Carta Aberta da Rede de Apoio à Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Não posso esquecer deste documento, que representa um passo à frente na história do anarquismo social hoje no Brasil. Vida longa à FARJ, FAG, FASP, FAU, GEIPA e todos os coletivos e grupos que estão inseridos verdadeiramente nas lutas sociais. E que venha uma Pró-FASC!

Carta Aberta da Rede de Apoio à Federação Anarquista do Rio de Janeiro

“Um projeto de sociedade futura que privilegie a igualdade e a liberdade só pode ser, para nós, o socialismo libertário, que toma forma nas práticas de autogestão e federalismo.”

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Nós, membros da Rede de Apoio da FARJ (Federação Anarquista do Rio de Janeiro), nos reunimos em Florianópolis/SC, durante os dias 07 e 08 de fevereiro de 2009 com o objetivo de realizarmos um encontro para debatermos: 1- militância anarquista e análise da conjuntura local; 2- propostas de contribuições para a FARJ; 3- a propaganda do Anarquismo Social.

Dentre as nossas deliberações, decidimos assumir a ampliação dos nossos compromissos políticos com a organização, reconhecendo sua estrutura por meio dos círculos concêntricos [1]. Estando na Rede Apoio, compreendemos a importância do papel por nós desempenhado ao efetuarmos as tarefas e direcionarmos nossas lutas de acordo com os princípios do Anarquismo Social, que reivindica a história e a tradição do anarquismo a partir da inserção e participação efetiva nas lutas sociais. Com a publicização do presente documento, materializamos nosso desejo de assumirmos publicamente o apoio formal a FARJ, executando também o papel de propagandistas do Anarquismo Organizado e da Revolução Social, indo ao trabalho, como apontou o companheiro Malatesta, na luta junto aos movimentos sociais em todos os momentos de nossas vidas. Dessa forma, afirmamos nossa identidade ideológica, nossa perspectiva organizativa e de atuação social, que tem no programa político da FARJ nossa referência e ponto em comum, não sendo por acaso nossa decisão de participar desta organização.

Nas cidades de Curitiba/PR, Joinville/SC e Florianópolis/SC não existem registros históricos de organizações específicas anarquistas, e até onde sabemos, a militância anarquista iniciada nos fins do século XIX pelos imigrantes europeus, em meio as organizações sindicais, aos poucos se desorganizou e se desarticulou, não sendo hoje, nem sombra da ameaça que já representou ao capital, e nem a esperança de justiça e liberdade que já foi referência para as classes exploradas. Atualmente, e desde os anos da “reabertura democrática” no Brasil, a referência normalmente encontrada nessas cidades é a do Anarquismo Comportamental, defendida e propagandeada pelas correntes identificadas com a contracultura.

De acordo com nosso entendimento, esta corrente se limita a uma rebeldia estética, anti-organizativa e individualista, desconectada de todos os problemas impostos aos seres humanos explorados, e que do ponto de vista e perspectiva do Anarquismo Social, não propõe nenhuma transformação efetiva da sociedade, além de se manter inerte frente aos problemas reais que enxergamos à luz da luta de classes. Com este modelo de anarquismo, nós não compactuamos e não firmamos qualquer compromisso. Achamos necessário dirigir uma crítica fraternal, mas não menos ferrenha a estes companheiros que reivindicam tal referência de anarquismo, pois, no nosso entendimento, suas propostas estão na contramão de nossa rica tradição e história de organização e de participação nas lutas sociais.

Dado o referencial histórico, semelhante nas cidades destacadas, ainda conseguimos visualizar alguns indivíduos e/ou coletivos anarquistas (às vezes somente libertários) inseridos nos movimentos sociais ou parceiros indiretos, que não se articulam e que possuem diferentes pensamentos e práticas ideológicas em torno do Anarquismo. Ao mesmo tempo em que alguns estados do Brasil se fortalecem cada vez mais os grupos especifistas, todos inspirados teoricamente pela FAU (Federação Anarquista Uruguaia), que faz um resgate histórico de lutas sociais como a experiência da Primeira Internacional, do sindicalismo revolucionário, do anarco-comunismo, das Revoluções Mexicana, Russa e Espanhola e das lutas populares na América Latina.

Reivindicamos o Anarquismo Social e a necessidade da Organização Política Anarquista, pois defendemos que é dever de todo anarquista trabalhar com os movimentos sociais, buscando contribuir ao máximo com as lutas pela emancipação dos explorados. Sempre lado a lado com os demais companheiros de outras organizações políticas e dos militantes dos movimentos sociais. Observamos que os grupos especifistas desenvolvem atividades, pesquisam a memória anarquista e aprofundam o estudo teórico, além de se constituírem politicamente como forças sociais sólidas e escolas de formação para a militância anarquista. Sobretudo se apresentam como expressão política dos interesses das classes exploradas tanto a FAU, como a FARJ e a FAG, que são apenas alguns exemplos de Organização Anarquista Especifista.

Neste contexto buscamos contatos e estabelecemos uma relação orgânica com a FARJ. Partindo de que:

“Entendemos o anarquismo como uma ideologia que fornece orientação para a ação no sentido de substituir o capitalismo, o Estado e suas instituições, pelo socialismo libertário – sistema baseado na autogestão e no federalismo -, sem quaisquer pretensões científicas ou proféticas” [2]

O nosso compromisso, a nossa ética e a nossa mobilização estão ligados ao Anarquismo Social, que sustenta:

“Um retorno organizado dos anarquistas à luta de classes, com o objetivo de retomar o que chamamos de vetor social do anarquismo. Acreditamos que é entre as classes exploradas – as maiores vítimas do capitalismo – que o anarquismo tem condições de florescer. Se, como colocou Neno Vasco, devemos buscar jogar as sementes do anarquismo no terreno mais fértil, este terreno é para nós a luta de classes, que se dá nas mobilizações populares e nas lutas sociais.” [3]

Nessa perspectiva, as classes exploradas ainda são submetidas cada vez mais à miséria, fome, falta de trabalho, moradia, terra, educação e saúde, todas orientadas aos interesses das classes dominantes, para o fortalecimento onipresente dos capitalistas. No capitalismo contemporâneo podemos ver uma classe privilegiada e organizada, no momento em que o sistema se caracteriza por uma preponderância da acumulação financeira, amparada no processo de liberalização e desregulamentação dos mercados. A crise atual do capitalismo tem gerado novos graus de endividamento (das famílias, das empresas, dos governos), fruto de uma acumulação em que se reestruturam os modos de produção do capitalismo. É no presente momento que devemos nos focar e analisar os contextos sociais. Há uma precarização do mundo do trabalho, com novas e antigas formas de exploração, pela apropriação da renda dos trabalhadores, além de organizações liberais que atuam politicamente, vinculadas a partidos políticos europeus e norteamericanos. Enquanto isso a esquerda estatista divide o poder com a direita, não só no Brasil, mas também em vários outros lugares do mundo. E isto não representa a construção de um rompimento com o sistema capitalista, como certos partidos socialistas preconizavam, que levem a melhoria das condições de vida de todos os explorados. A despeito de toda a engenharia econômica a qual nós trabalhadores somos cotidianamente submetidos, nos “atrevemos” a denunciar que nossas condições de vida são cada vez piores e sabemos que somos nós que produzimos a riqueza dos quais os capitalistas usufruem.

Mas nós não iremos nos contentar em apenas denunciar todo este processo, longe do cinismo do crítico acomodado e satisfeito em apontar os erros e os limites das práticas alheias, preferimos juntamente a Bakunin, afirmar que “o espírito eterno que destrói e aniquila é insondável e eternamente fonte criativa de toda a vida (…) a paixão pela destruição é também uma paixão criativa” [4]. E assim como Kropotkin, que “odiamos o governo do homem pelo homem e que trabalhamos com todas as nossas forças para destruí-lo (…) mas não é bastante demolir. É preciso também saber construir” [5]. Por isso, nós nos organizamos enquanto classe para mudar radicalmente toda essa “ordem social”. Os movimentos sociais na América Latina têm dado sérias provas disso, sejam eles compostos por estudantes, sem terra, sem teto, desempregados, quilombolas, indígenas e pelos demais trabalhadores.

Esperamos que após longos anos de “inércia dos anarquistas” em nossos estados, possamos finalmente colaborar para que se garantam os princípios básicos que nortearão futuras organizações específicas no Paraná e em Santa Catarina. Entendemos que, com essa prática política poderemos através do trabalho e da defesa das propostas anarquistas, contribuir para os movimentos sociais e a construção da Organização Popular na defesa da Revolução Social.

Considerando essa situação propomos:

1. A realização do 1º Colóquio do Anarquismo Social nas cidades de Florianópolis, Curitiba e Joinville, com a participação da Editora Faísca, da FARJ e da FAG.

2. O estreitamento de laços dos militantes que integram a Rede de Apoio da FARJ com individuos e grupos anarquistas e do movimento social.

Ao trabalho companheiros! A tarefa é grande. Ao trabalho, todos!

Errico Malatesta

Abril de 2009.

Notas:

1. “Os círculos concêntricos têm por objetivo proporcionar um lugar claro para cada um dos militantes e simpatizantes da organização. Além disso, buscam facilitar e potencializar o trabalho social da organização anarquista; e finalmente, estabelecer um fluxo para a captação de novos militantes”. Federação Anarquista do Rio de Janeiro. In: Anarquismo Social e Organização. São Paulo: Faísca Publicações Libertárias, 2009, p. 142.

2. Federação Anarquista do Rio de Janeiro. In: Anarquismo Social e Organização. São Paulo: Faísca Publicações Libertárias, 2009.

3. Idem.

4. BAKUNIN, Mikhail. apud NORTE, Sergio Augusto Queiroz in Bakunin, Sangue, Suor e Barricadas Campinas, SP. Papirus, 1988. p. 28. in BAKUNIN, Mikhail, Selected Writings, por Lehning, New York, Grove Press, 1973, p. 11.

5. KROPOTKIN, Piotr. A Anarquia , Sua Filosofia, Seu Ideal. São Paulo/SP. Editora Imaginário, 2001. p. 64

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Publicado em maio 14, 2010, em Anarquismo Social. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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