solidariedade a exarchia

Carlos Latuff

O país que deu origem à democracia representativa prova sua decadência e confirma pela milésima vez que é impossível atingir o grau pleno de sociedade civil por meio do autoritarismo exercido pelo Estado.  Weber mesmo dizia que o Parlamento é a estrutura que melhor se adapta à sociedade burocratizada. O Estado que de nada novo subsiste na Grécia é formado por clãs seculares, véus que escondem  o verdadeiro poder despótico da aristocracia mais reacionária, fundamentada sobre os bancos, sobre a polícia e sobre todo o resto do sistema, por sua vez repartido pelas hienas das dinastias políticas.

O Estado grego divide-se em três clãs: Papandreou (Partido Socialista), Karamanlis e Mitsotakis (ambos conservadores).  Será a Grécia quem enterrará de vez aquilo que criou? Um país que é ovacionado pelo sistema financeiro europeu mal se sustenta pela suas próprias pernas.

O socialismo autoritário do clã de Giorgios Papandreou conseguiu enlaçar um contrato medíocre com  o FMI para não ser excomungado da União Européia e o resultado foi catastrófico. Em 2009, milhares de manifestantes saíram às ruas para protestar contra a política corrupta de mascarar os dados relativos aos seus contratos com o FMI. Em 2010, o governo grego pediu socorro novamente no valor de 45 bilhões. Como forma de exonerar a insustentável dívida, Papandreou incluiu a redução de benefícios para o funcionarismo público, redução de pensões a aposentados, congelamento de salários, 60 anos como idade mínima para aposentadoria, facilitação de demissões, criação de novos tributos, entre outras. Dia 05 de maio (quarta-feira), explode uma greve geral contra as medidas de austeridade.

A crise na Grécia não deve ser considerada como fato isolado. Deve-se levar em conta que a condução de um modelo sócio-econômico amparado por um Estado tirânico é fruto do próprio sistema, ou seja, o capitalismo traz consigo sua própria crise, uma continuação da lógica econômica a todas as dimensões do social, reduzindo-o a um valor de mercado. A Grécia não foi o primeiro nem será o último alarde, isso se repetirá em todos os mercados e sociedades capitalistas.

Ironicamente, um dos primeiros locais “escolhidos” pela policia grega foi um bairro no centro de Atenas chamado Exarchia, conhecido desde o século XIX quando o operariado grego se formou. Ali germinou-se toda uma cadeia de espaços significativos da classe trabalhadora, tanto no meio cultural quanto no meio insurgente. Em 1973, foi construída nesse bairro a Universidade Politécnica de Atenas que passou a reunir toda a estudantina, intelectuais e artistas. No entanto, especialmente Exarchia assumiu uma identidade anarquista qual foi a grande meca para muitos grupos ativistas desde então. No mesmo bairro, está também a sede do governo do Pasok, o Partido Socialista. Estrategicamente, foi o primeiro lugar a ser atacado pelas forças se segurança máxima, destruindo cafés literários, invadindo casas de professores universitários, pulverizando ocupações alternativas e prendendo milhares de estudantes e trabalhadores.

A democracia talvez esteja longe de decrepitar, mas as suas marcas corrosivas estão cada vez mais profundas. Toda solidariedade ao povo da Grécia que resiste com paus, pedras e combate midiático!

só̱sei ton laó eno̱méno!!!

Anúncios

Sobre pmizraji

Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em maio 7, 2010, em Anarquismo Social, Guerrilha Midiática. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: