Arquivo mensal: fevereiro 2011

nova serra pelada


O Complexo do Alemão rapidamente tornou-se um garimpo policial. Pelas palavras de um soldado divulgadas pelas recentes investigações da Polícia Federal, o Complexo virou uma “Serra Peladav. Nessa nova Serra Pelada, as forças de segurança garimpavam o ouro das jóias dos traficantes e, principalmente, a montanha de dinheiro vivo da venda de drogas. Muitas drogas e armas foram apreendidas para que fosse encenado o espetáculo da grande imprensa, mas inacreditavelmente nenhum montante de dinheiro foi apreendido e nem mostrado na Tv. Será que o narcotráfico do Alemão só aceitava cartão de crédito?
O “garimpo” também incluiu o roubo dos bens dos moradores e trabalhadores das comunidades. Este foi o caso de um morador da Vila Cruzeiro, que teve uma rescisão trabalhista de 31 mil reais roubadavi por policiais. Temeroso de que algum repórter mais escrupuloso resolvesse dar crédito a opinião da comunidade, o comandante geral da PM proibiu, poucas horas depois do início da operação, que os policiais-garimpeiros de realizassem incursõesvii com mochilas para tentar “melhorar” a imagem da polícia na comunidade; mas o botim de “guerra” prosseguiu. O caso específico da “Serra Pelada” do Alemão revela algo de uma maior amplitude. Sempre houve relação direta, benefício econômico, e organização conjunta do comércio de tráfico de drogas com as instituições policiais do Estado. É falso sustentar o discurso dos “maus policiais” que “mancham” a imagem da corporação. A cultura do botim, da revenda de materiais do tráfico de varejo e da associação sempre direta e próxima entre instituição policial e tráfico de drogas é algo que já está devidamente enraizado na cultura policial do Rio de Janeiro.
A queda recente do subsecretário da Polícia Civil e mais de vinte policiais comprovadamente envolvidos num esquema de venda de fuzis para facções de traficantes e milicianos comprova um velho ditado popular de que “a oportunidade faz o ladrão”. Enquanto combatia determinadas facções de traficantes, o subsecretário dava apoio a uma “milícia” (paramilitares) em Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O subsecretário, que foi preso, era o braço direito do chefe da Polícia Civil Alan Turnowsky, que também foi exonerado. Este caso particular revela um comportamento mais amplo, que pode indicar uma lógica política em funcionamento. Para captarmos esta lógica, que implica uma relação de dominação, precisamos trocar nossa lente de análise, e enxergar a ação do poder, que neste caso vira opressão, a partir de sua capilarização. Traduzindo, precisamos entender a política de segurança não apenas a partir dos “gabinetes” e dos discursos de sua cúpula, mas da ação concreta de seus agentes. Quando falamos política de segurança pública, não falamos apenas dos pronunciamentos do secretário de segurança, falamos de fato, da ação concreta de policiais e agentes de segurança do estado nas comunidades e que já ocorre há anos, a despeito de quem ocupe o cargo máximo desta secretaria.


Já parece mais do que óbvio que o crescimento das milícias paramilitares controladas por policiais da ativa e da reserva, bombeiros e ex-policiais acompanha a repressão do governo ao tráfico em determinadas comunidades. Decresce o tráfico, cresce a milícia. Com o enfraquecimento de determinadas facções, as milícias ocupam agora os bairros outrora dominados pelos traficantes. É como se o projeto inicial, em longo prazo, fosse substituir o tráfico de drogas, muito mais espalhafatoso e potencialmente prejudicial às campanhas políticas dos envolvidosix (por serem pouco confiáveis de controle), pelas milícias administradas por redes mais estáveis. Estas redes são mais confiáveis para a manipulação de caciques políticos estaduais e municipais. Inserida dentro da hierarquia do Estado, a milícia e seus paramilitares, são instrumentos mais passíveis de utilização. Além disto, do ponto de vista da administração capitalista, parecem mais eficientes em explorar e oprimir trabalhadores. Cobram taxas como empresas profissionais: gás, TV a cabo, transporte, venda de imóveis e aluguel; nada foge do controle dos milicianos. Do ponto de vista da racionalidade capitalistax e do lucro são mais “agressivas” que seus concorrentes narcotraficantes. Como as milícias atravessam o quadro institucional da própria estrutura da secretaria de segurança pública e da Assembléia Legislativa, seu controle pelo governo torna-se mais ágil, fácil e barato, já que envolve apenas, um rearranjo institucional, caso obviamente hajam problemas com a opinião pública (na verdade, problemas com a mídia privada). Para provarmos esta nossa hipótese, basta lembrar que o uso do aparato do Estado por milicianos não é fruto de algum roteiro de ficção científica. Desde 2007, denúncias de moradores e de organizações não-governamentais apontavam aquilo que a imprensa corporativa negava; policiais alugaram blindados (caveirões) para diferentes facções de traficantes e milicianos para tomar as bocas de fumo das quadrilhas rivais. Além disto, em recente reportagem, o delegado titular da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (DRACO) Cláudio Ferrazxii, revelou que em um diálogo interceptado por uma investigação, um sargento da PM articulava com outro miliciano uma operação da Polícia Civil na Favela da Coréia. Como diria o espírito belicoso de Tio Sam, war is businessxiii e negócios são negócios. Além disto, há outro fator importante. O projeto das UPP’s tem um custo elevado para as elites econômicas e políticas, não podendo ser facilmente massificado. As milícias estando sob a tutela de redes de poder inscritas institucionalmente dentro do Estado, possuem um efeito colateral (ou planejado) de “aliviar” os custos de possíveis UPP’s nas comunidades dominadas pelo tráfico. Concluímos deste modo que o teatro do bem e do mal construído pela mídia, que opõe cotidianamente tráfico de drogas e forças policiais como se fossem coisas opostas, não é nada mais do que uma mentira construída, a qual o anarquista Noam Chomsky chama de “Consenso Fabricado”. A crise na polícia civil do Rio de Janeiro é apenas a divulgação de procedimentos internos que não nos são acessíveis pelo filtro midiático, sempre cioso por proteger a imagem das instituições burguesas.
E quando o “John Wayne” da polícia militar – o fã de charutos franco atirador é surpreendido numa gravação da Polícia Federal negociando armas apreendidas no Complexo do Alemão com traficantes, a outrora “tropa do bem”, sob discurso midiático, repentinamente transforma-se em “maus policiais”. Mas nós sabemos que não são “maus policiais”. Eles são de fato, a política de segurança publica do Estado, REAL E CONCRETA, e que em nome do combate ao narcotráfico, mata ou oprime nosso povo, revelando o conteúdo de classexiv da própria instituição policial. A partir de então, não há mais fotos nos jornais, nem alcunhas “santas” nas televisões, apenas promessas de redenção e “limpeza” da políciaxv, quando nós sabemos que algo que troca constantemente de roupagem, já deve estar “sujo” há demasiado tempo para que se façam correções.


Com tudo isso; guardadas as muitas semelhanças com a frase de Eduardo
Galeano, nos servimos de um trecho de um RAP, que resume o histórico da segurança “pública” das elites com muito mais objetividade e sinceridade do que as habituais análises do especialista em segurança pública da rede Globo, e ex-capitão do BOPE Rodrigo Pimentel: “muito preto e muito pobre eu sei que incomoda os nobres”.

tropa de elite e o “estado de direita”


A partir de então, o discurso assumido pelos intelectuais de direita, pelos
políticos e por grande parte da classe média alinhada com o projeto das elites se pautou pelo discurso da guerra urbana, discurso que se consolidou com o lançamento do primeiro filme Tropa de Elite que, curiosamente, fora lançado poucos meses depois da chacina do Alemão. Coincidência ou não, deu carta branca ao BOPE e à polícia do estado para exceder as regras mais básicas do Estado de Direito, que paulatinamente revelava sem máscaras seu real conteúdo: um Estado de “Direita”.
O argumento da mídia e do governo passou a assumir contornos de “Capitão
Nascimento”: a perda de inocentes na guerra contra o tráfico fazia parte, por esta lógica, das “baixas” necessárias à eliminação do poder do tráfico no Rio de Janeiro, localizando o tráfico apenas nas regiões pobres e periféricas, ignorando sua complexidade e extensão internacional. Esqueceram também de avisar que estes inocentes mortos eram (e são) sempre trabalhadores negros e favelados. O discurso “Tropa de Elite” (remodelado cinematograficamente em sua segunda edição – ainda, mas menos explicitamente fascista) ganhou as bocas de grandes setores da classe média e preparou o terreno para ações ainda mais espetaculares para controlar as “classes perigosas”.


Com a escolha do Rio de Janeiro como Cidade-Olímpica e uma das sedes da
Copa do Mundo, e com um nível de popularidade que transbordava a marca dos 80%, o governo federal lulista fornecia “gordura” para seus aliados queimarem. Os níveis de popularidade do governador Sérgio Cabral também eram propícios para uma ação radical da direita. A conjuntura era favorável. Um suposto ataque coordenado do narcotráfico daria o motivo “ideal” para a ação do governo estadual.
Viria então a “retomada”, obviamente apenas militar, do território do Complexo do Alemão, que pelas palavrasiii do Secretário de Segurança Pública, naquele momento, era “o coração do mal”. A ação não poderia ter vindo sem um novo discurso produzido nas salas das edições de jornal; profundamente alinhadas com o discurso oficial da secretaria de segurança pública e do governo federal a ponto de, em diversos momentos, não sabermos bem onde terminava a ponta da caneta e começava o gatilho do fuzil. A estratégia de produção do discurso se pautava então pela lógica maniqueísta da luta do bem contra o mal; perfeitamente assinalada pela entrevista do secretário Beltrame e estampada pelas fotos das tropas policiais nos jornais, com legendas que sugeriam mais um fundamentalismo religioso do que propriamente uma cobertura jornalística.
Depois de uma ação espetaculosa e contando com apoio Federal, tanques de
guerra e largos contingentes da polícia foram mobilizados para “cercar” o Alemão, tentando prender parte dos varejistas do tráfico de drogas. No fim da operação um saldo bem abaixo de presos decepcionava parte dos jornalistas corporativos, ávidos pela vingança contra os párias que ameaçavam a propriedade privada alheia e povoavam o imaginário das elites de temores.


Moradores do Alemão nesta época, já denunciavam nas redes informais, apesar de desacreditados pelo discurso oficial, que a alta hierarquia do tráfico de varejo (pois a do atacado evidentemente não vive nas comunidades), já tinha conseguido fugir (ocultados em viaturas) com ajuda de outros “colegas de trabalho”, ou seja, os cowboys do secretário de segurança, todos policiais civis e militares: a chamada “tropa do bem”.

O Teatro do Bem e do Mal e a “Crise” na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro


Federação Anarquista do Rio de Janeiro
“Por que é a nossa destruição que eles querem,
física e mentalmente o mais que puderem.”
(Atividade, Cd Só Só PA Tu Se Ligar Us Neguin Q Não Se Kala)

Já dizia o grande poeta e jornalista uruguaio Eduardo Galeano, em uma de suas mais célebres frases, que na luta entre o bem e o mal, é sempre o povo que morre. No caso do Rio de Janeiro, estado que se tornou o “laboratório” oficial da política de segurança “pública” (privada) desejada pelas elites, tal frase não poderia assumir mais credibilidade do que já tem. E além deste maniqueísmo, reflexões políticas se impõem com a mesma urgência e gravidade dos fatos.
Há alguns anos, o estado é alvo de uma política de segurança tenebrosa, um
verdadeiro terrorismo de estado que busca servir não só de referência nacional para o tratamento das questões sociais, mas intenta transformar a cidade em uma urbe turística, onde os pobres não combinam com a decoração do palácio carioca sonhado pelos “Eike Batistas” e pelos empresários do setor hoteleiro e da construção civil. Tais iniciativas, hoje no campo da “segurança pública” e da reforma urbana, nos remetem, sempre de
modo atual, aos primeiros anos do século XX, quando a ação do estado orquestrada por parte das elites econômicas, modernizava arquitetonicamente a cidade, preocupada com a imagem do “país”, mas aterrorizava e despejava os trabalhadores, tratando a questão social como caso de polícia.


Os marcos desta política podem ser facilmente reavivados em nossa memória
coletiva. Em 2006 com a realização dos jogos Panamericanos, sob desculpa da proteção das delegações estrangeiras, o governo federal armou e melhor equipou as forças repressivas do estado do Rio, prenunciando a barbárie que estaria por vir. Permitindo-nos determinadas alusões históricas, se Guernica foi o ensaio da Segunda Guerra Mundial, onde os nazistas puderam testar pela primeira vez seus equipamentos mortais contra a população civil, o Complexo do Alemão foi a Guernica do fascismo institucional da política de segurança pública, que em 27 de junho de 2007 assassinou 19 pessoas, 11 destas, sem nenhum tipo de envolvimento com o tráfico de drogas.
Relatórios posterioresi produzidos pelos peritos indicavam que muitas das mortes foram execuções à queima-roupa, o que colocava em xeque a tese dos jornalistas que defendiam a polícia quando ocorriam as chamadas “mortes pelo confronto” durante as incursões policiais; eufemismo para rotineiras execuções e pena de morte não-oficial, geralmente aplicada ao nosso povo pobre e negro, as principais vítimas do genocídio. Na época da chacina, assumida oficialmente pelo Estado, jornais da imprensa burguesa no Rio de Janeiro publicaram com grande destaque sensacionalista, mas como
de costume, pouca reflexão crítica, fotos de vários corpos e o chão das vielas do Alemão completamente sujo de sangue comparando a ação, a Guerra do Iraque. Posto em destaque pelos editores do jornal, um policial militar fumando charuto foi transformado repentinamente no símbolo da nova política de segurança. Um xerife, que se regozijava no meio da “guerra” a apreciar seus charutos após o fim das operações; cena macabra, que foi consolidada como o exemplo de “bom mocismo” policial, um “John Wayne” que exterminava, ao invés de índios, pobres, favelados e negros. Um representante da tropa do “bem” do governo estadual.

O racismo de Ziraldo, infeliz herdeiro de Monteiro Lobato


Num extenso e substancial texto a escritora Ana Maria Gonçalves nos revela as entranhas do pensamento racista de Monteiro Lobato e do seu mais novo herdeiro Ziraldo, autor da camiseta do Bloco Carnavalesco “Que merda é essa” que desfila no bairro de Ipanema, zona sul carioca, região de alta classe média do Rio de Janeiro. Num vídeo em que o link (Que merda é essa?) está no texto abaixo, vê-se que o bloco foi fundado por um grupo com negros frequentadores das praias e bares de Ipanema fazendo exatamente aquela “mistura racial” em que o negro se vê constrangido a ridicularizar-se para ser aceito no grupo como normalmente acontece na democracia racial brasileira.

Carta Aberta ao Ziraldo

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca “Que merda é essa?” e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: “(…)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!…” (em “A barca de Gleyre”. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : “Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista”. A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o “humor negro” de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita “é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente”.

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não vêem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, “work” muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu “processo” sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro “O presidente negro ou O choque das raças”que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois:“Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (…) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha”.

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: “Meu romance não encontra editor. […]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros.” Tempos depois, voltou a se animar: “Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (…) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos – o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos”. Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: “Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)”.

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. “Em que estado voltaremos, Rangel,” se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, “desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões”. Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever “M*” porque a palavra “merda” foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, “work” muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar aCartilha de Direitos Humanosencomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: “O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem.” Está lá, Ziraldo, leia de novo: “crianças e adolescentes têm prioridade”. Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a “censura” chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? “Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato”, você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumoucom as sandálias de dedo: “O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele” (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque “(…) um já está quase formado e o outro não estuda mais (…). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (…), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (…). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (…). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (…) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom” (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: “(…) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada” (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que “Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (…) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!” (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: “Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, aausência do branco” (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de “macaquear” (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. “Macaqueando” um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar “macaqueando” Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um “processo” que ele provou que “work” com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas “macaqueando”. Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: “Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável”. Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam “colocados a salvo de tudo que é violência e abuso”, como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: “(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, “negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão”, e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, – porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, comoAna Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz:”Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (…) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais.”É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que “faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças.” Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente. Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de “macaco”, “carvão”, “fedorento”, “ladrão”, “vagabundo”, “coisa”, “burro”, e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que “Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: “Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. “Nós defendemos o front da raça branca – diz o sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil”. Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca – mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva.” Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, “o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos.” Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: “Só dói quando eu rio“.

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves

Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

Publicado em O Biscoito Fino e a Massa

O mundo ficou louco?


“Há um buraco em chamas na sociedade
Um bilhão de almas sem destino
Vivendo, amando, chorando
Alimentando o sistema, privando sua vida…” Doro Pesch

1. Os nove erros de Mubarak – Hosni Mubarak, no poder no Egito há 30 anos, enfrenta pressões populares para renunciar. Mesmo com o anúncio de que não disputaria as eleições de setembro, os protestos contra seu governo – que iniciaram no dia 25 de janeiro – não cessam.

i – Concentração de renda. A economia do Egito cresceu consideravelmente nos últimos anos, mas a população não sentiu a mudança no bolso. O povo, porém, afirma que empresários ligados ao Partido Democrático Nacional (a legenda de Mubarak) só enriqueceram.

ii – Corrupção. A corrupção é um dos fatores dos quais os egípcios mais reclamam. É difícil fazer qualquer coisa no país frente as autoridades sem pagar propina ou ter conexões com figurões. No governo, diz a população, não é diferente.

iii – Falta de visão. Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat, antecessores de Mubarak, sabiam onde queriam levar o Egito. O atual presidente, por sua vez, não oferece uma meta clara aos egípcios. O que ele oferece é uma infraestrutura em ruínas, condições socioeconômicas decadentes e lealdade ao Ocidente.

iv – Falta de reformas. O governo de Mubarak promete reformas políticas há anos. O que ocorre, porém, são poucos esforços abandonados tão logo são iniciados. Candidatos independentes são proibidos de disputar a presidência, por exemplo, e há inúmeras acusações de fraudes nas eleições.

v – Campanha por Gamal. Mubarak já tem 82 anos e, especula-se, não está bem de saúde. Por isso, o presidente tem preparado seu filho, Gamal, para sucedê-lo. Gamal, atualmente dirigente do Partido Nacional Democrático, tem lutado por uma agenda econômica e política semelhante à de seu pai, o que não agrada a população.

vi – Despreparo para os protestos. As manifestações que comumente ocorrem no Egito não passam de pequenas marchas rapidamente dispersadas pelas forças de segurança. Desta vez, porém, os organizadores estão conectados uns aos outros e sabem como se comunicar com o público descontente com o governo – não são opositores partidários. A polícia claramente se viu incapaz de conter as marchas e os militares foram necessários.

vii – Trapaças. Durante a maioria das eleições parlamentares que ocorreram durante seu mandato, Mubarak deixou alguns assentos para os opositores. Em 2010, porém, a oposição foi drasticamente reduzida e a Irmandade Muçulmana, o maior partido opositor, ficou de fora do Parlamento. Quase toda a representação política do país é ligada ao Partido Democrático Nacional.

viii – “Capangas” nas ruas. Vários dos saqueadores detidos durante o vácuo de segurança causado pela ausência da polícia durante três dias de protestos carregavam identificações de funcionários do governo e da polícia, sugerindo que eles foram enviados pelo governo. Mubarak pode ter tentado levar o povo de volta para suas casas, mas o tiro saiu pela culatra – os protestos só cresceram desde então.

ix – Nomeação de aliados. Mubarak anunciou reformas políticas e constitucionais não especificadas e prometeu não disputar as eleições em setembro. O presidente, porém, nomeou dois militares e aliados próximos para os cargos de vice-presidente e primeiro-ministro, o que foi interpretado como estratégias para perpetuar seu partido e seus aliados no poder. (O Globo)

2. Hezbollah e aliados renunciam e derrubam o governo no Líbano. (O Globo)

3. Após dissolução do governo, premier assume o poder e presidente abandona a Tunísia. (O Globo)

4. Tunísia é uma mensagem de alerta ao mundo árabe, dizem analistas. (Estadão – ‎15/01/2011)

5. Protestos continuam na Tunísia após fuga do presidente Ben Ali
Estadão – ‎15/01/2011‎

6. Comunidade internacional apoia vontade do povo tunisino
Destak – ‎15/01/2011‎

7. Egito: homem ateia fogo ao próprio corpo em frente à assembleia …
AFP – ‎17/01/2011‎
Um homem incendiou o próprio corpo em frente à sede da Assembleia do Povo no Cairo, gesto que lembra o suicídio do jovem tunesino

8. Mundo Árabe: Depois da Tunísia, quem é o próximo?
Global Voices Online – ‎17/01/2011‎

9. Agitação tunisina alastra-se a outros países
euronews – ‎17/01/2011‎
Tal como aconteceu na Tunísia em dezembro, na capital do Egito, perto do Parlamento, o proprietário de um pequeno restaurante imolou-se pelo fogo

10. Adolescente tenta se imolar com fogo em escola francesa
AFP – ‎18/01/2011‎
No mundo árabe, o gesto do jovem tunisiano foi seguido de outros nove atos semelhantes no Egito, na Argélia e na Mauritânia.

11. Revolta e contágio da Tunísia
euronews – ‎18/01/2011‎
“ Ainda é difícil saber se os movimentos de protesto vão chegar tão longe no Egito, no Iémen, na Argélia ou na Jordânia

12. Egito: novas tentativas de suicídio evidenciam mal-estar no mundo …
AFP – ‎18/01/2011‎
CAIRO — Os países árabes se veem afetados por uma onda de tentativas de suicídio por imolação com fogo, com dois novos casos nesta terça-feira no Egito

13. Onda de imolações ganha força nos países islâmicos
Destak Jornal – ‎18/01/2011‎
Duas novas tentativas de suicídio por imolação no Egito deram força à onda de protestos nos países islâmicos contra as más condições de vida e regimes autoritários

14. Ministros de transição demitem-se na Tunísia
Jornal da Madeira – ‎18/01/2011‎

15. Na Tunísia, manifestação pede a renúncia do governo
Estadão – ‎19/01/2011‎

16. Presidente deposto da Tunísia tem bens investigados
DCI – ‎19/01/2011‎
“A alma árabe foi partida pela pobreza, desemprego e recessão, em geral”, disse Moussa na abertura de um encontro da organização nesta terça-feira no Egito

17. Oposição pede dissolução do Parlamento egípcio
Estadão – ‎19/01/2011‎

18. Polícia enfrenta manifestantes em ‘dia da revolta’ no Egito
Estadão – ‎25/01/2011‎

19. DIA D: Egípcios tomam as ruas e pedem a saída do presidente Hosni Mubarak
G1.com.br – ‎25/01/2011‎

20. Egito vai à rua contra autoritarismo
R7 – ‎25/01/2011‎
Desde então, já foram registrados pelo menos oito casos de cidadãos que botaram fogo no próprio corpo na Argélia, na Mauritânia, no Marrocos e no Egito

21. Egito: Tuitando o Dia da Revolução
Global Voices Online – ‎25/01/2011‎
De relatos de pequenos encontros aos de milhares de manifestantes que marcham em diferentes cidades do Egito, o Twitter está em chamas com reações

22. Manifestações pedem a saída de Mubarak no Egito
Revista Época – ‎25/01/2011‎
O dia 25 de janeiro de 2011 entrou para a história do Egito

23. Fim das ditaduras em África? Tunísia, e agora Egito.
Zwela Angola Noticias – ‎25/01/2011‎
(Scott Nelson/NYT) Cairo, (EFE) – Milhares de manifestantes de todas as correntes políticas do Egito tomaram nesta terça-feira o coração do Cairo

24. Inspirados pela Tunísia, egípcios tomam as ruas contra o governo
Partido Comunista do Brasil – ‎26/01/2011‎
Dois manifestantes e um policial foram mortos no Egito, durante volumosos protestos contra o governo de Hosni Mubarak

25. Twitter é bloqueado no Egito após protesto contra presidente do país
IDG Now! – ‎26/01/2011‎
O Twitter foi bloqueado ontem (25/1) no Egito enquanto manifestantes realizavam um grande protesto no centro da capital Cairo contra o governo do presidente

26. Blogueiros árabes se expressam com muita sinceridade
Radio Nederland – ‎26/01/2011‎
(Wael, blogueiro) No Egito há espaço para jornais críticos, embora não sejam poupados pelo presidente Hosni Mubarak.

27. Egípcios conseguem burlar censura de Mubarak à internet
MSN – ‎26/01/2011‎
Os milhares de manifestantes que nesta terça-feira foram às ruas do Egito protestar contra o regime de Hosni Mubarak aqueceram as redes sociais

28. Governo do Egito manda bloquear Twitter e Facebook
Tecnoblog (Blogue) – ‎26/01/2011‎
A situação está tensa lá no Egito. Manifestantes partiram para cima de representantes do governo, numa onda de violência

29. Egito: manifestantes incendeiam prédio do governo em Suez
Terra Brasil – ‎26/01/2011‎
CAIRO, 26 Jan 2011 (AFP) -Manifestantes egípcios jogaram nesta quarta-feira coquetéis molotov contra um prédio do governo no porto de Suez

30. Jovens impulsionam apelo para expulsar líder do Egito
Último Segundo – iG – ‎28/01/2011‎
Durante décadas, o autoritário presidente do Egito, Hosni Mubarak, jogou de maneira inteligente com seus adversários políticos

31. Presidente egípcio pede renunciamento do governo
China Radio International – ‎29/01/2011‎
O presidente do Egito, Hosni Mubarak, pediu em discurso transmitido pela televisão na madrugada deste sábado (29) a renúncia do atual gabinete

32. Presidente egípcio dissolve o gabinete após protestos e mortes
Pernambuco.com – ‎29/01/2011‎
Durante a sexta-feira, o regime de Hosni Mubarak fez um apelo ao exército e decretou o toque de recolher em três grandes cidades do Egito

33. Robert Fisk: Internet teve papel vital nos protestos no Egito
Partido Comunista do Brasil – ‎29/01/2011‎

34. Cairo acorda entre cinzas e destruição
euronews – ‎29/01/2011‎
A vaga de contestação no Egito já provocou a morte a mais de duas dezenas de pessoas

35. Microblogs chineses censuram a palavra ‘Egito’
Estadão – ‎29/01/2011‎

36. Ministros renunciam, mas manifestações continuam no Egito
Pernambuco.com – ‎29/01/2011‎
Brasília – O primeiro-ministro, Ahmed Nazif, e demais integrantes do alto escalão do governo pediram demissão, hoje (29) no Egito

37. Mundo Árabe: Novas Mídias e Manifestações no Egito
Global Voices Online – ‎29/01/2011‎
O mundo árabe está olhando com admiração para a evolução dos eventos no Egito. Hoje, a mídia social triunfa, enquanto a grande mídia apenas tenta acompanhar

38. A temida voz dos árabes
O Globo – ‎29/01/2011‎

39. Jordanianos organizam ato em apoio a ‘revolução contra ditador …
AFP – ‎29/01/2011‎
AMÃ — Quase 70 líderes islâmicos e sindicalistas participaram neste sábado de um ato político em frente à embaixada do Egito em Amã

40. Protestos no Egito ganham apoio do Oriente Médio
Estadão – ‎29/01/2011‎

41. França e Inglaterra pedem a governo egípcio que “escute o povo”
Último Segundo – iG – ‎29/01/2011‎
Após quase uma semana de protestos no Egito, representantes de países europeus pedem que o governo do país ceda a pressão popular e faça as reformas

42. Yusuf al-Qaradawi pede a Mubarak que renuncie pelo bem do Egito
AFP – ‎29/01/2011‎
eu o aconselho a deixar o Egito (…). Não há outra solução para este problema além da saída de Mubarak”, disse al-Qaradawi

43. A Revolução dos Jasmins: O medo mudou de campo
PlanetaOsasco.com – ‎29/01/2011‎
Agora, a revolta chega ao Egito e ao Iêmen

44. Manifestações populares no Iémen exigem mudanças políticas
RTP – ‎29/01/2011‎
Em consequência do rastilho acendido na Tunísia pela Revolução de Jasmim, e depois da passagem que mantém o Egito a ferro e fogo, com manifestações populares

45. Países do mundo pedem fim de derramamento de sangue no Egito
AFP – ‎29/01/2011‎

46. Egito: Manifestantes não baixam braços
euronews – ‎29/01/2011‎
Os manifestantes mantêm-se nas ruas das principais cidades egípcias, num sinal de protesto ao novo executivo apontado por Hosni Mubarak

47. Líbano: Protesto em Apoio ao Egito
Global Voices Online – ‎29/01/2011‎
Um protesto de solidariedade a favor dos manifestantes no Egito está acontecendo ao lado da embaixada egípcia em Beirute, Líbano

48. O Egito a caminho da revolução. O que fazer?
Guia Global – ‎29/01/2011‎
No caso do Egito dois terços da população são jovens abaixo de 30 anos, dos quais 90% estão desempregados

49. Oriente em chamas manifestantes enfrentam tropas e tanques
Guia Global – ‎29/01/2011‎
No Egito, onde o desemprego entre os jovens chega a 20%, forças policiais foram incapazes de deter as grandes manifestções

50. Em meio a saques, polícia desaparece das ruas do Egito
R7 – ‎29/01/2011‎

51. Suez amanhece em chamas
O POVO Online – ‎29/01/2011‎

52. Revoltas políticas se espalham por outros países árabes
pe360graus.com – ‎29/01/2011‎

53. “Revolução” no Egito faz história política
Record – ‎29/01/2011‎

54. Famílias ricas deixam capital do Egito
Último Segundo – iG – ‎29/01/2011‎
Dezenove jatinhos com famílias de ricos empresários egípcios e árabes deixaram o Cairo, capital do Egito na noite de sábado

55. Egito: Centenas de presos fogem de prisão
Diário de Notícias – Lisboa – ‎29/01/2011‎

56. Líder opositor iraniano apoia povo egípcio e pede fim das ditaduras
AngolaPress – ‎29/01/2011‎

57. Egito: varrer Mubarak eo imperialismo
Vermelho – ‎30/01/2011‎
A emergência das massas árabes, primeiro na Tunísia, agora no Egito, fez mover o tabuleiro político no Oriente Médio.

58. EUA pedem fim da ditadura no Egito
Agora São Paulo – ‎30/01/2011‎
CAIRO – No sexto dia de protestos pela queda de Hosni Mubarak, 82 anos, o governo dos EUA, seu aliado mais importante, sinalizou maior distanciamento

59. Mais de 150 pessoas mortas
Gazeta Digital – ‎30/01/2011‎
Milhares de detentos fugiram de prisões no Egito, em meio a protestos que já mataram mais de 150 pessoas.

60. Egito: Movimento anti Mubarak apela para greve geral a partir de hoje
Visão – ‎31/01/2011‎
Cairo, 31 jan (Lusa) – O movimento de contestação ao presidente do Egito Hosni Moubarak apelou para uma greve geral a partir de hoje

61. Egito: uma revolução de verdade
PlanetaOsasco.com – ‎31/01/2011‎
Em todo o Egito, dezenas de milhares de árabes enfrentaram gás lacrimogêneo, canhões de água, granadas e tiroteio para exigir o fim da ditadura de Hosni

62. Exército do Egito diz que demanda do povo é ‘legítima’
Paraná-Online – ‎31/01/2011‎
O Exército do Egito disse, em comunicado, que as demandas do povo egípcio são “legítimas” e que não vai usar a força contra os manifestantes

63. Comício anti-Berlusconi juntou 9000 em Milão mais a “neta de Mubarak”
i Informação – ‎06/02

Sindicalistas e estudantes protestam contra Governo em Caracas
Último Segundo – iG – ‎06/02

Sérvia: 70 mil manifestantes pedem antecipação de eleições
SRZD – ‎06/02
Cerca de 70 mil pessoas protestam, neste sábado, a favor de eleições antecipadas na Sérvia.

Cabo Verde dá mais um passo no enraizamento da democracia
Público.pt – ‎06/02
Só hoje à noite se sabe quem vence as eleições, mas, se a votação correr sem sobressaltos, como se espera, já há vencedores: a democracia cabo-verdiana

Renúncia da cúpula do partido governista do Egito
R7 – ‎06/02
Integrantes do governo dos Estados Unidos elogiaram, neste sábado (5), a renúncia de membros da cúpula do PDN (Partido Nacional Democrático), anunciada hoje. Entre os que deixaram o comando da sigla governista está Gamal Mubarak, filho do presidente

(…)

Passemos para derrubar o regime e para o sucesso da Revolução do Povo


[Texto extraído de manifestantes via Wikileaks, traduzido do árabe]:

Neste momento decisivo da história do Egito acreditamos que a greve geral venha para alargar a participação de agentes públicos na revolução cujo processo de mudança radical é real.

A grande revolução do povo egípcio, instigada pela autoridade e sua polícia, que pune a divulgação pública dos criminosos e o caos espalhado une-se entre as forças dos Parlamentos Populares, da oposição e manifestantes em todas as províncias do Egito em uma frente delegada pelo povo para levá-lo a legitimidade de organizar a transferência de poder.

Nos próximos dias, que serão críticos e pode ser mesmo amanhã um dia crucial na história do povo egípcio para resolver o conflito.

دعونا ننتقل لقلب نظام الحكم ونجاح الثورة الشعبية

يتم استدعاء اتفاق بشأن الضرورية للناس ، والدعوة لمظاهرة مليونية والإضراب العام الذي استقر في معركة الشعب المصري ، دون توسيع نطاق مشاركة الجمهور الثورة خطوات الصناعة من الصعب تحقيق تغيير جذري وحقيقي .

ليكون هناك اتفاق بين المعارضة في هذه اللحظة الحرجة التي لن يغفر لهم ، حيث كان الناس من أي عرق ، ويجب أن تمتثل لدماء الشهداء وثورة الفاتح العظيم للشعب المصري ، وحماية مصر من الفوضى والدمار ، ما كان مخططا من قبل السلطة وشرطتها ، والتي تعاقب الكشف عن المجرمين وانتشار الفوضى.

ونحن ننضم إلى دعوة حاسم الآن بين الطرفين في البرلمان الشعب والقوى المعارضة وشعبية والمتظاهرين في جميع محافظات مصر في لجنة واحدة تفويض من الشعب والحصول على شرعية لهم لتنظيم عملية نقل السلطة.

. في اليوم التالي في غضون بضعة أيام ، أمر بالغ الأهمية ، وربما يكون غدا يوم حاسم في تاريخ الشعب المصري لحسم الصراع في ما يصل سلطة الاتجاه يؤكد مطالب الناس وبناء على الانصهار الرائع بين الشعب المصري والقوات المسلحة .

عاش ثورة الشعب المصري
عاشت وحدة كل الشعب
عاشت وحدة القوى الوطنية

Latuff Insurgente


Al Masri – O Poder Popular Insurgente


Por Pablo Mizraji:

O estado de insurgência popular nas ruas do Cairo e principalmente aos arredores da Tahrir Square (Praça da Liberdade) ,que se espalha por outras cidades importantes demandam vigorosos alertas ao mundo inteiro, que o poder das massas jamais pode ser relegado para debaixo do tapete de governos, sejam quais forem suas bandeiras. As manifestações desde sexta-feira no Egito criaram um grande efeito dominó no “mundo árabe”, repercutindo de forma incisiva nos estados de tutela religiosa. Pelo Maghreb (países que compõem o Norte da África) e pela Península Arábica, se espalham verdadeiras revoluções populares pedindo a urgência da transformação social e política, ou mais importante ainda, a determinação de que a voz do povo finalmente seja ouvida pelo mundo inteiro. Clamam palavras de liberdade, quando olham para a história obsoleta de justiça social.

O governo do general Hosni Mubarak  apenas soube  posicionar-se ao lado dos EUA em troca de uma humilhante reserva militar, renovar por quatro vezes sua permanência (reconhece-se as irregularidades eleitorais), restringir ao máximo a opinião pública e liberdade de expressão internas, garantir através de atos autoritários a continuidade de sua “dinastia” através dos cargos familiares, além de servir de fantoche para os interesses yankee-israelenses. Suas manobras não surtiram efeito. Tentou readequar a composição administrativa com novos ministros e chefes de governo, alterar a utilização de recursos das Finanças, assim como renunciar a um quinto mandato, todos sem efeito. Contrariamente, o que se esperava após essas jogadas, numa exibição pública na noite de terça-feira (01 de fevereiro), as agitações populares cresceram e tomaram proporções violentas contra as medidas. Apesar de todas as tentativas do governo egípcio mostrar ao mundo seu respeito às liberdades de manifestação, telefones móveis foram privados de uso, redes sociais invadidas, rádios fechadas, jornalistas presos, etc, para impedir que ativistas pudessem organizar-se e expor para o estrangeiro o estado de sítio imposto pela polícia. Mesmo assim, ainda conseguimos ter, através dos meios livres eletrônicos, imagens e informações sobre os protestos nas ruas, mobilizações e organização das lutas.

O efeito dominó que chegou à Tunísia, Argélia, Marrocos, Jordânia, Oman, Sudão e Mauritânia mostram o quão insustentáveis são as condições de vida de milhões de pessoas, às margens da sobrevivência e da exploração pelas elites arcaicas que se mantém no poder.  Esses alvos estáticos são frutos de histórias políticas aliadas a regimes teocráticos, que desde suas origens promovem a separação entre povo e Estado (Estado religioso autocrático). Governos elitistas ditatoriais fazem suas alianças com potências militares como os EUA a fim de garantirem a permamência de seus aparatos de repressão e dominação.

A revolta popular no Egito já toma contornos revolucionários a partir do momento em que figuras “representativas” entre os opositores a Mubarak, não são consideradas peças-chave, ou seja, há um levante autônomo das massas, organizado que surge de forma independente a protagonismos sindicais, partidários e/ou indioviduais, como no caso destes personagens.

O Egito insurgente abre uma brecha histórica no presente, assim como ocorre ainda na Grécia, reafirmando os valores da indignação contra toda forma de exploração e opressão, mostrando que o poder popular, indiferente a estratégias específicas, jamais será calado.

Um apelo é feito a todos os árabes a solidarizarem junto às massas egípcias, tunísias, argelinas, marroquinas, líbias, sudanesas, jordanianas a denunciarem os crimes dos seus regimes tirânicos contra seus povos e seus passados, aproveitando os meios disponíveis para organizarem-se na luta do povo. Nem todo árabe é muçulmano, nem todo muçulmano é terrorista, nem toda nação árabe traz em seu cerne o autoritarismo!

Viva a Revolução dos Povos Árabes!