Enquanto isso no Dia da África… – Colunas – Venus Genetrix

Florianópolis/SC, 25 de Maio de 2007
25 de maio de 1963. Líderes africanos se reuniam contra a colonização e exploração de países ricos em seu continente

25 de maio de 1963. Líderes africanos se reuniam contra a colonização e exploração de países ricos em seu continente. Inúmeros sinônimos são dados todas as décadas, como liberalismo, mercantilismo, neoliberalismo, “partilha da África”, imperialismo, colonialismo, porém, por mais que as palavras mudem, seu significado pragmático continua o mesmo: injustiça social. Por séculos, o povo africano vê levantarem-se bandeiras e trincheiras, vê navios aportarem em suas costas, levando toda a riqueza da terra, vê missionários com suas bíblias em línguas estranhas, pregando cruzes de além-mar, sangue… muito sangue derramado baixo correntes.
Numa sala de escritório em Adis Abeba, capital da Etiópia, é formada a Organização da Unidade Africana. Um dia que foi proclamado como Dia da África, onde o combate por sua independência e emancipação tornou-se visível para todas as lentes vigentes no outro lado do mundo, até então distante. A criação deste núcleo que serviu como porta-voz oficial das denúncias ocorridas em território africano, respondeu a altura àqueles que pensavam que a África estaria definitivamente condenada ao esquecimento. Se soubéssemos ter um pouco de bom senso, veríamos indiscutivelmente que os filhos da Mãe África sempre sobreviveram a condições hostis e foram incríveis exemplos de resistência no exílio de suas pátrias. Que dirá do povo, cientificamente falando, mais antigo da humanidade?
Mas o recado que nossos irmãos africanos nos ensinam é que a liberdade tem sim um custo, e é muito alto. É para seus futuros filhos que as mentes esclarecidas se dirigem. A libertação do jugo que arrastou mais da metade da população para o sofrimento, exílio e apartheid, continua a deixar profundas cicatrizes nas páginas recentes da história. Deixados à mercê por aqueles que antes foram seus algozes, dando de ombros à suas baratas imitações democráticas, os dirigentes africanos tomaram do modernismo ocidental o pior dos remédios: a prática do autoritarismo. Afundados pela inércia de órgãos incompetentes de ajuda humanitária, os governos caíram em conflitos internos beirando á insanidade, muito além dos seus tutores do Velho Mundo. Os golpes de estado, genocídios e corrupções têm sido até hoje, práticas naturalizadas.
Os europeus deixaram para trás, não somente estragos geográficos, mas também, dívidas incompensáveis. Sem recursos financeiros, ou melhor, sem os cofres que estão na mão de multinacionais e pequenos grupos oligárquicos, os países mais pobres do mundo engrossam as filas de doentes em busca de salvação.
Doenças epidêmicas como a AIDS matam, por dia, quase 1000 pessoas só na África do Sul. Dados das estatísticas da própria UNICEF, em dezembro de 2006. Menos da metade das crianças e jovens de 15 anos naquele país, chegará aos 60, em razão da contaminação do HIV, ou seja, 1,4 mil são infectados todos os dias. Este levantamento é realizado a cada dois anos e é utilizado para analisar o impacto da doença, que leva o ranking de 2/3 dos portadores do vírus, serem africanos. Sem assistência médica ou tratamentos de saneamento básico, famílias inteiras estão comprometidas ao acaso, onde geralmente, as mais vulneráveis são crianças, que a cada dia morrem, numa escala assombrosa.
O PIB, na soma total da África, varia entre 0,8 e 1% do PIB mundial, sendo que o continente participa de apenas 2% das transações comerciais que acontecem no mundo. Isto quer dizer que cerca de 260 dos 783 milhões de habitantes da África vivem com menos de 1 dólar por dia, muito abaixo do nível de pobreza definido pelo Banco Mundial.
Vimos recentemente, grandes eventos e showmícios de popstars da mídia utilizarem da imagem para supostamente “arrecadar” fundos para os países endividados. Boas performances. Boas vendas de discos. No centro das idéias e audiências, a cúpula do G8 assume o papel de angariar projetos beneficentes com governos africanos… desde então, 350 mil crianças já morreram.
Democratas e republicanos se degladiam num combate cínico sob escritórios envidraçados, o big brother das vitrines corporativas, enquanto isso, o pretexto de visitar a América Latina em busca de possíveis soluções para o perigoso ouro negro, transforma-se em fábula.
A U.S. European Command, com base na Alemanha, responsável pelas operações militares americanas na África Sul-Saariana, ou seja, a África Negra, aumentou drasticamente suas atividades na costa ocidental, priorizando as regiões que produzem petróleo. O Comando Europeu dos militares americanos agora dedica 70% do seu precioso tempo para “assuntos africanos”.
Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations (Conselho de Relações Externas), no seu prefácio ao relatório de 2005 intitulado More Than Humanitarianism (Mais que Humanitarismo) avisa: “No fim da década, a África sub-saariana provavelmente tornar-se-á tão importante como fonte de importações energéticas americanas quanto o Médio Oriente”.
Lembrando que a África Ocidental compreende uns 60 mil milhões de barris de reservas provadas de petróleo. A Nigéria, país ainda em desenvolvimento progressivo, já abastece os Estados Unidos com 10% do sua capacidade. Angola vem atrás com 4% das importações. Outros países concorrem na fila do pão pela expansão da produção petrolífera como Guiné Equatorial, São Tomé e Príncipe, Gabão, Camarões e Chad. A Mauritânia, por exemplo, está destinada a emergir como exportador de petróleo em 2008. Já o Sudão, delimitado pelo Mar Vermelho, é um importante produtor de petróleo.
Novas operações tramitam na Casa Branca para reter ao máximo o pouco que resta deste continente. O Império tem o potencial para explorar a parte sul do Sudão, pois é ali que se encontra a maior reserva do petróleo daquela região. A Operação Flintlock, é o primeiro exercício militar na costa ocidental que em 2005, incorporou 1000 forças especiais, com a justificativa conhecida de combater o terrorismo, mesmo que seja, numa região inóspita como o deserto do Sahel, sul do Saara.
Infelizmente, a imagem que conhecemos da África jamais é relacionada com referências a movimentos de cunho social ou cultural, como grandes escritores, quantidade de produção cinematográfica, ou até mesmo no nível mais científico. Esta imagem se desfaz com aqueles vídeos de crianças desnutridas em lugares tétricos, uma multidão que corre sem destino para fugir das bombas e das minas, milhares de mutilados, as rações humanas que são jogadas pelos helicópteros, os safáris e clãs tribais. Todas essas “matizes”, por assim dizer, acabam desvinculando a realidade da imagem vendida.
Certamente não estranhamos isso, pois estamos familiarizados com este tipo de marketing às avessas. O Brasil lá fora é visto como um aglomerado de latinos que falam espanhol, convivendo pacificamente com macacos que roubam turistas europeus e o carnaval de ano inteiro em Buenos Aires, sua capital. Contextos distorcidos para acentuar a desqualificação em favor de sobrepor superioridade racial, civilizatória e mesmo intelectual sobre outras culturas.
Em razão disso, aqui no Brasil, está em vigor a lei 10.639, que corrige essa problemática histórica, fazendo a inclusão do ensino de história e cultura africanas e afro-brasileiras nas escolas básicas. Sabemos que o ensino de História sempre privilegiou as culturas ocidentais, e quando citam as orientais, não menos, mostram uma rápida pincelada superficial sobre o extremo Oriente ou o Egito, descartando totalmente a idéia deste pertencer ao continente africano. Esse “erro arqueológico” vem desde a criação da chamada Egiptologia Clássica, onde as escolas francesas e inglesas vinculavam Egito à Ásia ou qualquer outra coisa e nunca à África, numa clara referência ao preconceito existente na época. Não menos que no século XVII, zoológicos ingleses exibiam negros e índios como exposição, trancafiados em jaulas.
Se faz mister desde já, que provemos os meios pelos quais se farão as verdadeiras revoluções nos pensamentos, indo contra toda forma de preconceito, sejam nos meios intelectuais ou no popular. Todos os afro-descendentes que constróem a diversidade cultural em seus “exílios” são mais mais quantitativos e representam uma agressiva realidade que não é mostrada nos telejornais ou novelas. Mama África ainda resiste!
artigo publicado no www.sarcastico.com.br
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Publicado em maio 1, 2009, em Colunas - Venus Genetrix. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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