UMA PERSPECTIVA SOCIOLÓGICA SOBRE ‘AVATAR’ e OS NA’VI MODERNOS

Avançar no processo histórico ou retroceder a este, quando se trata de ficção científica, na maioria dos casos, pode não significar profundas alterações conjunturais. Porém, em determinadas referências, implicar-se-ia em conceitos, chamados “universais”, como neste caso, do filme de James Cameron, “Avatar”, lançado este ano no cinema. Além de toda a sua megaprodução, como é de costume na linha de Cameron, o filme basicamente traz um roteiro simplificado que trata sobre os problemas futuros da humanidade, que esgota seus recursos naturais e passa a colonizar outros lugares no cosmos. Neste caso, o locus escolhido é o planeta Pandora, qual parece possuir uma reserva inestimável de minerais valiosos, altamente requisitados pelos invasores humanos. Em contrapartida, habita um povo nativo, alienígena, intitulado Na’vi (de aspecto humanóide) que povoa uma vasta região coberta por florestas (tropicais) e convive em total harmonia com seu habitat. Dado conflito com essa “tribo”, que prolonga-se uma guerra interminável por conquistas materiais e um genocídio em massa, surge inesperadamente uma nova interação cultural que se faz entre seus membros e alguns humanos. Nada tão diferente do simbolismo cultural que encontramos em “Danza con Lobos” de Kevin Costner, há algumas décadas atrás. O “ser colonizador/invasor”, destruidor de culturas em busca de um idealismo perdido, encontra no seu “oponente”, a figura do outro como estranho/bizarro/primitivo, uma compensação e resgate de valores éticos e/ou morais.

Enfim, não há nada de novo debaixo do roteiro de Cameron, pelo contrário, vimos que através da história do cinema, estórias como esta já existiam, mesmo que o próprio autor tenha um determinado padrão de roteiro, algo como apocalíptico, encontramos um certo pessimismo niilista em relação ao futuro da humanidade. Assim vemos em sua trilogia do “Exterminador do Futuro”, onde o homem perde o controle das máquinas que passam a exterminá-lo furtivamente. Como todo roteiro comercial hollywoodiano necessita de uma trama romântica, aqui não menos, scripts talvez pudessem ser desnecessários, exceto o sentido brutal que certas semelhanças com algumas “tribos humanas” não encontrassem eco aqui.

Esta é uma das implicações mais interessantes em “Avatar”, diferentemente de “Danza con Lobos”, filme mais rústico e direto, onde sobressaem às maravilhosas tecnologias gráficas, que pelo status, garantem pontuar uma nova era no cinema. Choque cultural que encontramos nas disputas por recursos naturais, aqui na Terra, em vista do extrativismo exacerbado herdado pela ordem social progressista contemporânea. No filme, uma grande empresa de mineração busca a todo custo obter o valioso minério com a ajuda de mercenários e um exército oficial, qual não vê razões morais para exterminar os Na’vi presentes na floresta. Para a pesquisa dos recursos biológicos no novo planeta, são enviados cientistas, que realizam estudos acerca de certas propriedades somáticas entre a flora, a fauna e os Na’vi. Os cientistas conseguem criar uma conexão virtual com os Na’vi através de transposições neurais e assim podem infiltrar-se dentro de sua comunidade. Quando um dos soldados, Jake, perde-se numa missão de reconhecimento, passa a contactar mais proximamente essa cultura nativa e interage com ela gradativamente. Muito próximo ao que seria um diário de campo na antropologia perspectivista, ele transcreve registrando as impressões e narrativas com aquele povo.

Os Na’vi tem o diferencial de possuírem um canal de comunicação direta com o seu habitat, a qual eles dão o nome de Eywa. Jake então se torna um “ser Na’vi” quando passa a adequar e conhecer seus costumes e sistema de valores, crenças. A semelhança encontrada no filme, torna em primeiro lugar, o exercício de fazer uma analogia com os povos ameríndios, principalmente aqui da Amazônia. As florestas tropicais, a fauna exótica, mas principalmente a relação do povo nativo com a natureza. Um modo holístico de perceber o sagrado em cada elemento, considerado pelo ocidental moderno como inanimado. Não forçando muito, até os aspectos culturais, vestimentas e acessórios, ritos e crenças, são muito próximos aos índios sul e centroamericanos. Os aspectos sociais, um pajé e um guerreiro, também são quase idênticos ao da maioria das estruturas sociais existentes.

Em vista do progresso iminente do homem, o ataque nuclear surge devastador em todo o território Na’vi. São as conseqüências de um modelo econômico social predominante cujo papel principal é acabar com todos os recursos naturais possíveis, mesmo que tenha de destruir expropriando povos e nações, culturas e meio ambiente. Eis o que podemos recordar dos sérios problemas que atualmente enfrentamos nos territórios indígenas, em suas reservas, graças ao contato com o modo de produção capitalista, que ao longo da história, em todos os continentes, seguiu a linha do genocídio.

Em segundo lugar, um olhar mais atento indica uma ligeira aproximação ao mito do “bom selvagem”. Na teoria rousseauniana, por exemplo, está claro que “selvagem”,  é termo apropriado para designar talvez certas contradições/confusões, em relação a “indígena”. Neste sentido, faz-se a pergunta desde o período clássico grego:  O homem nasce bom ou mau? James Cameron parece se inscrever na segunda opção, ou numa alusão ao mito do “péssimo selvagem”, construindo a imagem do homem que já nasce com o futuro predestinado à autodestruição. Comportamento predatório e parasitário. O detalhe é que em “Avatar”, Cameron cria humanóides e  no “Exterminador…” cria máquinas. Porém, o conceito é o mesmo. Hobbes e talvez Rawls podem se encaixar também na segunda opção, no que se refere ao mito do péssimo selvagem, ou seja, só a civilização pode salvar os seres humanos, se deixados a esmo, sem Estado ou Religião, já teriam entrado em uma guerra fratricida. O mito de herói no filme traz também análises sobre o poder do mito, ou como Campbell diz às vezes um anti-herói. Cameron utiliza desta “simbologia/metáfora” para dizer que os Na’vi são bons? Pudemos estudar as pré-produções, qual verificamos o esforço do diretor em pesquisar com etnomusicólogos a versão xamânica mais próxima ao real, quando cria a cena dos ritos de cura. O filme é preenchido por diversas metáforas, mesmo que generalizantes. Essas conectividades holísticas poderiam ser traduzidas pelas novas ordens de consciência ambiental ou psicofísica.

Mas não desmerecendo Cameron, o filme é bom e contrário à críticas, ele pode sim levar a reflexões interessantes sobre o que podemos optar ou não de fazer.  Vale a pena assistir com os olhos atentos e verificar que nem sempre o lugar de discussão se faz na teoria, mas na prática, como por exemplo, o “protesto Na’vi” dos palestinos em frente ao Muro do Apartheid em Gaza.

http://www.telegraph.co.uk/news/picturegalleries/worldnews/7222508/Palestinians-dressed-as-the-Navi-from-the-film-Avatar-stage-a-protest-against-Israels-separation-barrier.html

Fonte: Pablo Mizraji

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Sobre pmizraji

Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em abril 14, 2010, em Cultura. Adicione o link aos favoritos. 4 Comentários.

  1. Ginga Vasconcelos

    Bem legal, Pablo. Embora eu já tivesse visto esta discussão antes, da nossa mesa de café, gostei muito de vê-la aqui publicada e adorei a comparação com o “protesto palestino”. Mas talvez – e só para dar “pitaco” mesmo, a Conferência na Bolívia (que é o “post” posterior) tenha mais a ver com Na’vi do que a própria situação palestina.

    • É certo que sim! A maior parte das “conclusões tiradas” para uma publicação são frutos de discussões conjuntas, ainda mais quando se tratam de mesas domiciliares… Devo a você exclusivamente estas análises que sem autenticidade sua não haveria palavreado crítico assim.

      beijos

  2. Adorei o q postou e acredito que a humanidade se torna cada vez mais desumana, e pior que isso não consegue enxergar que está acontecendo, tal qual nos tempos de colonização. Mas hoje essa “colonização” não se faz de forma fisica violenta, mas sim de uma violenta forma de mudar opiniões de paises inteiros ou culturas inteiras, alegando ser assim o progresso é assim que paises ricos futuramente devem agir, massacrando sua cultura e homogeneizando seus pensamentos.

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