DA PÓS-MODERNIDADE AOS PÓS-RANCOROSOS

Este primeiro artigo de uma série de cinco, tem por objetivo elucidar de forma clara e sucinta as raízes epistemológicas que permeiam toda uma rede de idéias e pensamentos e, ao mesmo tempo que é fragmentada/dissonante, assim como integrada/convergente, aponta para uma grande mescla de práticas e teorias no pensamento contemporâneo cujo teor principal é a formatação para a existência da Sociedade da Informação.

Genealogia da Pós-Modernidade

Basicamente, a pós-modernidade traz em sua vaidosa bandeira, a idéia de que é impossível haver uma plataforma de realidade concreta, ou seja, um consenso sobre o que seja realidade/verdade, geralmente disperso numa gama complexa de redes de significados, aspectos subjetivos culturais e sociais, macro-e-micro, além da renegação tradicional a toda espécie de enfoque radical às temáticas sociais. É a crítica à modernidade, por mais que em determinados aspectos esta mesma separação ainda seja ambígua. Estando o consenso refutado, é interessante notar que as análises, geralmente convergem-se para o mesmo trajeto da relativização extrema no que concerne à tática de expugnação de qualquer verdade aparente que lhe seja contraditório, os pensadores pós-modernos se alinham teoricamente para denunciar o quão retrógados e obsoletos são os fundamentos das linhas de pensamento políticos. A estes tendem a intitular messiânicos, ou seja, portadores da utopia (milenaristas) da transformação social, enquanto que estes chamam a si mesmos de os “realistas”, “céticos”, etc. São eles, Zygmund Bauman e sua modernidade líquida, Lipovetsky e a fragmentação do tempo e do espaço, Baudrillard como profeta do apocalipse, Bruno Latour como não-moderno, Lyotard, o filósofo da pós-modernidade e da morte das metanarrativas, Morin e sua complexidade atômica, entre tantos outros, tentam “enxergar o mundo sem lentes”, de forma a apreender as “múltiplas realidades” da incerteza do mundo, que segundo as suas teorias, é multifacetado, dinâmico e caótico.

Nesse emaranhado de teorias, muitas delas contraditórias entre si, numa crítica severa ao positivismo e determinismo marxista do início do século XX, emprega-se as designações para conceituar os novos paradigmas, ou o rompimento com o antigo, daí a “crise epistemológica” que vai alavancar-se como corrente filosófica-política em contraposição às idéias “messiânicas”. Apesar de a maioria dos autores advogarem sobre a gênese pós-moderna – a corrente weberiana, por exemplo, irá defender a raiz no pensamento nietzscheniano como crítica à filosofia -, até mesmo certas teorias da conspiração, como aquela que defende que em meio ao processo da Guerra Fria, a CIA orquestrava/patrocinava pensadores da época em contrapor o pensamento da esquerda no mundo bipolarizado, com medo de uma ameaça nuclear em grande escala. Neste contexto de rompimento com a chamada sociedade industrial, na década de 70 mais precisamente, surge o conceito de Sociedade da Informação, como classificação hegemônica para identificar (ou a necessidade de identificar) uma nova fase no desenvolvimento das relações sociais. Antes dada pela revolução dos meios tecnológicos como o rádio, o telefone e a televisão como resultado de um rápido e emergente processo de transformação da informação social, ainda aliado ao crescente número dos êxodos rurais, modificando radicalmente a geodinâmica social de todos os países.

A Sociedade da Informação

Hoje, chamamos o segundo momento de Revolução Web 2.0, onde o computador detém a fundamental centralidade em todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e políticos em relação à sua facilitação à comunicação e instrumento de linguagem propagandística de massas. Para os revolucionários da cultura digital, todo esse avanço de um monstro que vinha se configurando pela ciência e tecnologia, logo após o pós-guerra, sistematizou igualmente o mundo do trabalho, tornando o espectro do sistema capitalista vestido em um novo uniforme. Esta é a concepção histórica do mundo político após a Segunda Guerra Mundial, com o advento da era da técnica, da informação, o advento da internet, a nanotecnologia, uma sociedade digital. O homem passou a criar sua própria armadilha, num sentido mais amplo, quando não acompanha mais a técnica ou não a domina, ele passa a sofrer a dominação. Na verdade, os meios de dominação sempre existiram, desde os primórdios da técnica, o que se alteram e evoluem são reinvenções tecnológicas.

O que o pós-modernismo faz é desvincular a técnica da política. Ou seja, os arautos da nova corrente definem política como unicamente aquela ligada ao parlamentarismo, por isso argumentam que o tempo da política é demasiado curto para resolver os problemas sociais (quando se acredita que existem, de fato). O interessante é que pensadores, teóricos políticos como Nozik e Berlin, por exemplo, não acreditam que o papel transformador das ONG’s, enquanto articuladoras entre o Estado e a sociedade civil, possam verdadeiramente conquistar nada além do que já está demarcado dentro do terreno do capital. Segundo eles, as ideologias utópicas também desapareceram com o advento das novas tecnologias, assim o paradoxo da política transformadora e revolucionária no século XIX e XX, que era o elemento decisivo na realidade para aquela época, nesta “nova era”, a política torna-se cada vez menos importante. Por isso encontramos hoje os repetidos chavões de “para além da direita e esquerda” como meros binômios de uma mesma lógica. A pós-modernidade retrata a decadência da política, como redução do espaço público e físico, como fora do controle da realidade. Nesse patamar de incertezas e crises existenciais, a apolitização constante das esferas populares é reafirmada pela corrente pós-moderna, para aqueles indivíduos que não querem tomar partido, ou seja, num misto eclético de pseudo-autoconsciência, onde têm a “liberdade” de participar se quiser, pois, deixa-se de ser obrigatório.

Para Chatelet, filósofo político fundador do Colégio Internacional de Filosofia, marxista acadêmico que em muito se aproxima aos chamados pós-estruturalistas, afirma na “Filosofia do Século XX, vol 1” que a secularização acaba relativizando a realidade: a teoria não tem valor em si mesma. Assim, não existe a acumulação de conhecimento, entendido bem claramente para os “utópicos”, já que, segundo a nova corrente, as teorias são sempre e historicamente descartáveis, o que existem são apenas probabilidades e hipóteses. São os críticos das teorias gerais, ou como dizem universalizantes, das “recomendações”. A pós-modernidade trouxe então o terrível e mistificador aspecto da não-teoria, da não-aplicabilidade, da não-ação. Em última instância, tudo para ela torna-se impossível de ser mensurado, pois a realidade segundo afirma, contém o sentido da irracionalidade, subjetiva das pessoas, imprevisível. No máximo poderíamos “explicar” os fatos, mas jamais aplica-los. Toda forma de intervenção é um pecado mortal contra a vida. As comunidades políticas tem tradições diferentes e as teorias são inaplicáveis.

Os críticos da “Utopia”

Isaiah Berlin é um historiador político inglês que escreveu “Limite da Utopia” em 1991 onde defende que, ir em direção à utopia, pode-se levar a lugares desconhecidos e perigosos, em contraposição ao conservadorismo técnico, ou seja, a tecnologia levaria à proficiência/progresso. Ele critica todas as revoluções sociais, pois para ele, as utopias sempre propõem uma “realidade desejável” e estabelecem “um fim em si mesmo.” Mesmo diferente de Burke, que era pelo menos a favor da Revolução Estadunidense já que esta buscava um interesse e não todos, Berlin afirma que a utopias conclamam ao sacrifício, às galés que levam nas costas o navio, as utopias milenaristas e messiânicas que levam a toda guerra-sacrifício, tudo em nome dos “valores”, para ele, “classe”, “progresso”, “harmonia”, “coletivismo”, etc.

Anthony Giddens, sociólogo que defende a Terceira Via, ou seja, “nem direita nem esquerda”, chama as revoluções sociais de “eventos”. O modelo apresentado por Giddens de Terceira Via, foi emprestado para o governo neoliberal de Tony Blair a fim de retirar quaisquer resíduos de conservadorismo no Estado britânico, sejam da esquerda quanto da direita. Porém, o mais interessante é que entre aqueles que defendiam que o Estado era o inimigo e outros que o Estado era tudo, esta terceira “simples opção” dava voz ao mercado financeiro, para além da “velha esquerda” e da “arcaica direita”. Esta teoria tem demonstrado que a hegemonia neoliberal traz consigo o mote sarcástico do novo modelo político-econômico, inaugurado com grande esplendor pela corrente pós-moderna.

Informação e Desinformação

Vemos então, um capitalismo cada vez mais amplificado, integrado tecnologicamente, globalizado de escalas macro a micro, inserido radicalmente seu meme perverso dentro das massas consumidoras, altamente regulamentado ou por esferas mundiais como o Banco Mundial e FMI quanto regionais como o Mercosul e União Européia. Em um mundo “fragmentado”, “dissonante de idéias”, “caótico”, vemos que são intimamente alinhados e resguardados pelo guarda-chuva da “nova era”. Pelo contrário, vemos a “transformação social” como um processo de capitalismo avançado, com classes sociais muito bem definidas, onde as estruturas de poder estão sendo geridas pelas elites conglomeradas, mantidas por uma alargada classe média que detém e reproduz os valores da elite burguesa. Esta visão ofuscada da realidade concreta, é carregada de senso e sentido estritamente político, ao contrário do que professam, serem “apolitizados”. Como Lyotard rejeita qualquer “ação política”, toda ação pela transformação radical pode levar a caminhos da opressão, um discurso muito próximo aos generais da elite da guerra.

Devido a este tipo de pensamento pelo absolutismo relativista, que a negação da existência de temas centrais à discussão social, como pobreza, miséria, exclusão, exploração, guerra e dominação passam a tornar-se meras categorias, pequenos relatos e suas buscas pela emancipação, retóricas sociais, meros “eventos”. Esse niilismo disfarçado de teoria nova, onde não há nada real (Baudrillard), não pode e não quer entender a apreensão gnosiológica da realidade material, desde que se tornou flutuante, dispersante e religiosamente cética. De fato, descartar a teoria pós-moderna de todo aspecto filosófico também o seria uma prática fundamentalista. Além de trazer o elemento rebelde da ruptura epistemológica, sempre necessária para o entendimento mais amplo da universalidade humana, também ajudou a definir melhor, justamente por possui o dom da especificidade, determinados conceitos sociológicos, micro-estruturais como as relações de poder (Foucault), por exemplo. Enquanto compromisso político, do contato com a realidade social para a intervenção, é nulo. O emaranhado antropológico da subjetividade acrescentou deveras alcances antes não imagináveis, como nas esferas do gênero, das culturas, das etnias. O erro (ou a intenção) está em atropelar e impor este modelo de pensamento como único, hilariamente contrário à sua premissa sobre a idéia generalizante. O pluralismo vai negar tudo o que não é pós-moderno, e quando o aceita, o deforma. Este pensamento não deixa de ser igualmente conservador, na medida em que rejeita “antigas fórmulas”, mas não pode enxergar novas variantes que não sejam dentro de uma microperspectiva local. Esta rejeição intelectual narcisista e perversa a tudo que é macro, conduz justamente ao perigoso terreno da dominação, quando se observa realmente que o sistema capitalista avança em campos outrora não estabelecidos.

Pensar que o pós-modernismo é tão fragmentário assim como se imagina é semelhante a pensar que somos um planeta e não sociedade, composta de indivíduos interligados mas não associados uns com os outros. A tecnologia digital exemplifica bem isso ao demonstrar que as chamadas “redes sociais” nada mais são do que pessoas interconectadas. O valor superestimado a que se dá às “novas transformações” pelas ferramentas não parecem ir além das fibras óptica da internet. O “universo” dos conglomerados de empresas que lucram bilhões de dólares em clicks por segundo recomendam satisfatoriamente essa desfragmentação rígida da sociedade, em meros personas-bytes individualizadas. As pessoas se condicionam aos meios de produção que lhe são impostos, desde que os modelos de produção estejam reproduzindo-se (“revolucionando-se”) e lucrando. O modelo do “civilizado” contra o “não conectado” é imposto pela indústria, aquela mesma do chão de fábrica tão bofeteada hoje pelos pós-modernos. A velocidade da informação, os megabytes, as novas tendências culturais da moda, o volume e excesso de meios de comunicação alternativos, são o novo avatar da história, mesclados numa filosofia de vida que parece estar sendo apressada ao máximo. “Não tenho tempo para nada”, ou “estou sempre na correria”, é a vida num estalar de um segundo, são modelos projetados de fora para dentro, do comércio e da indústria voraz para as idéias e os valores sociais. Nesse estágio do suprema “velocidade social”, somos engolidos passivamente quando não estreitamos os laços da consciência coletiva, do pensamento da maximização, em meio a uma falsa democratização., ou ela enxergada como um fim em si mesma. Na contemporaneidade, a alienação talvez seja pior do que aquela clássica, em que os indivíduos eram, ao menos, portadores de um sentimento em comum, “meramente” classista. Ao professar pela ausência de classes sociais, lutas de classes, pobreza, esta “nova forma de pensar” o mundo estratifica todo modelo de ação política transformadora/emancipatória, enquadrada fisicamente no status quo.

Corrupção Banda Risco 16
Bem vindo ao governo do progresso e da união.
todo mundo é igual, não há classe social e nem desemprego!
E os governantes só querem o nosso bem,
e nunca quiseram fazer mal a alguém

Mas não sabe o que faz
querem mais e mais
só pensam em destruir
querem nos possuir

Corrupção! 3º mundo! Não há mais o que falar
Corrupção” 3º mundo! Ninguém vai nos a…ninguém vai nos a…ninguém
vai nos ajudar!!!

e o povo é tratado eternamente como lixo social
mas eles nem sabem e ainda acham tudo normal
somos roubados diariamente, sempre enganados
pelas pessoas que dizem serem engajados

e mentiram outra vez
roubaram tudo de vocês
acabaram nossos direitos
eles foram reeleitos

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Sobre pmizraji

Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em junho 25, 2011, em Epistemologia do Anarquismo. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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