as TIC’s também relacionam a conectividade ao descentralismo com o “faça você mesmo.” Quando inseridos dentro de um processo de desenvolvimento social e utilização integral de todas as ferramentas digitais, a idéia de autonomia está correta, ela obstaculiza quando alija-se dos fatores educacionais de transformação coletiva, burocratiza-se e desestimula-se aos novos conectados. Esse individualismo, ora nos Ipods, nas escolas, nas lan houses, nos laptops portáteis, em casa, no trabalho, acaba por alimentar referências culturais um tanto consideradas alienantes, no ponto de vista sociológico. Ao mesmo tempo em que se defende a “rede social” como novo espaço criado para sociabilidades antes jamais pensadas, cria-se e gera-se uma via de mão dupla, que é a sedentarização em relação ao universo social, “desconectados” do mundo real material, dependências cibernéticas, desagregação do sentido de identidade, gerada muitas vezes por uma descarga acelerada de informação em massa. Altera e agrava fatores fundamentais nos comportamentos e interesses. A questão da materialidade é elemento preponderante à análise, ao contrário da limitação do uso das ferramentas. À realidade é conferida a reflexão das imagens externas, consideradas como reais internamente, o mundo conhecido é o mundo que se vê. Quando os indivíduos passam a ver na realidade virtual como forma a substituir ou como prioritariamente desencadeadora de eventos reais, as visões do cotidiano se alteram para conformar-se com aquela realidade virtual. As verdades sociais são agora regidas por bytes.

3.      A Sociedade da Informação tecida por capital-bytes

A centralidade da visão informacional adequa, nos seus interesses propagandísticos, um mote social, como ideal a ser reproduzido. Torna uma categoria social configurada pela classe de consumidores de informática, uma generalidade social. Isso ocorre pela miragem reducionista sobre a proposição na idéia futurista de que uma nova sociedade composta por empreendedores emergentes, democratizações ao acesso das ferramentas, geração de empregos, transformem rapidamente a condição de vida de milhões de pessoas. A “nova economia” para uma sociedade que representa um “mosaico de diversidades fluidas”. Esse aspecto redencionista do mercado que o substitui pelo bem imaterial não poderia nunca abarcar justamente suas pluralidades materiais. O conceito de sociedade digitalizada não está isento de teorizações parciais construídas pelas vanguardas do capitalismo avançado e defendido pelos experts da cultura digital. Partidos de um fundamentalismo tecnológico, essa nova classe emergente de gestores culturais, info-gerências, ativistas “independentes”, administradores de banco de dados empresariais, alimentam a cada dia o imaginário do virtualismo real como uma “nova era”, destinada a prosseguir para a próxima fase sem as velhas bandeiras das ideologias. Articulados com a “nova ideologia” tecnocientífica, dirigem suas verdades abstratas para uma massa de trabalhadores que por condições sociais severas, são imputados novos estigmas, como a analfabetização digital, por exemplo, já não bastasse suas reais condições de sobrevivência.

Os “novos excluídos” agora lotam o exército de reserva, uma massa de milhões de pessoas já precarizadas pelo sistema global. Segundo os dados da Nova Estatística de Usuários de Internet de 2011[2], a porcentagem de pessoas que tem acesso a rede na África é de 10%, América do Norte 77%, América Latina 34%, Ásia 21%, Oriente Médio 29%, Europa 58%, e total no mundo 28%. Esses dados são interessantes de avaliar no sentido de que, mesmo que a margem de crescimento seja sempre ascendente de ano para ano, não se caracteriza a capacitação qualitativa e funcional com os números de acessos por IP’s. Outro fator importante, é que a maioria dos usuários da rede pertença aos continentes ajustados geopoliticamente e que o inglês continua sendo a “língua oficial” no mundo digital, segundo os experts digitais, “mundo das pluralidades”. No Brasil, 37% das pessoas tiveram acesso à internet segundo o IBGE em 2010, dados de usuários ativos e inativos, porém, entre os mais pobres, somente 0,6% tem acesso a rede e entre os mais ricos, 56,3%. São novas soluções temáticas que trazem em seu cerne novos problemas sociais, pela cauda do cometa o vislumbre da nova tecnologia de ponta. É o canto da sereia das inovações e do rompimento progressista rumo à evolução desenvolvimentista. Um sistema capitalista renovado, oxigenado pela fluidez dos novos recursos técnicos, gerido e descentralizado por experts da eletrônica, cada vez mais atuante, onipresente nos PC’s, nos celulares, na TV, na rádio, nas redes sociais, na vida das pessoas, agregando e concentrando capital-bytes em todos os pontos.

Conclusão

Basta observarmos que a inclusão digital não inclui socialmente, como o Estado e empresas divulgam. O grande problema é como, num universo físico cada vez menor, onde os espaços de luta são esvaziados pela militância virtual, podemos utilizar as ferramentas tecnológicas com capacitação, sem que dependêssemos exclusivamente delas. O novo fluxo de informações deve prosseguir, aqui não refuta-se os fins, apenas salienta-se que na história social, a informação sempre sofreu e sofrerá constantes adaptações, anteriormente com o impresso e os jornais, posteriormente com as redes, mas no momento atual, o que se discute é o como o processo se dá quando, através de imposturas, sistematizações equivocadas da realidade, oriundas de um ofuscamento do deslumbre são vindas à tona. A luta por melhores condições de vida sempre existiu, independente de panfletos, jornais, TV ou internet, pois desde que o homem ocupa o lugar da centralidade de todo processo de relações com o meio e o personagem histórico da transformação social (e não as ferramentas para atingir os seus fins) substitui-lo pela imaterialidade é um verdadeiro contrasenso humano.

Advogar pelo fim da centralidade do trabalho como um ocaso residual das esferas da “velha sociedade” e suas contradições econômicas em prol de uma nova economia informacional e imaterial redunda em uma miopia sociológica profunda. Cada vez mais somos bombardeados pelos manufaturados chineses, fábricas que comportam milhares de operários – a produção industrial chinesa já é a maior do mundo em escala -, o crescente número de info-proletários de call centers no mundo, principalmente no Brasil – o setor trabalhista assalariado que mais cresce -, Índia, Rússia e América Latina são respostas imediatas contra a idealização genérica do trabalho social desta época. As teorias pós-fordistas invocam a nova corrente sob os olhares ambiciosos dos gestores e ideólogos como o FMI, OMC e ONU, além de BNDES mundo afora. Em vista de uma utopia redencionista atropelam seqüelas sociais históricas cada vez mais alijadas do direito às condições básicas de vida e coletividade.

Referências Bibliográficas

AMBROSI,PEUGEOT e PIMIENTA, Alain, Valérie e Daniel, Desafios de Palavras: Enfoques Multiculturais sobre as Sociedades da Informação, Editora C & F Éditions, 2005.

ANTUNES, BRAGA, Ricardo e Ruy. Infoproletarios: degradação real do trabalho virtual. São Paulo. Boitempo, 2009.

SILVEIRA, Sérgio Amadeu da. Exclusão digital: A miséria na era da informação. Fundação Perseu Abramo. 2001

___ Felipe, Sônia T., ed. (1998).Justiça como Eqüidade:Fundamentação e interlocuções Polêmicas (Kant, Rawls, Habermas) [Justice As Equality:Foundations and Debates (Kant, Rawls, Habermas). Florianópolis, Santa Catarina, Brazil: Editora Insular / Núcleo de Estudos em Éthica e Filosofia Política.