tropa de elite e o “estado de direita”

A partir de então, o discurso assumido pelos intelectuais de direita, pelos
políticos e por grande parte da classe média alinhada com o projeto das elites se pautou pelo discurso da guerra urbana, discurso que se consolidou com o lançamento do primeiro filme Tropa de Elite que, curiosamente, fora lançado poucos meses depois da chacina do Alemão. Coincidência ou não, deu carta branca ao BOPE e à polícia do estado para exceder as regras mais básicas do Estado de Direito, que paulatinamente revelava sem máscaras seu real conteúdo: um Estado de “Direita”.
O argumento da mídia e do governo passou a assumir contornos de “Capitão
Nascimento”: a perda de inocentes na guerra contra o tráfico fazia parte, por esta lógica, das “baixas” necessárias à eliminação do poder do tráfico no Rio de Janeiro, localizando o tráfico apenas nas regiões pobres e periféricas, ignorando sua complexidade e extensão internacional. Esqueceram também de avisar que estes inocentes mortos eram (e são) sempre trabalhadores negros e favelados. O discurso “Tropa de Elite” (remodelado cinematograficamente em sua segunda edição – ainda, mas menos explicitamente fascista) ganhou as bocas de grandes setores da classe média e preparou o terreno para ações ainda mais espetaculares para controlar as “classes perigosas”.


Com a escolha do Rio de Janeiro como Cidade-Olímpica e uma das sedes da
Copa do Mundo, e com um nível de popularidade que transbordava a marca dos 80%, o governo federal lulista fornecia “gordura” para seus aliados queimarem. Os níveis de popularidade do governador Sérgio Cabral também eram propícios para uma ação radical da direita. A conjuntura era favorável. Um suposto ataque coordenado do narcotráfico daria o motivo “ideal” para a ação do governo estadual.
Viria então a “retomada”, obviamente apenas militar, do território do Complexo do Alemão, que pelas palavrasiii do Secretário de Segurança Pública, naquele momento, era “o coração do mal”. A ação não poderia ter vindo sem um novo discurso produzido nas salas das edições de jornal; profundamente alinhadas com o discurso oficial da secretaria de segurança pública e do governo federal a ponto de, em diversos momentos, não sabermos bem onde terminava a ponta da caneta e começava o gatilho do fuzil. A estratégia de produção do discurso se pautava então pela lógica maniqueísta da luta do bem contra o mal; perfeitamente assinalada pela entrevista do secretário Beltrame e estampada pelas fotos das tropas policiais nos jornais, com legendas que sugeriam mais um fundamentalismo religioso do que propriamente uma cobertura jornalística.
Depois de uma ação espetaculosa e contando com apoio Federal, tanques de
guerra e largos contingentes da polícia foram mobilizados para “cercar” o Alemão, tentando prender parte dos varejistas do tráfico de drogas. No fim da operação um saldo bem abaixo de presos decepcionava parte dos jornalistas corporativos, ávidos pela vingança contra os párias que ameaçavam a propriedade privada alheia e povoavam o imaginário das elites de temores.


Moradores do Alemão nesta época, já denunciavam nas redes informais, apesar de desacreditados pelo discurso oficial, que a alta hierarquia do tráfico de varejo (pois a do atacado evidentemente não vive nas comunidades), já tinha conseguido fugir (ocultados em viaturas) com ajuda de outros “colegas de trabalho”, ou seja, os cowboys do secretário de segurança, todos policiais civis e militares: a chamada “tropa do bem”.

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Sobre pmizraji

Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em fevereiro 21, 2011, em Anarquismo Social. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. otimo material.

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