Eduardo Galeano, Uruguai… povo, esporte e identidade!

Nesta mesma hora, os guerreiros charruas estão despojados de suas armaduras celestes de volta à sua terra natal, exatamente a 34° 53′ 01”, na capital mais austral do continente americano. Uma tradição heróica e fantástica, cinematográfica. Essa charmosa cidade concentra dois terços do pequenino país que é o Uruguay, encolhido bravamente entre dois gigantes da América do Sul, Brasil e Argentina. Pelos pampas infinitos verdes recebem um vigoroso clima temperado. Uma tradição que herdou a força e a coragem dos índios charrua, o encanto e a resistência dos negros bantos, somando-se ao caldeirão de etnias européias imigrantes, solidificou-se num fermento característico chamando-se cultura uruguaya. Das batidas de candombe pelas lonjas da Ciudad Vieja, os tambores que se aquecem nas fogueiras nas calçadas em meio aos transeuntes, exibem que as folhas da história devem ser observadas com atenção quando viradas.  Mate na mão, parrilla à espera, um canto de maracanazo ao som das llamadas do candombe, e brigando por sei lá qual razão, mas com um forte abraço amistoso no final, assim se configura a presença sincera de um oriental numa roda qualquer no mundo. Orientales, La Patria o la Muerte!, eles cantam com vontade, para tudo, como se fosse a última vez, e como o ditado brasileiro acrescenta, “não desistem nunca”. É essa interessante semelhança do perfil entre a cultura guerreira uruguaia e aquela da Celeste Olímpica nos gramados. Fundem-se numa só. Ninguém melhor do que o Mestre Galeano para fazer essa análise sociologica do futebol e dos atores que constituem essa paixão mundial, fenomeno a ser mais estudado. Nas semifinais desta Copa do Mundo de 2010, o mundo inteiro viu novamente uma seleção representando nem 3,5 milhões de pessoas, chegando merecidamente ao mostrar que só o “futebol-arte” ou a “futetécnica” não fazem parte do espírito esportivo. Um quadro de jogadores sem muitas estrelas, agora entre os quatros melhores do mundo, e recepções de campeões pela humildade, esforço, valentia e companheirismo mais valorosos do que qualidade e estrelismos a parte. A Celeste chegou a virar o jogo contra a Alemanha, considerada uma das melhores senão a melhor seleção do mundo, num instante em que a garra uruguaia fez a diferença. Iguais a zumbis e exterminadores do futuro, com sangue na cara e punhos cerrados, os orientais deixavam na grama as marcas da tradição Celeste. Sucumbiram ao quarto lugar pelas suas limitações técnicas. Agora na cidade montevideana, olhando para o rio, o seu grande amor, o vento minuano sopra fazendo com que detrás dessas imagens mentais recentes de luta, se possa esquentar a goela mateando e à noite, pelas boêmias cafeterias históricas e iluminadas pelas praças verdes, desafiam um frio caloroso. A seleção foi homenageada por seu povo na tarde de ontem, cerca de 1 milhão de pessoas, emocionadas e enlouquecidas, que recebiam seus herois como campeões e não como semifinalistas.

Pelo orgulho de ser celeste, aqui reescrevo alguns trechos do Professor Galeano:

Mas a verdade é que o nosso país é futebolizado. Os nenês nascem gritando gol. Por isso nossas maternidades são tão barulhentas. O futebol para o uruguaio é uma religião nacional. A única que não tem ateu. Somos poucos: 3,5 milhões. É menos gente do que um bairro de São Paulo. É um país minúsculo. Mas todos futebolizados. Temos um dever de gratidão com o futebol. O Uruguai foi colocado no mapa mundial a partir do bicampeonato olímpico de 1924 e 1928, pelo futebol. Ninguém nos conhecia.

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Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em julho 14, 2010, em Cultura. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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