nova serra pelada

O Complexo do Alemão rapidamente tornou-se um garimpo policial. Pelas palavras de um soldado divulgadas pelas recentes investigações da Polícia Federal, o Complexo virou uma “Serra Peladav. Nessa nova Serra Pelada, as forças de segurança garimpavam o ouro das jóias dos traficantes e, principalmente, a montanha de dinheiro vivo da venda de drogas. Muitas drogas e armas foram apreendidas para que fosse encenado o espetáculo da grande imprensa, mas inacreditavelmente nenhum montante de dinheiro foi apreendido e nem mostrado na Tv. Será que o narcotráfico do Alemão só aceitava cartão de crédito?
O “garimpo” também incluiu o roubo dos bens dos moradores e trabalhadores das comunidades. Este foi o caso de um morador da Vila Cruzeiro, que teve uma rescisão trabalhista de 31 mil reais roubadavi por policiais. Temeroso de que algum repórter mais escrupuloso resolvesse dar crédito a opinião da comunidade, o comandante geral da PM proibiu, poucas horas depois do início da operação, que os policiais-garimpeiros de realizassem incursõesvii com mochilas para tentar “melhorar” a imagem da polícia na comunidade; mas o botim de “guerra” prosseguiu. O caso específico da “Serra Pelada” do Alemão revela algo de uma maior amplitude. Sempre houve relação direta, benefício econômico, e organização conjunta do comércio de tráfico de drogas com as instituições policiais do Estado. É falso sustentar o discurso dos “maus policiais” que “mancham” a imagem da corporação. A cultura do botim, da revenda de materiais do tráfico de varejo e da associação sempre direta e próxima entre instituição policial e tráfico de drogas é algo que já está devidamente enraizado na cultura policial do Rio de Janeiro.
A queda recente do subsecretário da Polícia Civil e mais de vinte policiais comprovadamente envolvidos num esquema de venda de fuzis para facções de traficantes e milicianos comprova um velho ditado popular de que “a oportunidade faz o ladrão”. Enquanto combatia determinadas facções de traficantes, o subsecretário dava apoio a uma “milícia” (paramilitares) em Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O subsecretário, que foi preso, era o braço direito do chefe da Polícia Civil Alan Turnowsky, que também foi exonerado. Este caso particular revela um comportamento mais amplo, que pode indicar uma lógica política em funcionamento. Para captarmos esta lógica, que implica uma relação de dominação, precisamos trocar nossa lente de análise, e enxergar a ação do poder, que neste caso vira opressão, a partir de sua capilarização. Traduzindo, precisamos entender a política de segurança não apenas a partir dos “gabinetes” e dos discursos de sua cúpula, mas da ação concreta de seus agentes. Quando falamos política de segurança pública, não falamos apenas dos pronunciamentos do secretário de segurança, falamos de fato, da ação concreta de policiais e agentes de segurança do estado nas comunidades e que já ocorre há anos, a despeito de quem ocupe o cargo máximo desta secretaria.


Já parece mais do que óbvio que o crescimento das milícias paramilitares controladas por policiais da ativa e da reserva, bombeiros e ex-policiais acompanha a repressão do governo ao tráfico em determinadas comunidades. Decresce o tráfico, cresce a milícia. Com o enfraquecimento de determinadas facções, as milícias ocupam agora os bairros outrora dominados pelos traficantes. É como se o projeto inicial, em longo prazo, fosse substituir o tráfico de drogas, muito mais espalhafatoso e potencialmente prejudicial às campanhas políticas dos envolvidosix (por serem pouco confiáveis de controle), pelas milícias administradas por redes mais estáveis. Estas redes são mais confiáveis para a manipulação de caciques políticos estaduais e municipais. Inserida dentro da hierarquia do Estado, a milícia e seus paramilitares, são instrumentos mais passíveis de utilização. Além disto, do ponto de vista da administração capitalista, parecem mais eficientes em explorar e oprimir trabalhadores. Cobram taxas como empresas profissionais: gás, TV a cabo, transporte, venda de imóveis e aluguel; nada foge do controle dos milicianos. Do ponto de vista da racionalidade capitalistax e do lucro são mais “agressivas” que seus concorrentes narcotraficantes. Como as milícias atravessam o quadro institucional da própria estrutura da secretaria de segurança pública e da Assembléia Legislativa, seu controle pelo governo torna-se mais ágil, fácil e barato, já que envolve apenas, um rearranjo institucional, caso obviamente hajam problemas com a opinião pública (na verdade, problemas com a mídia privada). Para provarmos esta nossa hipótese, basta lembrar que o uso do aparato do Estado por milicianos não é fruto de algum roteiro de ficção científica. Desde 2007, denúncias de moradores e de organizações não-governamentais apontavam aquilo que a imprensa corporativa negava; policiais alugaram blindados (caveirões) para diferentes facções de traficantes e milicianos para tomar as bocas de fumo das quadrilhas rivais. Além disto, em recente reportagem, o delegado titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO) Cláudio Ferrazxii, revelou que em um diálogo interceptado por uma investigação, um sargento da PM articulava com outro miliciano uma operação da Polícia Civil na Favela da Coréia. Como diria o espírito belicoso de Tio Sam, war is businessxiii e negócios são negócios. Além disto, há outro fator importante. O projeto das UPP’s tem um custo elevado para as elites econômicas e políticas, não podendo ser facilmente massificado. As milícias estando sob a tutela de redes de poder inscritas institucionalmente dentro do Estado, possuem um efeito colateral (ou planejado) de “aliviar” os custos de possíveis UPP’s nas comunidades dominadas pelo tráfico. Concluímos deste modo que o teatro do bem e do mal construído pela mídia, que opõe cotidianamente tráfico de drogas e forças policiais como se fossem coisas opostas, não é nada mais do que uma mentira construída, a qual o anarquista Noam Chomsky chama de “Consenso Fabricado”. A crise na polícia civil do Rio de Janeiro é apenas a divulgação de procedimentos internos que não nos são acessíveis pelo filtro midiático, sempre cioso por proteger a imagem das instituições burguesas.
E quando o “John Wayne” da polícia militar – o fã de charutos franco atirador é surpreendido numa gravação da Polícia Federal negociando armas apreendidas no Complexo do Alemão com traficantes, a outrora “tropa do bem”, sob discurso midiático, repentinamente transforma-se em “maus policiais”. Mas nós sabemos que não são “maus policiais”. Eles são de fato, a política de segurança publica do Estado, REAL E CONCRETA, e que em nome do combate ao narcotráfico, mata ou oprime nosso povo, revelando o conteúdo de classexiv da própria instituição policial. A partir de então, não há mais fotos nos jornais, nem alcunhas “santas” nas televisões, apenas promessas de redenção e “limpeza” da políciaxv, quando nós sabemos que algo que troca constantemente de roupagem, já deve estar “sujo” há demasiado tempo para que se façam correções.


Com tudo isso; guardadas as muitas semelhanças com a frase de Eduardo
Galeano, nos servimos de um trecho de um RAP, que resume o histórico da segurança “pública” das elites com muito mais objetividade e sinceridade do que as habituais análises do especialista em segurança pública da rede Globo, e ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel: “muito preto e muito pobre eu sei que incomoda os nobres”.

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Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em fevereiro 21, 2011, em Anarquismo Social. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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