Globo e Aracruz Celulose: Imagine o que tem tudo a ver… – Colunas – Venus Genetrix

“Celulose no folhetim da nova novela das 20hs da Globo”

Texto: Pablo Mizraji Foto: Montagem de Skárnio (“Homenaje Dadá” de El Tecnorrante – Flickr) Florianópolis/SC, 03 de junho de 2008

Essa era a manchete fresca que eu recebia na manhã de sábado das listas dos profissionais da comunicação engajados com a luta pela democratização e ética na TV. Não satisfeito e nem um pouco surpreso por tal notícia, resolvi pesquisar o “caso” para além das paredes acadêmicas e abafadas da antropologia que estuda a questão indígena há décadas, assim como os problemas de autodeterminação dos povos, propriedade de terras, exclusão social, etc. Enquanto um lado se ocupa das problemáticas dos elementos étnicos, sociais e econômicos, o outro lado tende à simples atuação incisiva, ou seja, o jornalismo investigativo oferece dentro de suas limitações panoramas chaves, tempo-real.
Meus colegas das Sociais talvez não entendam o que quero dizer e devem me crucificar, mas saber divagar e entrar no dilema entre a teorização e o exercício empírico do objeto é antes de tudo, uma arte. João Emanuel Carneiro, é o escritor da nova novela das oito, intitulada “A Favorita”. pela Rede Globo. A princípio, mais uma no histórico das centenas de telenovelas brasileiras. A anterior, que será substituída, “Duas Caras” de Agnaldo Silva, já se adiantava em alguns pontos polêmicos na roteirização, como por exemplo, a propaganda gratuita da precarização do ensino público enquanto instituição, a depreciação das atividades das ONG’s e dos movimentos sociais, a maquiagem social e radicalização de classe, urbanização como limpeza higienização, e outros tantos elementos críticos que a própria classificação indicativa muitas vezes fora simplesmente burlada.
Apesar disso, o número de atores e atrizes negr@s na novela deixa claro a intenção de tentar “popularizar” ou ainda pluralizar a representação do contexto real da sociedade. A primeira chamada da novela, no folhetim, as personagens principais interpretadas por Claudia Raia e Patrícia Pillar (lembrando, mulher de Ciro Gomes), mostra a disputa entre essas duas herdeiras pelo império de papel e celulose. Há uma grande especulação em torno do “papel” dos patrocinadores da novela, já que se trata da indústria papeleira, já se afirma que a Aracruz Papel e Celulose seja uma das maiores beneméritas no enredo.
Segundo a CBM (Comunidades de Base Mineiras) por onde a notícia teria se espalhado, a novela será patrocinada pela própria Aracruz Celulose, Suzando e Votorantim. Na festa de lançamento, no final de maio, as empresas prepararam a decoração com tudo que fosse de eucalipto. A novela ainda terá direito a cenas externas em laboratórios de mudas e em áreas com plantações, ainda não definidas, no estado de Espírito Santo ou Rio Grande do Sul. Tendo em vista que o folhetim das 20hs vai se tratar de disputa por herança e geralmente as novelas de “horário nobre” batem recordes de audiência no IBOPE pelos temas abordados é uma ótima divulgação para que o eucalipto seja colocado muito acima das discussões atuais.
Nas sinopses aparecem cenas de ocupações em áreas de eucalipto (e também a reação da polícia) e com direito a cenas gravadas na preparação da celulose na fábrica, ainda não definido quando vai ao ar. A página da novela ainda não está disponivel no site da Globo, mas assim que anunciarem os capítulos finais da atual novela, estará disponível no sitio www.globo.com/afavorita.
Para quem desconhece as recentes polêmicas causadas pela empresa Aracruz, principalmente no estado do ES, devem atentar para uma reflexão crítica, desde que mais uma vez e freqüentemente, a Rede Globo, além de ser subserviente dos interesses empresariais, traz consigo elementos formatados de ordem ideológica evidente para fortalecimento de um senso comum indiscutível.
A Aracruz vem usando a mídia e outdoors para voltar a população contra comunidades indígenas. Cheira a “cara de pau”: “A Aracruz trouxe o progresso. A Funai, os índios”. Espalhando frases como estas em outdoors pelo Espírito Santo, a multinacional Aracruz Celulose espera ter apoio da população para impedir a demarcação de 11 mil hectares como terras indígenas. O ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos assinaria uma portaria que declarasse a área de propriedade das comunidades Tupinikim e Guarani, acusadas pela Aracruz de não serem índios e índias de verdade. Falta Jimo.
Um exemplo disso é a nota do “empresário e escritor” Carlos Lindenberg Filho, um dos diretores da Rede Gazeta, uma subsidiária da Rede Globo no Espírito Santo. A multinacional também conseguiu apoio de seus funcionários por meio de ameaças de desemprego indiretas e apoio da população do município de Aracruz, que agora reage com medo de supostos saques e violência por partes de indígenas. É bem conhecido os trâmites violentos envolvendo a Rede Gazeta com movimentos sociais, como o MST, a Via Campesina, comunidades quilombolas e indígenas. Na verdade, a empresa que se diz 100% nacional, é branqueada e subsidiária pela multinacional Lorentzen, pertencente a família real norueguesa, o que nos faz relembrar um caso recente do empresário sueco Johannes Eliasch. Como líder mundial no mercado, ocupa 220 mil hectares de Mata Atlântica para o plantio de eucalipto. Ainda é acusada pelo Ministério Público de causar inúmeros danos ambientais, secando rios e doenças respiratórias em crianças indígenas.
O que possivelmente a novela vem a mostrar ou camuflar é o debate sobre o assunto. Os vídeos institucionais da Aracruz (disponíveis no Youtube) mostram algumas de nossas celebridades que enbandeiram a campanha de boas ações no deserto verde, tais como Seu jorge, Bernardo Rezende (o Bernardinho), Daiane dos Santos, Acelino “Popó” Freitas, Robert Scheidt, Marcos Pontes e Pelé. Para alguns que não se lembram, durante os jogos da Copa do Mundo (2006), a Aracruz disponibilizava um comercial com esses artistas e esportistas caracterizando o slogan: “É a Aracruz fazendo um bonito papel lá fora”.
A Aracruz que produz mudas clonadas em laboratório, em terras brasileiras para exportar 99% de sua produção para absorventes femininos, fraldas e lencinhos de nariz europeus estreiará com charme e bom gosto na nova novela. Essa notícia pode não ser de todo especulativa, mas o “papel” das novelas, em geral da Globo, a serviço das multinacionais, é factual e antigo.Informações científicas sobre os danos causados pelo plantio de eucalipto:Por Simone Batista Ferreira, autora da dissertação “Da fartura à escassez: a agroindústria de celulose e o fim dos territórios comunais no Extremo Norte do Espírito Santo” (2002). Sobre o equívoco de achar que a “plantação” de eucaliptos não representa uma destruição, segue uma explicação científica sobre a prática:”Como são espécies originariamente exóticas ao habitat onde foram implantadas, os diversos tipos de eucalipto não possuem defesas biológicas próprias às pragas e perdem espaço às ervas e plantas nativas da floresta tropical.
Então, para que haja produtividade, as empresas se utilizam de alguns tipos de herbicidas – que proíbem o nascer das plantas nativas, que podem matar a muda do eucalipto, principalmente enquanto ela está pequena; inseticidas para formigas e cupins – cuja população aumentou assustadoramente, devido à inexistência atual de seus predadores, como os tamanduás; corretivos da acidez do solo e outros agrotóxicos. O uso destes agrotóxicos em grande quantidade destrói a vida biológica do solo, componente fundamental da sua fertilidade. Além disso, contamina os cursos d’água, comprometendo a saúde das famílias rurais e inviabilizando a reprodução de peixes.
É importante salientar, ainda, que no Espírito Santo, a monocultura se estabeleceu sobre o antigo espaço da floresta tropical, em grande parte derrubada por 2 tratores de esteira ligados por uma corrente, o “correntão”, símbolo do desmatamento que povoa a memória dos moradores locais. Atualmente, o sul da Bahia vem conhecendo um processo semelhante. Após derrubadas as árvores e esmagados os animais que não conseguiam fugir, ateava-se fogo nos restos da floresta e iniciava-se o plantio. Algumas obras de terraplanagem foram feitas para garantir uma maior área de plantio contígua aos cursos d’água, assim como drenagens em lagoas. Estas obras carrearam uma grande quantidade de sedimentos para dentro dos córregos e lagoas.
Outra obra foi a construção e ampliação das estradas estaduais e vicinais, que colocaram manilhas sobre os córregos, no lugar das antigas pontes de madeira. Muitas vezes, estas manilhas não dão vazão suficiente ao curso d’água, principalmente no período de estiagem, provocando a falta de oxigenação.
Os plantios desrespeitaram a legislação ambiental da época – Novo Código Florestal – Lei 4.771/65 – e foram implantados sobre nascentes, cabeceiras, às margens de lagoas e córregos, dentro de zonas de recarga hídrica, todas situações que evidenciam Áreas de Preservação Permanente, segundo a citada Lei. Atualmente, no período das chuvas, quando o lençol freático recebe mais água, muitas destas nascentes e lagoas afloram e testemunham a destruição do ecossistema (como pode ser verificado nas fotos). Este fator também responde pela carência de água que estas regiões sofrem em alguns momentos do ano, uma vez que diversos cursos d’água estão comprometidos na sua função de manter o fluxo para os rios maiores”.
Segundo a revista do Idec quanto à produção do papel, para produzir 1 tonelada de papel são necessárias 2 a 3 toneladas de madeira, uma grande quantidade de água e um consumo de muita energia (está em quinto lugar na lista das que mais consomem energia). O uso de produtos químicos altamente tóxicos na separação e no branqueamento da celulose também representa um sério risco para a saúde humana e para o meio ambiente – comprometendo a qualidade da água, do solo e dos alimentos.
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Publicado em maio 1, 2009, em Colunas - Venus Genetrix. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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