à prova da mentalidade policial

Carlos Latuff

Um dos maiores motivos pelos quais podemos temer não é a violência policial/estatal em si, mas a sua naturalização. Lembro-me que há menos de uma década, qualquer fato ligado a um abuso que fora noticiado, tanto pela mídia burguesa quanto pelos meios alternativos, chocavam e permaneciam um determinado espaço de tempo na mente das pessoas.

Santa Catarina, neste aspecto, pode ser considerado o estado em que a Polícia Militar é uma das mais violentas do país, seguido do Rio de Janeiro e São Paulo, que segundo estatísticas da ONG Justiça Global, matam 3,2 pessoas por dia. A rotina da violência exposta diariamente nos meios impressos e nos telejornais caricatos, veículos propagandísticos da Força do Estado,  espelham a cultura da repressão e do autoritarismo, travestido sob o véu da cidadania e segurança social. Estes aparatos ideológicos da midia da força, emprestam com carinho novos termos aos já estigmatizados desde a época da ditadura, como “polícia cidadã”, “guarda municipal” ou “polícia comunitária”, apresentadas como remodelações conceituais.  Uma maquiagem impressionante para a nova cultura do politicamente correto, era do democratismo de massa. A idéia totalitária dessa “unidade social” está ancorada nos meios de reprodução, segundo Pierre Bourdieu, chamado de capital cultural, que lhe servem de suporte, onde as pessoas são condicionadas a pensar e agir segundo tais princípios. Funcionam como indivíduos verdadeiramente autômatos. Althusser e Foucault concordam com a mesma idéia de que teoricamente, todas as estruturas estatais desempenham uma função ideologizante, assim como na própria polícia militar.

Na prática, o policial militar, segundo essa linha, está para assegurar o poder que lhe é legítimo constitucionalmente, porém, enquanto indivíduo, e assim como o cidadão comum, está inserido dentro dos mesmos contextos.  A fundamentação (talvez, fundamentalista) doutrinária do princípio da força autoritária que provém do aparato estatal confere positivamente seu próprio cerne dogmático.  O intervencionismo nos aparatos sociais (democracia, direitos civis, movimentos populares) são geralmente no sentido de punir, fragilizar, escoar e coagir, a presença ou existência de uma outra força que possa supostamente enfrentar a “ideologia  oficial”/dominante. É nesse sentido que se confere uma visão de mundo integrado e justificado, onde a violência policial é vista como positiva e justificável.

Assim, toda vivência empírica policial, pode “explicar” a postura militar enquanto presença da autoridade real. O verdadeiro terrorismo de estado se encontra no microcosmos do cotidiano. A militarização do indivíduo, na questão da estética (uniformes, arquiteturas da dominação), ideológica (gestos de comando e submissão, termos culturais, símbolos de poder, disciplina), instrumentalização (porte de armas, segurança ligada à idéia de potência, organização militar institucional, monopólio da força), converge para o “exercício do dever” e da manutenção do Estado, do bem contra o mal. Estudos da psicologia do trabalho recentes demonstram que um dos principais “motivos” para as truculências policiais são os estados de fadiga e estresse que levam à total estafa. Ou seja, condições de trabalho escassas, situações de risco e o juntamente com o mito do “fazer o bem social”, muito bem encarnados nas representações cinematográficas do bom herói policial, são elementos significativos para uma complexidade da profissão.

No entanto, contrariamente considero que a atividade policial, ou melhor, o homo faber que é duplamente constituído de elementos  subjetivos do meio de trabalho e receptáculo passivo da ideologização, é preponderante no seu resultado final. O que vem antes? Os elementos disciplinadores do trabalho ou a caracterização de um produto oriundo da sociedade do espetáculo? Uma grande teoria ou prolixas pesquisas estatísticas sociológicas e/ou antropológicas com certeza fermentariam um caldo exótico ou, pelo contrário, nos mostrariam confirmados variáveis do senso comum. O que nos diriam os dados sobre a relação de gênero, de classe, de cor e política? Lançar um olhar generalizante e outro microscópico nos dão certos ingredientes sobre o caráter/perfil do indivíduo que “opta” pelo serviço policial, pois por quê ele escolheu, para quê e em quais circunstâncias. Optar é um direito, atuar é um dever.

Recentemente grupos da elite de choque deram palestras à associação de comerciantes da Grande Florianópolis, com um titulo nada menos pretencioso: “Tropa de Elite para os comerciantes”. A tropa de elite, como o mesmo nome diz, identifica uma prática policial como inserção política na vida social. A força, instrumento do monópolio, “emprestada” a uma classe média e alta que tem por tradição conflitar interesses com outras esferas da sociedade, geralmente àquelas menos favorecidas, como periferias e favelas, ou mesmo movimentos trabalhistas e sociais.

Assim, o pensamento universalista do policial está ligado aos padrões monolíticos das ideologias dominantes, potencializadas em seu cerne original individual, a um grau de coletividade, reproduzidas diariamente pelo cinema, mídia e pelo capital cultural, através do “bom herói policial” – the good cop. A caracterização moral da autoridade é atrelada aos exercícios das missões como prova de competência, que o honrarão com glórias e condecorações heróicas. O mais disciplinado soldado, o mais corajoso, o mais apto a enfrentar os desafios (políticos ou não), astuto nas batalhas estratégicas (contra o crime organizado e o mesmo com manifestações populares – o inimigo é o mesmo), são temáticas que acompanham a carreira profissional. Há um culto à virilidade e à força, sendo chamados de “braço forte do Estado”.  Apesar da presença feminina nos quartéis, sua atuação é por vezes desestimulada ou nos casos menos graves, assumem a burocracia dos escritórios. Ela também está condicionada aos papéis do patriarcado, onde a premissa básica é cumprir ordens, um autômato que não pode pensar ou criticar. Que surjam vozes estatísticas para confrontar dados a respeito da “mentalidade” (?) policial e que ponhamo-nas à prova.

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Sobre pmizraji

Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em maio 12, 2010, em Anarquismo Social. Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. Marcelo Duarte

    excelente texto!

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