Arquivo mensal: junho 2011

A Ilusão Democrática


Sobre a Ilusão Democrática Liberal

O cinismo dos países ocidentais chega ao absurdo quando o discurso proferido refere-se a processos e transições democráticas, salvaguardados pelo tom e pela dádiva do “ensinamento”, patriarcado que cuida dos mais necessitados: os países excluídos do eixo imperialista. É explicitamente visível o grau de prevalescência cultural pela qual chefes de estado utilizam quando se trata de acordar relações políticas e econômicas. Esse grau de pretensa superioridade possui raízes muito antigas, que podem ir desde a conquista da Gália pelo Império Romano. Quando o elemento militar está acima daquele pela qual se esnoba, é culturalmente praticável a política de assunção por liderança ou potência mundial, que tende a atravessar percursos que, na maioria das vezes, são geralmente arbitrários e refutáveis.  A antiga e preconceituosa classificação de 1º, 2º e 3º mundos retrata a representação bizarra do contraste entre a ilusão dos grupos que são privilegiados e daqueles que são subservientes às suas políticas, neste caso, a maioria.

A imagem de “Terceiro Mundo” também está vinculada à idéia das nações não-evoluidas, no sentido progressista do termo, ou “atrasadas socialmente”, em contraposição às industrialmente avançadas. A hegemonia do discurso do sucesso industrial que se acentuou depois da Revolução da Máquina de Vapor, ofereceu uma universalização de conceitos sociais amplos. O imperialismo monopolista e coletivo, leva o estandarte do sistema ideal de sociedade, que negligencia as relações dinâmicas que estão presentes em minorias locais, como etnias, mercados próprios, tradições sociais, etc. Porém, uma das marcas mais significativas desse processo de homogeinização do mercado ativo sobre a identidade dos povos, é a supervalorização étnica, elas sendo brancas, através da midiatização da superioridade científica-tecnológica. Com a fragmentação da União Soviética, esses termos passaram para o senso comum das mentes das massas.

É demasiado penoso não pensar que “1º Mundo” e “2º Mundo” sempre foram uma ilusão. Nos países do Norte industrializados, a imagem de que pela livre iniciativa, todos podem ter acesso à riqueza pela qual o sistema está fundamentado é tão ilusória quanto aquela realidade que parece ser única. É o capital fictício, ou a supervalorização do fetiche. A insustentabilidade da exploração já é gritante há séculos e o entedimento para o futuro do capitalismo está estampado na tragédia humana, em um mundo artificialmente gerado por ilusões. A máscara da democracia liberal, da representatividade, revelada ao líquido, fundamenta-se com a “crise” epistemológica da atualidade. Enquanto a retórica pós-moderna nos ilude com uma abstrata imparcialidade sobre as lentes da realidade concreta, o discurso democrático liberal não transcende nada além da inação do indivíduo. Democracia e pós-modernismo, ambos de mãos atadas. Objetos falíveis de sustentabilidade.

O esfacelamento dos sermões

Toda revolução traz sua surpresa, que consiste na impossibilidade de prever as consequências. No caso dos países árabes, especificamente do norte africano, as grandes potências não puderam prever a ação consciente das massas que derrubaram do poder dois presidentes em menos de dois meses. O discurso do conservadorismo e da omissão atestavam para a permanência dos dirigentes do poder, e no começo do ano, jamais imaginariam um levante que conclamaria pela cabeça da medusa, que com ela obteria seus benefícios. Para os europeus e estadunidenses, Marrocos, Tunísia e o Egito são apenas estações permanentes de veraneio turístico, o balneário da Europa. Não puderam prever que séculos de exploração tirânica acumulados debaixo do tapete do “pacto social”, pudesse um dia acordar o vulcão.

 

Essa soma se fez de dentro para fora, cujos gases e dejetos refletiram o que as massas exploradas de jovens desempregados e trabalhadores de baixíssima renda, estavam submetidas. A tensão gerada fez tremer os solos vizinhos, e as consequências foram inevitáveis. Fome, miséria, falta de empregos, impossibilidade da mobilidade social, ausência de liberdade de expressão, indignação com o sistema político vigente, somaram camadas de matéria que explodiram nas ruas das cidades árabes.

Por que no início do século XXI e não antes, uma pergunta que paira no cenário histórico desses países? É verdade que mesmo na grande maioria do povo encontram-se milhares de pessoas destituídas de instrução, o alto grau de senso político e percepção da realidade foram suficientes para emergir um sentimento coletivo que não pôde ser controlado mais pelo Estado. O alto grau de indignação foi uma bofetada no rosto do sistema de exploração arcaicos.

Numa época em que milhões têm acesso à televisão e à internet, em que as pessoas estão cientes do luxuoso estilo de vida dos ricos, a impossibilidade de escapar de uma pobreza opressiva e do desemprego torna-se crescentemente intolerável. Assim, nos países árabes do continente africano e do Oriente Médio, uma gigantesca onda de revoltas contra o status quo retumbou os pilares da democracia e pôs em cheque a significação dos processos decisórios dos Estados. As manifestações foram tomadas por intelectuais, classe média consumidora e por uma larga gama de desempregados que vivem às margens da miséria, tudo isso unido ao rancor milenar de sistemas de opressão, teocráticos e oligárquicos.

As nações (os países-corporações capitalistas) mais ricas entraram em catarse à impossível tese profética de que nos tempos atuais, populações em massa em espaço algum, teriam como se sublevar. Todos eles (e nós, reprodutores do senso comum) não poderíamos prever e crer que levantes populares de todos os setores da sociedade proclamassem em uníssono um “Chega!” tão forte. Os estadistas não podem deixar que estas “crises” ou “acomodações da democracia” possam usurpar a harmonia mundial. O fato de imaginar não poderem controlar e vigiar os mecanismos que regem as expressões das massas tornou-se o maior pesadelo no início desta década. O Egito hoje? El Baradei, prêmio Nobel da Paz será, segundo fontes egípcias, provavelmente o próximo presidente egípcio. As ações de desobediência civil, são agora aconselhadas a baixarem a poeira, dando lugar ao diálogo, em vez da retomada do poder popular insurgente nas ruas, que com vitória puderam depor do palanque um ditador há 30 anos.

Na Tunísia, na Espanha, Jordânia, Argélia, a mesma estratégia “democrática” para uma saída honrosa dos tiranos para a chegada dos divinos representantes do povo. A grande massa que exigia sem armas a queda das ditaduras, agora dorme nas Praças Tahrir tranquila de que um novo soberano com belos ideais fará crescer a estima de continuar vivendo. Sem armas, sem violência, entorpecidos pela nova democracia, o novo brinquedo. Como rapinas, os partidos e sindicatos rapidamente elegem seus representantes, desvinculados àqueles que levaram tiros à queima roupa, justamente porque protestavam contra a incapacidade de comprar pão. “Voltem para casa, seus lares, sem mais violência”, “em ordem e pacificamente”, “vocês venceram”, dizem de cima.

Enquanto a Al Jazeera retratava uma cena de um cartaz “a Jordânia não é somente para os ricos (…) o pão está fora do nosso alcance (…) tenham cuidado com a nossa fome e a nossa fúria”, muitas greves paralisaram quase que inteiramente o Egito que não foram publicizadas pela grande mídia. Qual é a atual perspectiva para uma nova transformação radical nos países árabes? Esta pergunta primeiro serve para nortear as divisas históricas e contextuais daqueles países, diferentemente de outros continentes. Em medida, os “avanços” contra a teocracia e as ditaduras militares são grandes ganhos de uma longínqua estrada rumo ao mundo da “sociedade ideal”, porém esta visão ainda é carregada de parcialidade ocidental. Críticos analisam que os mesmos mecanismos sociais não funcionam e não são análogos com os do Ocidente, por isso, não poderia se projetar em escala futura, prognósticos sobre estruturas políticas ideais, ou quais seriam os caminhos percorridos até chegarem a elas.

A esquerda em geral nos países árabes demonstra e tem demonstrado estar amplamente desarticulada, fato que a maioria dos levantes não foram organizados pelos setores partidários. As massas tiveram em suas mãos, por instantes, vislumbres breves de sua força e capacidade real. E agora, o que fazer e para onde ir? Cada trabalhador tende a voltar para a sua casa com a mente satisfeita de ter sido parte de uma revolução histórica para seu povo, realizado por meios justos. Cada um com seus sonhos. Mas e a realidade pós-“revolução”? A democracia foi instaurada, substituída, confiada. O grande capital agora está livre para encher as ruas de consumidores novos e vorazes, o Estado novo garantirá os dividendos com os menos favorecidos, num simulacro de bem-estar social e crescimento econômico.

A Cartilha Revolucionária da Tunísia

Esta cartilha foi divulgada nas semanas seguintes à apresentação das prováveis candidaturas de cargos presidenciáveis para o país, tendo como principal imagem, Ben-Ali. Note-se o teor altamente revolucionário do panfleto e a identificação com a autogestão dos trabalhadores tunisianos:

“O povo da Tunísia não é formado por tolos ou crianças de colo que se deixam adormecer com palavras hipócritas. Não deve desmobilizar-se e sim, pelo contrário, tem que intensificar a mobilização e dar-lhe uma expressão organizada e generalizada. Não deve dar nenhum fôlego aos restos do antigo regime. Não deve permitir que estes bandidos reorganizem uma nova versão “democrática” do velho regime. O tempo das palavras já passou há muito. Não mais intrigas! Abaixo o Governo! Fim imediato do estado de emergência! Plena liberdade de reunião, organização e de expressão! Por uma Assembleia Constituinte Revolucionária! Pela dissolução imediata de todos os órgãos repressivos e julgamento popular dos assassinos e torturadores!
Para conquistar essas reivindicações, deve-se organizar uma greve geral a nível nacional. A classe operária é a única força que tem o peso necessário para derrubar o antigo regime e reconstruir a sociedade de cima a baixo. O proletariado deve colocar-se à cabeça da sociedade. Essa é a única saída possível. A convocatória de uma greve geral já encontrou eco nas agrupações locais da UGTT. Segundo alguns informes, já ocorreram várias greves gerais em algumas regiões na semana passada (Kasserine, Sfax, Gabes, Kairouan e Jendouba). Visando preparar uma jornada de greve geral, devem ser formados Comités de Greve em todos os níveis: local, regional e nacional. A própria vida nos ensina que a única forma de obter a liberdade e a justiça é através da acção directa das massas. Na Tunísia, a questão do poder coloca-se abertamente. É necessário organizar e mobilizar todo o povo para propiciar o derrube decisivo do antigo regime. Também há informes de que estão a estabelecer-se Comités de Autodefesa nos bairros. Os trabalhadores devem confraternizar com os soldados que estão do seu lado. Deve-se fazer um apelo às fileiras do exército para que se formem comités de soldados vinculados ao povo. Os operários e camponeses devem conseguir armas para sua própria defesa e estabelecer uma milícia popular em cada fábrica, bairro e povoado, para manter a ordem e se defender dos bandidos e contra-revolucionários. Isso é crucial para o êxito da revolução.”

Talvez semelhante ao processo revolucionário em 1917 na Rússia, onde as camadas mais pobres da população exigiram a saída do poder dos czares, e posteriormente “direcionada” pelos bolcheviques – diferentemente, no caso da Espanha em 1936 -, a “revolução” árabe tenha sido tão supervalorizada. O pensamento crítico das massas precisaria estar em contínuos avanços, junto com o papel dos movimentos sociais reinvidando constantemente sua força social.

Historicamente, a trajetória do socialismo libertário e do comunismo estatal nos países árabes não foram excepcionalmente vinculados a vitórias. A própria noção de fundamentalismo islâmico anti-imperialista, deve-se tomar precaução em mesclar identidades antagonicamente díspares entre si. O marco desse abismo ideológico coube muito bem a tarefa do stalinismo em todos esses países. Somente depois dos acontecimentos de 2011, é que podemos prever ou entender o quão significativo foram estas desenraizamentos profundos no imaginário popular, que marcará futuras gerações. E que essas gerações possam usufruir de indivíduos e grupos cada vez mais atuantes no cenário árabe, relativizando o conhecimento das experiências de autogestão e críticas ao capitalismo globalizado.

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DA PÓS-MODERNIDADE AOS PÓS-RANCOROSOS


Este primeiro artigo de uma série de cinco, tem por objetivo elucidar de forma clara e sucinta as raízes epistemológicas que permeiam toda uma rede de idéias e pensamentos e, ao mesmo tempo que é fragmentada/dissonante, assim como integrada/convergente, aponta para uma grande mescla de práticas e teorias no pensamento contemporâneo cujo teor principal é a formatação para a existência da Sociedade da Informação.

Genealogia da Pós-Modernidade

Basicamente, a pós-modernidade traz em sua vaidosa bandeira, a idéia de que é impossível haver uma plataforma de realidade concreta, ou seja, um consenso sobre o que seja realidade/verdade, geralmente disperso numa gama complexa de redes de significados, aspectos subjetivos culturais e sociais, macro-e-micro, além da renegação tradicional a toda espécie de enfoque radical às temáticas sociais. É a crítica à modernidade, por mais que em determinados aspectos esta mesma separação ainda seja ambígua. Estando o consenso refutado, é interessante notar que as análises, geralmente convergem-se para o mesmo trajeto da relativização extrema no que concerne à tática de expugnação de qualquer verdade aparente que lhe seja contraditório, os pensadores pós-modernos se alinham teoricamente para denunciar o quão retrógados e obsoletos são os fundamentos das linhas de pensamento políticos. A estes tendem a intitular messiânicos, ou seja, portadores da utopia (milenaristas) da transformação social, enquanto que estes chamam a si mesmos de os “realistas”, “céticos”, etc. São eles, Zygmund Bauman e sua modernidade líquida, Lipovetsky e a fragmentação do tempo e do espaço, Baudrillard como profeta do apocalipse, Bruno Latour como não-moderno, Lyotard, o filósofo da pós-modernidade e da morte das metanarrativas, Morin e sua complexidade atômica, entre tantos outros, tentam “enxergar o mundo sem lentes”, de forma a apreender as “múltiplas realidades” da incerteza do mundo, que segundo as suas teorias, é multifacetado, dinâmico e caótico.

Nesse emaranhado de teorias, muitas delas contraditórias entre si, numa crítica severa ao positivismo e determinismo marxista do início do século XX, emprega-se as designações para conceituar os novos paradigmas, ou o rompimento com o antigo, daí a “crise epistemológica” que vai alavancar-se como corrente filosófica-política em contraposição às idéias “messiânicas”. Apesar de a maioria dos autores advogarem sobre a gênese pós-moderna – a corrente weberiana, por exemplo, irá defender a raiz no pensamento nietzscheniano como crítica à filosofia -, até mesmo certas teorias da conspiração, como aquela que defende que em meio ao processo da Guerra Fria, a CIA orquestrava/patrocinava pensadores da época em contrapor o pensamento da esquerda no mundo bipolarizado, com medo de uma ameaça nuclear em grande escala. Neste contexto de rompimento com a chamada sociedade industrial, na década de 70 mais precisamente, surge o conceito de Sociedade da Informação, como classificação hegemônica para identificar (ou a necessidade de identificar) uma nova fase no desenvolvimento das relações sociais. Antes dada pela revolução dos meios tecnológicos como o rádio, o telefone e a televisão como resultado de um rápido e emergente processo de transformação da informação social, ainda aliado ao crescente número dos êxodos rurais, modificando radicalmente a geodinâmica social de todos os países.

A Sociedade da Informação

Hoje, chamamos o segundo momento de Revolução Web 2.0, onde o computador detém a fundamental centralidade em todos os aspectos econômicos, sociais, culturais e políticos em relação à sua facilitação à comunicação e instrumento de linguagem propagandística de massas. Para os revolucionários da cultura digital, todo esse avanço de um monstro que vinha se configurando pela ciência e tecnologia, logo após o pós-guerra, sistematizou igualmente o mundo do trabalho, tornando o espectro do sistema capitalista vestido em um novo uniforme. Esta é a concepção histórica do mundo político após a Segunda Guerra Mundial, com o advento da era da técnica, da informação, o advento da internet, a nanotecnologia, uma sociedade digital. O homem passou a criar sua própria armadilha, num sentido mais amplo, quando não acompanha mais a técnica ou não a domina, ele passa a sofrer a dominação. Na verdade, os meios de dominação sempre existiram, desde os primórdios da técnica, o que se alteram e evoluem são reinvenções tecnológicas.

O que o pós-modernismo faz é desvincular a técnica da política. Ou seja, os arautos da nova corrente definem política como unicamente aquela ligada ao parlamentarismo, por isso argumentam que o tempo da política é demasiado curto para resolver os problemas sociais (quando se acredita que existem, de fato). O interessante é que pensadores, teóricos políticos como Nozik e Berlin, por exemplo, não acreditam que o papel transformador das ONG’s, enquanto articuladoras entre o Estado e a sociedade civil, possam verdadeiramente conquistar nada além do que já está demarcado dentro do terreno do capital. Segundo eles, as ideologias utópicas também desapareceram com o advento das novas tecnologias, assim o paradoxo da política transformadora e revolucionária no século XIX e XX, que era o elemento decisivo na realidade para aquela época, nesta “nova era”, a política torna-se cada vez menos importante. Por isso encontramos hoje os repetidos chavões de “para além da direita e esquerda” como meros binômios de uma mesma lógica. A pós-modernidade retrata a decadência da política, como redução do espaço público e físico, como fora do controle da realidade. Nesse patamar de incertezas e crises existenciais, a apolitização constante das esferas populares é reafirmada pela corrente pós-moderna, para aqueles indivíduos que não querem tomar partido, ou seja, num misto eclético de pseudo-autoconsciência, onde têm a “liberdade” de participar se quiser, pois, deixa-se de ser obrigatório.

Para Chatelet, filósofo político fundador do Colégio Internacional de Filosofia, marxista acadêmico que em muito se aproxima aos chamados pós-estruturalistas, afirma na “Filosofia do Século XX, vol 1” que a secularização acaba relativizando a realidade: a teoria não tem valor em si mesma. Assim, não existe a acumulação de conhecimento, entendido bem claramente para os “utópicos”, já que, segundo a nova corrente, as teorias são sempre e historicamente descartáveis, o que existem são apenas probabilidades e hipóteses. São os críticos das teorias gerais, ou como dizem universalizantes, das “recomendações”. A pós-modernidade trouxe então o terrível e mistificador aspecto da não-teoria, da não-aplicabilidade, da não-ação. Em última instância, tudo para ela torna-se impossível de ser mensurado, pois a realidade segundo afirma, contém o sentido da irracionalidade, subjetiva das pessoas, imprevisível. No máximo poderíamos “explicar” os fatos, mas jamais aplica-los. Toda forma de intervenção é um pecado mortal contra a vida. As comunidades políticas tem tradições diferentes e as teorias são inaplicáveis.

Os críticos da “Utopia”

Isaiah Berlin é um historiador político inglês que escreveu “Limite da Utopia” em 1991 onde defende que, ir em direção à utopia, pode-se levar a lugares desconhecidos e perigosos, em contraposição ao conservadorismo técnico, ou seja, a tecnologia levaria à proficiência/progresso. Ele critica todas as revoluções sociais, pois para ele, as utopias sempre propõem uma “realidade desejável” e estabelecem “um fim em si mesmo.” Mesmo diferente de Burke, que era pelo menos a favor da Revolução Estadunidense já que esta buscava um interesse e não todos, Berlin afirma que a utopias conclamam ao sacrifício, às galés que levam nas costas o navio, as utopias milenaristas e messiânicas que levam a toda guerra-sacrifício, tudo em nome dos “valores”, para ele, “classe”, “progresso”, “harmonia”, “coletivismo”, etc.

Anthony Giddens, sociólogo que defende a Terceira Via, ou seja, “nem direita nem esquerda”, chama as revoluções sociais de “eventos”. O modelo apresentado por Giddens de Terceira Via, foi emprestado para o governo neoliberal de Tony Blair a fim de retirar quaisquer resíduos de conservadorismo no Estado britânico, sejam da esquerda quanto da direita. Porém, o mais interessante é que entre aqueles que defendiam que o Estado era o inimigo e outros que o Estado era tudo, esta terceira “simples opção” dava voz ao mercado financeiro, para além da “velha esquerda” e da “arcaica direita”. Esta teoria tem demonstrado que a hegemonia neoliberal traz consigo o mote sarcástico do novo modelo político-econômico, inaugurado com grande esplendor pela corrente pós-moderna.

Informação e Desinformação

Vemos então, um capitalismo cada vez mais amplificado, integrado tecnologicamente, globalizado de escalas macro a micro, inserido radicalmente seu meme perverso dentro das massas consumidoras, altamente regulamentado ou por esferas mundiais como o Banco Mundial e FMI quanto regionais como o Mercosul e União Européia. Em um mundo “fragmentado”, “dissonante de idéias”, “caótico”, vemos que são intimamente alinhados e resguardados pelo guarda-chuva da “nova era”. Pelo contrário, vemos a “transformação social” como um processo de capitalismo avançado, com classes sociais muito bem definidas, onde as estruturas de poder estão sendo geridas pelas elites conglomeradas, mantidas por uma alargada classe média que detém e reproduz os valores da elite burguesa. Esta visão ofuscada da realidade concreta, é carregada de senso e sentido estritamente político, ao contrário do que professam, serem “apolitizados”. Como Lyotard rejeita qualquer “ação política”, toda ação pela transformação radical pode levar a caminhos da opressão, um discurso muito próximo aos generais da elite da guerra.

Devido a este tipo de pensamento pelo absolutismo relativista, que a negação da existência de temas centrais à discussão social, como pobreza, miséria, exclusão, exploração, guerra e dominação passam a tornar-se meras categorias, pequenos relatos e suas buscas pela emancipação, retóricas sociais, meros “eventos”. Esse niilismo disfarçado de teoria nova, onde não há nada real (Baudrillard), não pode e não quer entender a apreensão gnosiológica da realidade material, desde que se tornou flutuante, dispersante e religiosamente cética. De fato, descartar a teoria pós-moderna de todo aspecto filosófico também o seria uma prática fundamentalista. Além de trazer o elemento rebelde da ruptura epistemológica, sempre necessária para o entendimento mais amplo da universalidade humana, também ajudou a definir melhor, justamente por possui o dom da especificidade, determinados conceitos sociológicos, micro-estruturais como as relações de poder (Foucault), por exemplo. Enquanto compromisso político, do contato com a realidade social para a intervenção, é nulo. O emaranhado antropológico da subjetividade acrescentou deveras alcances antes não imagináveis, como nas esferas do gênero, das culturas, das etnias. O erro (ou a intenção) está em atropelar e impor este modelo de pensamento como único, hilariamente contrário à sua premissa sobre a idéia generalizante. O pluralismo vai negar tudo o que não é pós-moderno, e quando o aceita, o deforma. Este pensamento não deixa de ser igualmente conservador, na medida em que rejeita “antigas fórmulas”, mas não pode enxergar novas variantes que não sejam dentro de uma microperspectiva local. Esta rejeição intelectual narcisista e perversa a tudo que é macro, conduz justamente ao perigoso terreno da dominação, quando se observa realmente que o sistema capitalista avança em campos outrora não estabelecidos.

Pensar que o pós-modernismo é tão fragmentário assim como se imagina é semelhante a pensar que somos um planeta e não sociedade, composta de indivíduos interligados mas não associados uns com os outros. A tecnologia digital exemplifica bem isso ao demonstrar que as chamadas “redes sociais” nada mais são do que pessoas interconectadas. O valor superestimado a que se dá às “novas transformações” pelas ferramentas não parecem ir além das fibras óptica da internet. O “universo” dos conglomerados de empresas que lucram bilhões de dólares em clicks por segundo recomendam satisfatoriamente essa desfragmentação rígida da sociedade, em meros personas-bytes individualizadas. As pessoas se condicionam aos meios de produção que lhe são impostos, desde que os modelos de produção estejam reproduzindo-se (“revolucionando-se”) e lucrando. O modelo do “civilizado” contra o “não conectado” é imposto pela indústria, aquela mesma do chão de fábrica tão bofeteada hoje pelos pós-modernos. A velocidade da informação, os megabytes, as novas tendências culturais da moda, o volume e excesso de meios de comunicação alternativos, são o novo avatar da história, mesclados numa filosofia de vida que parece estar sendo apressada ao máximo. “Não tenho tempo para nada”, ou “estou sempre na correria”, é a vida num estalar de um segundo, são modelos projetados de fora para dentro, do comércio e da indústria voraz para as idéias e os valores sociais. Nesse estágio do suprema “velocidade social”, somos engolidos passivamente quando não estreitamos os laços da consciência coletiva, do pensamento da maximização, em meio a uma falsa democratização., ou ela enxergada como um fim em si mesma. Na contemporaneidade, a alienação talvez seja pior do que aquela clássica, em que os indivíduos eram, ao menos, portadores de um sentimento em comum, “meramente” classista. Ao professar pela ausência de classes sociais, lutas de classes, pobreza, esta “nova forma de pensar” o mundo estratifica todo modelo de ação política transformadora/emancipatória, enquadrada fisicamente no status quo.

Corrupção Banda Risco 16
Bem vindo ao governo do progresso e da união.
todo mundo é igual, não há classe social e nem desemprego!
E os governantes só querem o nosso bem,
e nunca quiseram fazer mal a alguém

Mas não sabe o que faz
querem mais e mais
só pensam em destruir
querem nos possuir

Corrupção! 3º mundo! Não há mais o que falar
Corrupção” 3º mundo! Ninguém vai nos a…ninguém vai nos a…ninguém
vai nos ajudar!!!

e o povo é tratado eternamente como lixo social
mas eles nem sabem e ainda acham tudo normal
somos roubados diariamente, sempre enganados
pelas pessoas que dizem serem engajados

e mentiram outra vez
roubaram tudo de vocês
acabaram nossos direitos
eles foram reeleitos

Milonga Urbana: resignificação ou autenticidade?


Por Pablo Mizraji

O objetivo deste artigo é trazer à tona a conceitualização do estilo musical que é a milonga, saindo de uma abordagem musicológica para uma perspectiva sociológica do termo. Busco nesse pré-estudo tentar observar e analisar a importância de se reconhecer ou não, a contribuição da musicalidade rioplatense (compreendidos Argentina e Uruguai) para sua regionalidade, outrora em casos não excepcionais, abrir espaço para localidades onde este gênero ainda não alcançou registros.

Primeiramente deve-se considerar o aspecto da intervenção social da música nos contextos sócioculturais de uma determinada região. Ou seja, música enquanto conceito etimológico, aparece na mitologia quando refere-se às inspirações artísticas proporcionados pelas musas gregas, numa relação inter-social do som com o ser humano, que neste sentido sociológico, se encarrega de potencializar determinados aspectos culturais de algum grupo/etnia social e fortalecer a inclusão coletiva do espaço social. Segundo Theodor Adorno, “entre todas as artes, a música foi sempre a que possuiu maior força de aglutinação social, por uma parte, devido ao fato do exercício da arte exigir, de um modo geral, mais pessoas concordantes na intenção e no sentimento, o que favorece a constituição de comunidades (…) “. O meio social também pode ser facilitador na predisposição musical ao determinar os pensamentos, as identidades e principalmente as ações humanas. Sendo a música um meio de expressão que, por vezes, reflete o que e como a sociedade se representa, gera coletividades culturais em torno dos temas e estilos diversos. Como um identificador social, ela extrapola os limites da simples teoria musical para uma abrangência complexa no estudo das sociedades.

Para iniciar o objetivo deste artigo, gostaria de apresentar o significado comum-popular de milonga, concebida primeiramente sob uma conceituação consensual. A palavra milonga é de origem africana banto que pode significar entre “confusão” e  “desordem” a “queixa”, “lamento” ou “demanda”, muito próximo ao significado etimológico do blues estadunidense. Devido às origens genealógicas serem desconhecidas, é sabido que além da significação linguística, teve influência dos escravos bantos trazidos do Congo, mesclados às tradições colonizadoras européias. Curiosamente, o termo já era conhecido pelos portugueses quando realizavam suas rotas comerciais e, especialmente o tráfico negreiro. Os congoleses tinham por costume, elaborar uma série de improvisos poéticos narrativos que continham uma espécie de “contenda” ou, como no caso típico do folclore nordentino, um “repente”. Essa prática discursiva também foi intencionada pela resistência à escravidão. Fernão de Souza, português governador de Angola (1624-1630) ainda no tempo da famosa Rainha Ginga, cita diversos exemplos das práticas discursivas chamadas de milongas.  Explica que “mulonga (pl. milonga), em kimbundu, é ‘palavra’ (boa ou má), ‘disputa’. No texto do governador, milonga aparece amiúde como um (quase) sinônimo de ‘recado’. Às vezes, porém, este conceito remete para um uso mais específico da fala. É graças às suas milongas, segundo Fernão de Sousa, que Njinga-Nzinga consegue que populações inteiras fujam para o território controlado por ela:

[Njinga-Nzinga] foi contemporizando comigo com recados que me mandava, e da volta persuadiam seus macunzes nista cidade e polos souas por onde passavam nossos escravos e gente de guerra preta, a que chamam quimbares, que se fossem para ela, e que lhe daria terras em que lavrassem e vivessem, porque melhor lhes era serem senhores no seu natural que cativos nossos; e de maneira os obrigou com estes recados, a que eles chamam milongas, que começaram fugir senzalas [povoados] inteiras (Sousa 1985: 227).

No relatório de Fernão de Sousa, milonga parece designar um discurso de persuasão baseado em promessas ou ameaças (…) Os africanos não eram os únicos que sabiam empregá-lo. Como se vê no trecho reproduzido a seguir, os portugueses, também, o praticavam com sucesso:
‘A milonga é, portanto, um discurso pelo meio do qual se procura persuadir o interlocutor de fazer ou de dar o que, em princípio, ele não está disposto a fazer ou a dar. No ‘jornal’ de Fernão de Sousa, a prática da milonga se combina amiúde com recursos gestuais ou teatrais. Tanto os africanos quanto os portugueses sabiam utilizar a gestualidade para fins de persuasão.”

Em meados dos anos 3o na região do Prata – compreendidas as capitais Buenos Aires e Montevidéu -, surge uma nova forma variante da milonga clássica, conhecida como milonga ciudadana, referindo-se à contextualização típica no fluxo migratório dos trabalhadores do campo para a cidade, nos períodos da industrialização tardia. Em 1860, a Argentina começa a receber imigrantes vindos do continente europeu, sendo que nove entre dez imigrantes, ocupam a Pampa, atraídos por melhores condições de vida. Na entrada do século XX, o país vive o cenário de uma sociedade de camponeses que inicia um processo de migração para a capital federal, tendo seu auge na década de 30, com uma margem de 70% da população.  É nesta ambiência, que nasce a milonga urbana, originária daquela anterior, mas agora reintitulada campeira. Estas transformações sociais também acontecem simultaneamente no Uruguai, onde na mesma década, se introduz uma industrialização acelerada alterando radicalmente a estrutura no campo a organização social das cidades, talvez neste país especificamente, uma mudança mais radical do que na Argentina.

Ao longo do tempo foram-se misturando às milongas, urbanas e campeiras, diversos ritmos tradicionais da região, como a chamarrita, o choro, o candombe, zamba, chacarera e a habanera, também descendentes diretos dos negros e dos europeus, gerando diversas ramificações. Segundo Alfredo Zitarrosa, compositor uruguaio, “la milonga es el género folclórico vivo por excelencia en mi tierra (…) se trata de un rítmo que recibe influencias afro y por cierto, proviene también como una buena parte del folclore nuestro, del folclore del sur de España, el folclore andaluz. Pero comprende una vasta zona del cono sur, la pampa argentina y las praderas onduladas de la banda oriental (Uruguay).” Alfredo Zitarrosa, entrevista radial, Madrid 1976.

Enquanto a milonga campeira atribuía-se aos costumes e tradições do homem do campo e suas relações com o meio rural, trabalho, doma, virtudes e anseios, a milonga urbana caracterizava-se pelo aspecto sentimental ou de “recuerdo” do campo, mas muitas vezes, de forma crítica, denunciando politicamente as mazelas sociais, ligando assim, ambas num só quadro de matizes comuns que invocam a angústia, a dor, a tristeza, a nostalgia e a vontade de luta. As payadas, tradicionais formas de improviso, são mais fortes na milonga campeira, o que de encontro, a milonga urbana retrata uma musicalidade indiretamente mais complexa. A milonga campeira é fruto dos gauchos da pampa, tocadas em recintos quase fechados, como em boliches (tabernas, nos países do Sul) e em estâncias do campo, cultivadas pelos payadores. Ambos gêneros populares, um pelo “homem do campo” e outro pelo “trabalhador operário”, representam a polaridade classista no recorte do capitalismo moderno. Mesmo havendo essas ramificações musicais, que a todo instante são reatualizadas e renovadas, ocupam o lugar dos dialetos musicais. Novas linguagens musicais e poéticas são constantemente acrescidas ao gênero. Sebastian Piana, compositor argentino, conferiu à milonga um estilo heterodoxo, mesclando a musicalidade campeira com a temática urbana. Ele compôs junto com José González Castillo uma canção que marca a fundação musical da milonga urbana. José Castillo era dramaturgo anarquista que divulgava seus ideais libertários através da música e do teatro, comuns no início do século XX. Assim, “Milonga sentimental” oficialmente demarca um processo em que as milongas se tornam cada vez mais interiorizadas no aspecto das novas mudanças sociais.  No Brasil, outras formas de milongas foram adaptadas aos dois modelos originários, como por exemplo, a milonga batida, milonga riograndense, milongão, entre outros subgêneros, na maioria provenientes dos subúrbios de Buenos Aires e Montevidéu.

Piana em “Milonga del 900” passa a construir uma nova concepção musical quando cunha definitivamente o termo “urbano” em seu repertório temático, porém, sem deixar de lado a musicalidade campeira. Outras denominações do mesmo estilo são as modalidades campestre, rural e cidadã, ou payadora, dominguera e nocturna, sendo acrescida finalmente uma quarta, a milonga-candombe ou morena, formada pelas autênticas raízes afro-uruguaias. Outra referência muito possível ao historizar a milonga não como gênero musical, mas como aporte cultural é o ato de comunhão. Tanto no Congo-Angola como nos arroios das Pampas, o fato de existir uma roda musical, com tambores e cantos, acompanhadas pelas comidas comunais, demonstra o simbólico ato de integração do ethos. Assim poderíamos exemplificar inúmeras festas com o mesmo sentido, como o Jongo, o Samba de Roda, a Ciranda, o Carimbó, Mazurka, Maracatu, Torés, Xirês, Tsiftetéli, Gitanas, Dervishes, Sat Sangas, etc.

Dito antes, a convergência da milonga urbana/campeira se faz completa quando uma integra a outra, ambas em contextos socioculturais distintos, porém com o mesmo denominador comum: o artista (payador) popular e o trabalhador (camponês/fabril). Considerando válido o pensamento de que a historiografia musical da milonga rioplatense se processou a partir dos acontecimentos sociais e estruturais, cujas camadas populares reciprocamente fomentaram diferentes matizes de expressões artísticas, é correto afirmar que ambas, além de serem autênticas porta-vozes das vivências culturais, são lados opostos da mesma moeda, e que mutuamente se completam. Seria injurioso afirmar uma prevalescência de uma sobre a outra, ou como corriqueiramente ouvimos, “a mais tradicional”, “milonga verdadeira”, “raiz nativa”, “autêntica”, e vice-versa, “moderna em relação àquela ultrapassada”, “adequada aos novos tempos”, etc. Do mesmo modo que a milonga campeira contempla uma vida e costumes dedicados quase que integralmente ao campo, às batalhas dentro de uma natureza muitas vezes rude e severa, a milonga urbana exatamente pode trazer imagens e impressões do conjunto de relações conflituosas que habitam o espaço da cidade, as lutas sociais, as circunstâncias materiais, a subjetividade do eu, ou a práxis existencialista das condições humanas, na maioria das vezes encaixotadas num sistema social igualmente rude e perverso. O “papel social” da milonga cumpre, de fato, esse sentir todo, a busca pela saída e o enfrentamento com a causalidade. Mas também é verdadeiro o ponto de vista cultural, desfocado ou desconfigurado da realidade social, como é o caso típico de construções identitárias artificiais. No caso da milonga campeira e todo o cenário imagético que traz consigo (costumes, tradição, valores), quando encenados num Centro de Tradições Gaúchas (CTG) ou mesmo nas Domas rioplatenses, sabemos que a realidade do campo retratada desta forma também é uma reinvenção de tradições memoriais. Ou seja, mesmo a cultura gaúcha, tradicionalmente vinculada à territorialidade, sofre uma emergência da reinvenção cultural, ou uma reconstituição do modo de vida que era do campo. No entanto, a identidade metropolitana vive, desde a migração de pessoas vindas do interior para a cidade, um fluxo contínuo de freqüentes mudanças. Tal como a arte incorpora os elementos vivos da realidade em eterna transformação, ela também se modifica.

Deste modo, os objetivos que trouxeram teor para esta análise, passa por indagar em qual circunstância e em que medida os musicistas ou apenas os ouvintes de milonga se aproximam, em quais universos – campo e/ou cidade -, e, se realmente há, em última análise, alguma divisão de fato, sendo a milonga, um gênero acima de qualquer ramificação, sendo ela mesma a base de todas as derivações conceituais. Também poderíamos realizar este estudo baseado nos elementos socioculturais, com relevância para as diferenças climáticas e estéticas que, de certa forma, inspiram a musicalidade sulista.  A milonga seria então, além de um mero estilo instrumental, um espelho das múltiplas realidades do Pampa? Uma sociedade fragmentada como um mosaico cultural onde suas origens perdem-se na diversidade de etnias, complexas estruturas sociais produtivas? Geograficamente, características universais como valores sociais seriam também linguísticos? As pessoas que “escolhem” a milonga campeira ou urbana, se aproximam verdadeiramente destas dicotomias, ou estão simplesmente atrás de melodias que falam de suas vidas, mesmo que alheias a determinadas regiões? Estas questões dificilmente serão correspondidas, porém seria absolutamente necessário uma caracterização de relevância que se fizesse em torno da chamada ortodoxia. Para terminar, Alfredo Zitarrosa, um dos maiores anunciadores da milonga rioplatense, escrevia assim:

“No te olvidés del pago
si te vas pa’ la ciudad
cuanti más lejos te vayas
más te tenés que acordar

cierto que hay muchas cosas
que se pueden olvidar
pero algunas son olvidos
y otras son cosas nomás

no eches en la maleta
lo que no vayas a usar
son más largos los caminos
pa’l que va cargao de más

aura que sos mocito
y ya pitás como el que más
no cambiés nunca de trillo
aunque no tengas pa’ fumar

y si sentís triteza
cuando mires para atrás
no te olvides que el camino
es pa’l que viene y pa’l que va”

Bibliografia:

ADORNO, HORKHEIMER, Theodor W./Max. Temas básicos da sociologia. Editora Cultrix. 1978

LIENHARD, Martin, O mar e o mato, Luanda, Kilombelombe, 2005. As Milongas da Rainha Njinga. O “diálogo” entre portugueses e africanos nas guerras do Congo e de Angola (séculos XVI-XVII). Retóricas africanas: milonga
CHATELAIN, Héli: Kimbundu grammar.
Gramática elementar do kimbundu ou língua de Angola
(Genebra: Schuchhard, 1888-1889).
GLASGOW, Roy Arthur: Nzinga. Resistência Africana à investida
do colonialismo português em Angola, 1582-1666
(São Paulo: Perspectiva, 1982).
ASSIS JUNIOR, António de: Dicionário de Kimbundu-Português
(Luanda: Argente Santos & C.a, 1947).

QUINTÍN QUINTANA. Las raíces de la milonga
http://latitudbarrilete.blogspot.com/2007/02/las-races-de-la-milonga_04.html

Nota de falecimento


Estamos de luto, mas na luta.

Faleceu no dia de hoje VICENTE FRANCISCO DO ESPÍRITO SANTO, militante negro, ativista da luta anti-racista e contra intolerância religiosa. Membro honorário do NEN e atual Secretário Executivo Na década de 1990, Vicente foi protagonista de uma vitória inédita no Supremos Tribunal Federal, quando depois de longos e difíceis anos recebeu parecer favorável a sua reintegração no trabalho por ter sido demitido da ELETROSUL por racismo. Vicente não se conformou com isso, manteve-se na luta aguerrida contra o racismo e neste mês de maio de 2011, recebeu parecer favorável no julgamento de ação por danos morais, onde está previsto uma indenização e uma carta de retratação da empresa. Seu corpo está sendo velado no Capela Mortuária F do Cemitério do Itacorubi em Florianópolis e seu enterro será amanhã às 10 horas.

Coordenação Executiva do NEN – Núcleo de Estudos Negros – http://www.nen.org.br

Rua: Moçambique, 897 – Bairro Rio Vermelho

CEP.: 88.060-415 – Florianópolis/SC Fone:(48) 96178644

Chamada para autores Dossiê Comunas, Conselhos, Autogestão e Autonomia: memória histórica e análise sociológica.


O Comitê Editorial da Revista Eletrônica EM DEBATE, do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC-BRASIL), torna público que no período de 30 de maio a 1º de julho de 2011 receberá artigos científicos para publicação em seu número 6, referente ao segundo semestre de 2011.

Este dossiê tem por objetivo reunir artigos de autores que pesquisem as formas de organização que os trabalhadores instituem a partir de seus movimentos antisistêmicos sob os mais variados aspectos, em diferentes sociedades e contextos. Serão admitidos trabalhos de diferentes orientações teórico-metodológicas. Em especial pretende-se acolher estudos que, sob parâmetros sociais, ideológicos, institucionais e econômicos, analisem experiências de auto-organização em confronto com regimes políticos estabelecidos – tanto no capitalismo moderno e contemporâneo, quanto em sociedades pré-capitalistas – em seus impactos para a processualidade de movimentos de contestação em prospectiva.

Além do dossiê, a revista aceita, em fluxo contínuo, trabalhos relacionados às suas 10 áreas temáticas nas modalidades “artigos”, “resenhas”, “traduções” e “entrevistas”.
Serão aceitos apenas trabalhos inéditos, em língua portuguesa ou espanhola.

Mais detalhes acerca do processo de submissão e linha editorial podem ser obtidos na página da revista: http://periodicos.incubadora.ufsc.br/index.php/emdebate/index,
ou pelo correio eletrônico: pmizraji@gmail.com

Os Editores.