O Teatro do Bem e do Mal e a “Crise” na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro

Federação Anarquista do Rio de Janeiro
“Por que é a nossa destruição que eles querem,
física e mentalmente o mais que puderem.”
(Atividade, Cd Só Só PA Tu Se Ligar Us Neguin Q Não Se Kala)

Já dizia o grande poeta e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, em uma de suas mais célebres frases, que na luta entre o bem e o mal, é sempre o povo que morre. No caso do Rio de Janeiro, estado que se tornou o “laboratório” oficial da política de segurança “pública” (privada) desejada pelas elites, tal frase não poderia assumir mais credibilidade do que já tem. E além deste maniqueísmo, reflexões políticas se impõem com a mesma urgência e gravidade dos fatos.
Há alguns anos, o estado é alvo de uma política de segurança tenebrosa, um
verdadeiro terrorismo de estado que busca servir não só de referência nacional para o tratamento das questões sociais, mas intenta transformar a cidade em uma urbe turística, onde os pobres não combinam com a decoração do palácio carioca sonhado pelos “Eike Batistas” e pelos empresários do setor hoteleiro e da construção civil. Tais iniciativas, hoje no campo da “segurança pública” e da reforma urbana, nos remetem, sempre de
modo atual, aos primeiros anos do século XX, quando a ação do estado orquestrada por parte das elites econômicas, modernizava arquitetonicamente a cidade, preocupada com a imagem do “país”, mas aterrorizava e despejava os trabalhadores, tratando a questão social como caso de polícia.


Os marcos desta política podem ser facilmente reavivados em nossa memória
coletiva. Em 2006 com a realização dos jogos Panamericanos, sob desculpa da proteção das delegações estrangeiras, o governo federal armou e melhor equipou as forças repressivas do estado do Rio, prenunciando a barbárie que estaria por vir. Permitindo-nos determinadas alusões históricas, se Guernica foi o ensaio da Segunda Guerra Mundial, onde os nazistas puderam testar pela primeira vez seus equipamentos mortais contra a população civil, o Complexo do Alemão foi a Guernica do fascismo institucional da política de segurança pública, que em 27 de junho de 2007 assassinou 19 pessoas, 11 destas, sem nenhum tipo de envolvimento com o tráfico de drogas.
Relatórios posterioresi produzidos pelos peritos indicavam que muitas das mortes foram execuções à queima-roupa, o que colocava em xeque a tese dos jornalistas que defendiam a polícia quando ocorriam as chamadas “mortes pelo confronto” durante as incursões policiais; eufemismo para rotineiras execuções e pena de morte não-oficial, geralmente aplicada ao nosso povo pobre e negro, as principais vítimas do genocídio. Na época da chacina, assumida oficialmente pelo Estado, jornais da imprensa burguesa no Rio de Janeiro publicaram com grande destaque sensacionalista, mas como
de costume, pouca reflexão crítica, fotos de vários corpos e o chão das vielas do Alemão completamente sujo de sangue comparando a ação, a Guerra do Iraque. Posto em destaque pelos editores do jornal, um policial militar fumando charuto foi transformado repentinamente no símbolo da nova política de segurança. Um xerife, que se regozijava no meio da “guerra” a apreciar seus charutos após o fim das operações; cena macabra, que foi consolidada como o exemplo de “bom mocismo” policial, um “John Wayne” que exterminava, ao invés de índios, pobres, favelados e negros. Um representante da tropa do “bem” do governo estadual.

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Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em fevereiro 21, 2011, em Anarquismo Social. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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