O Santo Cabresto II

Florianópolis/SC, 22 de Abril de 2004
Todos os ibopes confirmam: em 50 anos, os evangélicos serão a maioria no Brasil, se for seguir a porcentagem anual de conversões em templos e igrejas protestantes, e isso não somente é um dado estatístico para a religião como também sócio-político, dando lugar a uma nova era de conceitos tanto filosóficos quanto culturais.
O fiel, envolvido inteiramente na sua crença de “unidade político-religiosa”, acredita que o mundo a sua volta deve fazer parte das suas condutas de purificação, e portanto, tendo de “esterilizar” as impurezas contidas nele. Não existe, neste conceito, uma análise crítica sem teoria bíblica estereotipada. Os militantes, atraídos pelos cultos repletos de milhares de milhares de crentes, tendem a se envolver nos projetos sob a bandeira da “assistência social”. Ou seja, com a camada mais baixa e mais mal-informada da população. Este tipo de caridade solidária diverge em grande parte ao tipo original de caridade imposto por outras religiões como o budismo, por exemplo.
Proliferando-se nessas áreas, em que o indivíduo jamais terá uma educação e conseqüentemente, com falta de informação, os novos avatares da religião da compaixão mais uma vez abraçarão a conquista dos infiéis e enaltecendo as mais férteis e criativas imagens do inferno e de seus derivados. Enquanto a Igreja Católica recua no campo de batalha, no front, os evangélicos assumem uma postura cada vez mais agressiva e sem limites, tanto éticos quanto morais – vide o caso do espancamento de uma senhora até o estado de coma num culto de exorcismo sob a acusação de “estar sendo lubridiada pelo demônio” (sic), assim como inúmeros outros casos de indenizações.
Essas indenizações, de fato, não fazem sequer cócegas no orçamento da empresa de Deus e isso justifica o crescente índice de igrejas entre as regiões mais pobres do Brasil.
Hoje, são 29 milhões de evangélicos, o dobro há 15 anos. A previsão de novos templos até 2010, é de mais de 150.000 em todo o Brasil. Seguindo as estatísticas da SEPAL, o crescimento populacional revela que mais da metade dos brasileiros serão evangélicos, mudando radicalmente a pirâmide social do “país mais católico do mundo.”Dúvidas? Basta apenas lembrar que numa passeata ou reunião de evangélicos reúne cerca de 350 mil pessoas somente com um estalar de dedos do pastor, seja para a gravação de um cd gospel ou para uma “intifada” contra a sociedade pecaminosa.
Por que a “religião que prega a prosperidade como prerrogativa para a salvação” atrai tantos empresários e pessoas de alta classe, como vemos ultimamente, eliminando de vez que a igreja de deus foi fundada para os pobres? Será tudo isso os caminhos da verdade realmente se vingando da classe proletária ou somente mais uma forma de “alfabetização bíblica” de infiéis num país tão marcado por diferenças culturais e religiosas, que acaba cedendo espaço democraticamente para um golpe político – vide “Cabresto I” sobre os políticos na religião ou vice-versa.
Eleição a eleição, o poder cresce nas mãos dos mensageiros de Deus e com isso seu número de fiéis. A diferença é risível entre as duas mães do poder: enquanto a Igreja Católica chama um fiel de “um em um milhão”, a protestante chama o indivíduo de “irmão”, assim ganhando auto-estima e uma identidade aparente. Marketing? Orgulho? Humildade?
“As pessoas se identificam conosco porque somos iguais a eles. Temos mulher, filhos, temos uma profissão, vivemos os problemas que eles vivem e isso nos aproxima”, afirma o bispo, referindo-se aos padres que legitimamente têm parado no tempo sob o manto do tradicionalismo de seus dogmas imutáveis.
O jogo de interesses e de arrebanhar ovelhas, ganha especulação internacional, sobretudo nas universidades norte-americanas, nas quais a prática de contato com o público virou assunto de tese! “Queremos apenas evangelizar deixando de lado essas coisas ligadas ao costume das pessoas”.
artigo publicado no www.sarcastico.com.br
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Publicado em maio 1, 2009, em Ruminantes da República. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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