Dia Mundial Sem Carro

Cuidado! Não vá esbarrar no prefeito!

Florianópolis, 22 de setembro de 2007 contempla pela sua infinita vez mais uma chamada à consciência da população e principalmente aos órgãos públicos. O Dia Mundial Sem Carros já é data oficial no calendário nacional e estadual, segundo Lei 12641/2003, pretende mobilizar os usuários de automóveis a questionar seu uso excessivo. Florianópolis, desta vez, vem com tríplice aliança: o Plano Diretor Participativo que entra em vigor a partir do ano que vem, a chamada “Operação Moeda Verde” que está em trabalho apurado sobre irregularidades no campo imobiliário especulativo ligado aos setores públicos e finalmente, Mobilidade Urbana, tema que começou a ser discutido desde a criação e implantação do Sistema Integrado de Transporte Coletivo na capital.

O Dia Mundial Sem Carro, que surgiu na França, poderia se chamar em Florianópolis, “Dia Municipal Sem Meu Carro”, fato que a cidade abriga 250 mil carros para uma densidade demográfica de 515 mil habitantes. Ou seja, em média são dois habitantes para um carro, um nível elevado em relação a maioria das cidades brasileiras e incongruente à situação social.

Às 10h da manhã deste sábado, cerca de 2.000 pessoas apreciavam as atividades populares no centro de Florianópolis, e mesmo com poucos carros nas ruas, ainda assim vimos como a cultura do volante é difícil de ser desapegada. Pendurar o carro no cabide não foi uma idéia geral nesta manhã. Pelo contrário, o SARCÁSTiCO acabou perguntando a um dos usuários automotivos que não quis se identificar, se via algum problema em vir de bicicleta para o centro. M. A. M., 35 anos, simplesmente respondeu que custou a comprar um carro e “qual seria a dúvida em não usá-lo… tenho mais que queimar gasolina!” De carro ou não, por outro lado, o SETUF (Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Florianópolis) ainda em tom irônico, tentou timidamente encampar defesa para o uso do ônibus: ” não gaste suor pedalando nem inflacione o trânsito com carros, adote um cartão tarifário!”

O SARCÁSTiCO entrevistou várias pessoas ligadas ao movimento ciclista e pôde constatar que além da propaganda em cima da consciência do “ecologicamente correto” e transporte alternativo sustentável, o rumo destas políticas públicas podem incorrer para outros fins. Ao mesmo tempo que é necessária e, de certa forma urgente, a atenção ao ambiente urbano, também alguns procedimentos ainda continuam incompatíveis como função social de mobilidade.

Alencar de Araújo, ciclista há muitos anos e morador do bairro Coqueiros, por exemplo, salienta que além das várias “vertentes” criadas dentro do movimento ciclista, existe uma desigualdade social muito grande. “Hoje ter uma bicicleta em Florianópolis é estar de acordo com a classe média que mora na beira-mar, classe A, tá vendo? Ou seja, é a elite que agora se apropria desse papel do ecologicamente correto, mais como um hobby do que como função social. Só que na verdade, a gente sabe que esse movimento, esse esporte, é muito mais que tudo isso, é simplesmente amor. Você acaba gostando muito mais de bicicleta do que de carro,” comenta.

Alencar admite que fabricar bikes hoje em dia virou um negócio da China, só que não aquela Popular. As nossas bikes populares vendidas em locais como hipermercados, comércios gerais são produtos quase que descartáveis em relação àquelas da loja especializada, com certeza com preço mais salgado. “Olha aquela bike ali,” exemplifica ele, “ela é importada, todas são, ninguém dá valor às nacionais… por quê? O Brasil é o segundo maior fabricante de bicicletas no mundo, e onde estão elas na cidade? A maioria que vêm de fora são de Taiwan,” finaliza.

De fato, num centro como o de Florianópolis, e em outras cidades antigas, as suas ruas não foram feitas para automóveis, muito menos para ciclistas! Há quem diga ainda a necessidade de voltarmos aos tempos do bonde puxado a mulas, num espírito quase primitivista.

Também estiveram presentes no evento, a profª Giselle Noceti Ammon Xavier, coordenadora do Grupo Ciclo Brasil, responsável pela inclusão da bicicleta na agenda das cidades e realização de vários fóruns ligados ao uso da bicicleta. Giselle, também como membro da ViaCiclo, estará idealizando nos próximos dias 23, 24 e 25 de Outubro, o 3º Encontro Nacional de Ciclotivismo que será realizado no Rio de Janeiro. O 1º Encontro foi em Florianópolis e o 2º em São Paulo, sendo o evento uma união Ciclo Brasil com a Viaciclo que unem-se para lançar novas iniciativas na mobilidade urbana.

Outro membro ativo na ViaCiclo, Luis Bevacqua, respondeu ao SARCÁSTiCO a pergunta se ele achava mais interessante para o despertar da consciência nos cidadãos sobre o uso racional e solidário do automóvel ou sua eliminação radical, através de mobilização popular direta ou um evento deste porte, institucionalizado? “As duas formas, né… mas com certeza uma participação em massa da população seria o ideal, nas ruas inclusive chamaria muito mais a atenção numa hora do rush ou happy hour das 17h do que num sábado de manhã.” Luis Bevacqua ainda lembra que em Veneza, Itália, por exemplo, “houve uma radicalização no plano diretor da cidade e conseqüentemente preservação do patrimônio histórico, as pessoas induzidas pelo senso comum barram no debate, mas depois de verem o resultado positivo, se deram conta da necessidade.”

Depois do espetáculo do Balé de Bolshoi, feiras de artesanato e outras atividades inteiramente ligadas à questão da mobilidade urbana, presenças indispensáveis no planejamento urbano na cidade como o prefeito Dário Berger, Ildo Rosa (IPUF) e Norberto Stroisch (Secretário de Transportes) deram um “molho” especial à manhã. Talvez a insistência de prosseguir com operações como o “Tapete Preto” de “urbanização” da cidade ou criação de uma política jurídica para impedir legislaturas em prol dos estudantes do Movimento Passe-Livre e certas manobras arriscadas (radicais) com “Moedas Verdes” não seriam muito contempladas nesta hora. Diante de vaias e aplausos, o prefeito de bicicleta, quase esbarrou em si mesmo.

Mais informações sobre o movimento ciclista:
BICICLETA COMO TRANSPORTE, evento aberto ao público no Auditório da FAPESC, Rodovia SC 401, Km 01 – módulo 12A – 5° Andar – Parque Tecnológico ALFA – Bairro João Paulo – Florianópolis/SC
Texto: Pablo Mizraji Foto: Pablo Mizraji

artigo publicado no www.sarcastico.com.br

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Publicado em maio 1, 2009, em Guerrilha Midiática. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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