Novas Colônias, Antigos Negócios – Parte Um – Colunas – Venus Genetrix

Florianópolis/SC, 02 de Maio de 2007
O mecanismo é o mesmo: conquista-se a ferro e a fogo, ou a cruz e a espada, usurpam e acometem genocídios, antes em nome do Capital e do Senhor, hoje em nome da Democracia e da Liberdade
Haiti, Iraque, Bosnia Herzegovina, Mexico, El Salvador, Guatemala, Colômbia, Mayotte, Ilhas Mascarenhas, Eritreia, Somalilândia, Saint Martin, Guiana Francesa, Guadalupe, Dominica, Antígua e Barbuda, Martinica, Porto Rico, Bahamas, Barbados, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Panamá, Suriname, Bermuda, Ilhas Caymans, Afeganistão, Arábia Saudita, Kwait, Austrália, Nova Zelândia, Timor-Leste, Cisjordânia, Chagos… ufa! Tantos lugares ao sol e tantos nomes por nós “desconhecidos”, mas não para os povos esquecidos.

O Afeganistão, por exemplo, antiga terra da arte gandhara ou, em outros tempos, a “rota da seda”, foi arrasado em nome de grandes mentiras. Em suma, todos os projetos norte-americanos de “apoio” à instalação de reformas administrativas democráticas no novo mosaico, do que chamaremos aqui de neocolonialismo, já receberam amplas críticas da comunidade internacional. As palavras “imperialismo” e “colonialismo” têm virado ultimamente, noções rudimentares que vão desde discursos clichês inflamados até sinônimo de propaganda. Na verdade, quanto mais republicanos e democratas tentam a todo custo embainharem suas espadas e incentivar um formal aperto de mãos, mais explicações teóricas terão de fazer para atestarem que estão sendo pacifistas e sérios negociadores. Paz não é bem uma palavra que condiz com o histórico de crimes contra a humanidade em espantosa escala. Modelos e contratos baratos.

Os projetos com intento de democratizar, humanizar e civilizar levando a bandeira da modernização, totalmente na medida de valores ocidentais, estão sendo julgados in strictu sensu, agora pelo novo agente social, as próprias pessoas dos lugares ocupados. Estas pessoas sempre representaram números para as coroas. Hoje, vemos uma discreta diferença. Vemos claramente quando nos deparamos com noticiários de guerra ou imposições totalitárias em acordos diplomáticos suspeitos. Em todas as nações que houve invasões legitimizadas por outras nações de uma conhecida organização internacional e outras não-oficiais, foram mais cedo ou mais tarde, repudiadas pelo impositivo esforço de aculturá-las para fora do seio natural.

As descolonizações só serviram para ilustrar novas páginas de nossos livros de atlas geopolíticos, em escolas de segundo grau e cursinhos preparatórios. De todas as antigas colônias, nenhuma delas, sem exceção, adotaram o modelo padrão de independência sócio-econômica prometidas por seus algozes. A mudança de um estado protetorado ou associado (num termo mais simpático) para um estado democrático parlamentar ou republicano não difere nos interesses alheios entre as concessões milionárias que costumam angariar tempos antes da sinistra revolução pela independência. Esses países ficarão eternos devedores e presos a uma culpa divina. Mas há casos de inversão, como por exemplo, Ruanda, que logo após a Segunda Guerra Mundial, tornou-se novamente protetorado da Bélgica, legitimizado pelas Nações Unidas, como autoridade administrativa.

O Estado Livre Associado de Porto Rico é um aglomerado de pequenas ilhas que se encontram nos mares do Caribe, sob os braços elásticos do Tio Sam. Outro exemplo. Estado Livre, Protetorado, Livre Associado… não são títulos que possam realmente desonrar um povo que possui suas próprias identidades sociais e culturais? O mecanismo é o mesmo: conquista-se a ferro e a fogo, ou a cruz e a espada, usurpam e acometem genocídios, antes em nome do Capital e do Senhor, hoje em nome da Democracia e da Liberdade, para depois aprisioná-los em eternas cadeias de dívidas que jamais serão compensadas. Eis a nova ordem mundial. Nada diferente do antigo colonialismo. O Grande Satã sempre esteve vivo e continua mais forte a cada dia.

No século XIX, a Europa deu início a uma escalada de política colonialista sem precedentes. Potências industriais tomaram o lucrativo rumo às Índias, África e América, exercendo total influência, por baixo custo, para que o novo modelo se adaptasse rapidamente às suas condições. Pequenas colônias, grandes negócios. Trusts (oligopólios), holdings (centralizadores), aparatos para a incrementação do novo território anexado, imperializado.

Neste século, as fronteiras desrespeitaram tratados de paz entre os povos que antes haviam se combatido, aumentando a tensão entre eles. Linhas imaginárias na força do lápis foram rasgando identidades étnicas e culturais pré-estabelecidas. As invasões ilegítimas do imperialismo, talvez tenham sido piores as suas conseqüências, agravaram lutas sociais internas sangrentas.

Imperialismo como política de expansão, domínio territorial e cultural. Etnocentrismo levado às avessas, margem suscetível para a expropriação das identidades e para o preconceito racial. Em face da teoria evolucionista de que povos superiores exercem hegemonia sobre outros “aculturados” descenderá inúmeros equívocos e interpretações tendenciosas para posteriormente legitimizar intervenções em nome da liberdade e do progresso. Os meios de comunicação de massa farão o outro papel da nova ordem: a mídia voltada para testemunhar e confirmar as intenções ocultas das propagandas armamentícias.

Filmes, modismos, músicas, expressões linguísticas, cultura alimentar, produtos importados em geral, são algumas lembranças de que essa questão de imperialismo cultural é um grande negócio. Quando a cultura local já é suficientemente forte para poder resistir a uma invasão alienígena, não estará completamente protegida dos efeitos globalizantes. Então, como acontece a la praxis, vêem-se os indivíduos organizarem boicotes contra produtos importados, governos injetando mais força na indústria para gerar uma pretensa atmosfera de nacionalização, e o simples acomodamento político, o “neutro” ou “apolítico”. Fala-se em proibir no dia-a-dia as palavras “religião” e “política”. Senhor e Capital novamente. Tudo se repete, as roupas são usadas e lavadas continuamente. Os povos sofrem a globalização ou colonialismo desde tempos remotos.

artigo publicado no www.sarcastico.com.br
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Publicado em maio 1, 2009, em Colunas - Venus Genetrix. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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