Liberdade e Libertinagem, abrem as asas sobre nós – Colunas – Venus Genetrix

Relatos de uma noite no sofá

Florianópolis/SC, 04 de Fevereiro de 2008

Festa da Carne. Nada mais há para ser dito e re-escrito. Todo mundo sabe que o carnaval vem de origens remotas. Todo mundo algum dia já “pulou” carnaval, bem ou mal. Todo mundo já fez críticas, brandas e severas, a essa “liberdade condicional”, seja por via digital ou mesmo jogando tomates um na cara do outro. Essa tradição de extrapolar os sentidos num determinado período já teve seus defensores. Os mais cúmplices insinuam necessidades psicológicas que o ser humano deve possuir ou alimentar, para satisfazer seus apetites mais libidinosos. Corrente a esse pensamento, mais ou menos, é também parceira a Igreja Romana. As pessoas, na antiguidade, usavam máscaras e disfarces simbolizando a inexistência de classes sociais. Logo depois, vieram os gregos e romanos e essa separação da sociedade em classes, fazia com que houvesse aquela necessidade de “válvulas de escape”. Somos estranhos. Ou isso pode soar estranho.

Das saturnalias e bacanais do decadente Império Romano finalmente ele chega como Carnavale em Veneza para, então, se espalhar pelo mundo. A Igreja Católica oficializa a festa, em 590 d.C., pois não era mais possível proibi-lo. Só em 1545, no Concílio de Trento, que o Carnaval é reconhecido como uma “manifestação popular de rua”.

Somos levados a crer em tudo isso também. Mas acredito que somos também obrigados a viver numa falta absoluta de sentido, dos mesmos sentidos. Fazendo coro com Roberto DaMatta, quando diz que a utopia da ausência de miséria e corrupção é tão degradante quanto a própria miséria. E mais ainda. A idéia de reverter todos os padrões estabelecidos, na inversão de valores, sejam de castas, classes, papéis de gênero, é absolutamente distorcida. Em relação direta disso, tem o papel arcaico do Estado e da Igreja. Digamos que o pão e circo é um modelo de reprodução incontesti na fase histórica humana. Os excessos das classes abastadas transfere-se em 5 dias para as classes menos abastadas. Humaniza-se, como o Natal e a Páscoa, os sentimentos de compaixão, prazer, igualdade e felicidade.

Mas infelizmente, não era esta a intenção do artigo. O carnaval tem suas nuances multifacetadas. A mesma cachaça fará efeitos muito díspares em diversas cabeças. Não pude também deixar de notar neste final de semana festivo algumas implicações, no mínimo interessantes, assistindo alguns desfiles. Ligo a TV e ouço um grito: “Fala X9!” Levo em consideração que respeitar o nome de entidades seja sério, mas neste caso… Dependendo do lugar e da situação, se você disser que é um X9, você morre. Assim como outras: “Sabe o que diferia nas classes sociais gregas? O cabelo! Por isso vem representada a Mafalda!”; ou melhor ainda, “Essa ala representa a guarda imperial da revolução farroupilha em Palhoça”…

Obs: X9 é uma gíria carioca que representa aquela pessoa da qual trabalha para a polícia diretamente ou indiretamente, ou seja, pode ser um policial infiltrado em uma organização, ou mesmo um informante, o chamado “dado-duro”.

Prestei mais atenção no desfile e reparei que um dos carros alegóricos se chamava “Favela em Chamas”, onde figuravam crianças (negras) com roupas propositalmente esfarrapadas que sambavam em cima de barracos simulando estarem pegando fogo. Havia um menino, parecia manequim, que estava jogado numa escadaria como se tivesse sido morto a tiros. Não lembro do sangue. O pior ainda, além de ultrajante cena, era o comentário do narrador, explicando que a tal escola se utilizava desse argumento “porque favela, hoje em dia, virou moda!”

Talvez o papel que me prestei a anotar essas asneiras ao vivo fosse tão interessante quanto apenas a assistir o espetáculo. Logo atrás, vinha um outro carro, com a seguinte configuração: uma coroa verde-amarela enorme com uma mulher de destaque dentro; havia simetria em todo o aparato; o nome do carro era “O Exemplo”. Formidável! Nada mais a esperar do que esse enredo! Um carro que representa a periferia que vem controlado pela Coroa Monárquica como um “exemplo” a ser seguido.

Os sambas enredos, na maioria das vezes, pareciam ser mais auto-proclamantes do que difusores culturais. Já o carro do “Cinismo” era representado por uma Coruja Presidencial. Isso mesmo. Um alegórico portando um símbolo das Ciências Sociais com a faixa presidencial cheia de universitários (vestidos de toga, os cínicos). Adiante encontramos a “Favela Branca”, ou seja, a “favela qualidade de vida”, segundo o próprio narrador. Era um carro onde apareciam barracos pintados de branco e pessoas bem vestidas. Muitas vezes, ao ligarmos o santo aparelho de televisão, desligamos ou deixamos de lado nossos sensores ideológicos, mas desta vez foi complicado. Não sou crítico de carnaval e nem o seria se pudesse. Porém, assistir de camarote ao desfile da direita esbravejante como se tudo aquilo fosse mais uma festa no ano, só poderia esperar algo do tipo “Unidos do Movimento Cansei!”.

E nada tão didático para nossos filhos como mostrar o “pioneirismo” bandeirante num cortejo abre-alas com índios e panteras negras! Sem comentários!

artigo publicado no www.sarcastico.com.br

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Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em maio 1, 2009, em Colunas - Venus Genetrix. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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