Arquivo diário: junho 16, 2010

Open Bar: suíte do inferno


Se Dante tivesse coragem de presenciar um open bar do outro lado do balcão, certamente revisaria sua “Divina Comédia”. O Portal do Inferno avisa que toda esperança deve ser deixada para trás, assim como todos os modos comportamentais básicos de sociabilidade, e quer saber, de humanidade. As almas condenadas pelo mundo em fila lotam o prostíbulo que organiza a recepção calorosa. O Portal do Inferno não tem piedade, os guardiões são poucos, já que violência por violência dá na mesma e toda forma de condenação leva à estados alterados de consciência, mesmo que seja no Inferno. Não tem portas nem cadeados, as vitrines das bebidas que se cuidem, e quem entra nunca mais retornará como antes. Nem Dante nem Milton conheceriam as aventuras de vivenciar um Open Bar. O próprio nome diz, “Abertura”, tudo que está livre e de acesso ilimitado. E nós sabemos, depois da meia-noite, as transformações acontecem…

Psicosomaticamente, na chance de querer mais e mais, com hora indeterminada para acabar, deve-se lembrar que este Inferno é apenas uma prévia do outro e real Inferno, algo temporário eu diria, e a alma condenada tende ao suicídio moral – a entrega total aos espíritos imundos de seu inconsciente, os demônios que surgem para tomar o corpo dos coitados. Assim aparecem no balcão, os demônios que vociferam blasfêmias, quebram os pilares, vomitam de suas entranhas suas calamidades, festejam sua comunhão com o Baixíssimo. Mas, como todo lugar no mundo, teoricamente é visto na visão da eterna luta de classes, até no Inferno há desigualdades, e aqui não menos arbitrárias. Ai? “No Inferno também há explorados e exploradores?” Puxa! que coisa infernal!Nem Satã, o príncipe rebelado contra a autoridade conseguiu se desvencilhar das garras da hierarquia trabalhista! Outrora sonho revolucionário, hoje visão dantesca da animalia. Alguém até poderia também dizer que quem serve, serve ao demônio, sinceramente… servido por servido.

O open bar é assim: um inferno dantesco que surge inesperadamente no espaço-tempo entre a consciência semi-desperta e a bestialidade devoradora de sonhos. Alguém poderia simplesmente querer explicar que é um estado de desejo de consumo levado ao extremo. Sim, concordo plenamente, pois acredito piamente que existam dentro do Inferno, não só hierarquias mas também níveis astrais ou reinos diabólicos de acordo com os seus usuários e transeuntes. Dante citou nove círculos, três vales, dez fossos e quatro esferas. Um ser tomado pelo Diabo, pode estar neste exato momento, se deliciando com uma cena na MTV, sentado em sua poltrona dos prazeres, devorando um BigMac.

Não importa qual é a forma nem o lugar que este Portal escolhe aparecer, o que atrai a atenção é o fato de como ele existe e subexiste dentro dos seres que convivem aparentemente lúcidos e saudáveis ao nosso redor.  O mais incrível: não há necessidade de desenhar círculos mágicos ou pronunciar nomes complicadíssimos de livros amarelos, eles simplesmente surgem do nada! Interessante, desde as saturnálias e os bacanais, criados como medidas políticas do coletivo para desafogar as tensões demoníacas do instinto, os seres humanos não conseguiram deixar de esconder suas verdadeiras naturezas, cinicamente… selvagens. Antes, selvagens e com modos primitivos, foram acusados coitados outros seres da mesma espécie, mas mal sabiam que Portais como o Open Bar existiam. Ou sim, desde que inventaram o xamã, com certos procedimentos e táticas diferentes.

É verdadeiramente no Open Bar que o ser humano, o ocidental mais propriamente dito então, mostra sua natureza, e não é somente atrás de sua máscara, ele praticamente despe-se de toda a sua humanidade. Um copo vazio à espera de um líquido lhe dará, ele espera, a vida eterna, mesmo que seja por uma hora. Assim, como que esperando não mais viver do que uma hora, ele, como um copo inteiramente vazio, vaga pelos corredores do Inferno com um copo igualmente vazio, à procura de mais e mais, às vezes não conseguindo juntar todas as taças num amontoado abraço só. Ele sabe que logo findará seu precioso tempo. Nós, do outro lado do balcão, sabemos que é eterno.

“Quanto maior é a sede, maior é o prazer em satisfazê-la.” Purgatório. A Divina Comédia. Dante chamou a sua obra máxima de “Comédia” não por ser engraçada, mas porque no fim de tudo, termina no “paraíso”. Não é divertido?

O Divino Barman, hoje “Brahman” (Brahmane! não Brahma!)
junho 2010, do open bar

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Já deu a sua desacatadinha hoje?


“É quase meia-noite
Algo maligno está espreitando na escuridão”
Thriller – Michael Jackson

Para um simples transeunte que por acaso passasse nas proximidades do Diretório Central dos Estudantes (DCE) na UFSC no dia 12 de maio de 2010, o que se fazia ali poderia ser muita coisa, menos uma reunião com pretensões políticas que afetariam a cidade de Florianópolis nos próximos dias.

O que se via ali era uma assembléia com uma dinâmica caótica, conduzida por pessoas que em sua maioria tinham menos de 25 anos, e que foi finalizada com um ensaio de passinhos baseados na música “Thriller”, de Michael Jackson.

É esta a áurea que se percebe nas assembléias da Frente Única pelo Transporte Público de Florianópolis, que se desenvolvem procurando avaliar os acontecimentos passados e projetando os próximos passos das manifestações contra o aumento de 7,3% no preço da passagem do transporte público da cidade.

As manifestações começaram no dia 8 de maio, e pelo andar da carruagem (ou melhor, do latão), vão se prolongar por mais tempo, já que tanto os empresários que controlam o transporte público, quanto a prefeitura da Capital catarinense, parecem mais empenhados em desmobilizar os protestos do que em encontrar uma solução para sua causa.

Estas tentativas de desmobilização se evidenciam de várias formas, seja na mais básica demonstração de poder repressor da Polícia, até o engendramento de ações judiciais voltadas para os manifestantes, além, é claro, da criminalização do movimento social pela mídia corporativa.

Durante o que pode ter sido o primeiro mês de manifestações, os atos ocorreram todos os dias úteis, com ações descentralizadas (como bicicletadas, teatro de rua e “catracassos” – atividade em que várias pessoas pulam a catraca dos terminais e ônibus sem pagar) nos bairros e manifestações com no mínimo 2.000 e no máximo 6.000 pessoas no centro da cidade, geralmente nas quartas e quintas-feiras. Os finais de semana têm sido usados para se fazer a avaliação e planejamento do movimento, em assembléias que reúnem no mínimo 100 pessoas.

Pique-Esconde

Obviamente, toda esta situação não está sendo bem recebida pelos administradores da cidade, e, consequentemente pela Polícia Militar, cada vez mais impaciente com o fato de ter que brincar de pega-pega com um bando de garotos e garotas pelas ruas da cidade. “Uma mega-operação e ninguém vai preso”, comenta um policial ao colega. “Nenhuma bomba de gás foi lançada, nenhum gás lacrimogêneo” declarou à imprensa o Tenente-coronel Newton Ramlow no dia 27 de maio, durante uma das manifestações no centro.
De fato, coincidentemente com o ano eleitoral, a Polícia Militar (até aquele momento) agiu de forma diferente dos outros anos em que este tipo de manifestação aconteceu. Isso apesar das claras mostras de impaciência dos policiais – “Está olhando o quê? Está olhando o quê?”-, pergunta aos berros um PM montado em sua possante motocicleta, dirigindo-se a um bando de garotos de uns 13 anos, no meio da rua.

A cada manifestação o contingente de PMs, Grupos de Resposta Tática e até Polícia Montada aumenta. São, pelo menos, 550 policiais, cachorros, muitas viaturas e até helicópteros sobrevoando as manifestações, o que provoca uma reação imediata na população de Florianópolis; existem dúvidas se esta é o tratamento adequado, e até mesmo, paradoxalmente, temor em ver tanta força bélica espalhada pelas ruas.