Debate na UFSC chama o Prefeito

Movimentos sociais estão dispostos a dialogar

Era pra ser um confronto daqueles de vale-tudo, com platéia, com ringue e com juiz, porém, mesmo assim, com a esperada ausência do prefeito Dário Berger (PFL-PSDB-PSB, etc), o debate fortaleceu os comprometimentos e direcionou o que seria a nova jornada de lutas contra o aumento da tarifa.

Florianópolis, Auditório da Reitoria da UFSC, 14:00hs. Em torno de 50 pessoas participaram do debate público promovido pelo Comitê Contra a Reforma Universitária da UFSC. Participaram da pauta entidades comunitárias como a UFECO (União Florianopolitana das Entidades Comunitárias) e o Movimento Passe-Livre (MPL-Floripa). O repasse e a transferência das contas-salário dos servidores da capital, aumento de 10% da tarifa nos transportes e a política de gestão no plano diretor foram as linhas gerais do debate que não teve sequer um representante da administração. Chamado à convite das entidades, em carta aberta na mídia, a simples abstenção democrática começa lentamente a virar o jogo contra o próprio prefeito que já demonstra sinais de não-colaboração e responsabilidade quanto às questões mais emergenciais de seu mandato. Mandato este que, aliás, foi o filão preferido do atual prefeito, justamente o ponto em que se travavam o conflito da instauração da CPI dos Transportes, motivo pelo qual foi eleito.

Amplamente articulados, os membros da mesa iniciaram o debate apresentando as medidas de mobilização, do ponto de vista mais estratégico, nas ruas de forma a ampliar e ressuscitar a consciência sobre a necessidade de se repensar novas formas do plano diretor. Alternativas que, mesmo paliativas, melhorariam a condição de vida que literalmente é calamitosa na cidade. O MPL pautou o diálogo em cima das fases históricas do movimento e reiterou que, sob a análise da municipalização do transporte coletivo, as dificuldades sempre estarão presentes. Neste sentido, a própria Operação Moeda Verde acabou ajudando a guerra contra a tarifa, fazendo aumentar o nível de insatisfação popular contra as decisões da prefeitura.

Dentre as medidas e objetivos a serem tomados daqui em diante, estão: a) a suspensão imediata do último aumento da tarifa, dado no dia 28/06 que passou de 1,80 para 1,90 e 2,10 para 2,40; municipalização da COTISA, empresa responsável pela consórcio das empresas de ônibus que administram os terminais integrados.

O MPL defende que o modelo de gestão atual encontra-se num patamar explicitamente esgotado e que não há outra saída para a administração senão a de reestruturar radicalmente os projetos concernentes ao crescimento urbano. Já a UFECO, tem demonstrado profunda indignação sobre as políticas públicas e expõe o desinteresse político representativo sobre a questão do transporte coletivo, baseado no acompanhamento das gerações de lutas contra a privatização pelas empresas, as famigeradas licitações e seguidos aumentos da tarifa, desde suas origens ainda no governo da antiga prefeita Ângela Amin. De forma geral, os movimentos tem tentado dialogar também com a esfera dos sindicatos, onde têm conseguido boas margens de negociação. O Sintraturb, por exemplo, apesar de retroceder em alguns pontos, no aspecto geral vem conquistando a consciência dos próprios motoristas e cobradores a embarcarem na luta contra a exploração pelo capital, não somente do patronato como também do usuário final.

O debate seguiu com uma inferência à atuação da polícia militar na questão sobre o aparato repressivo aos movimentos sociais. Nesta hora, houveram contradições e concordatas quanto à natureza do papel da polícia. Um dos argumentos mais aceitos foi feito por Juliano, aluno e membro do Ceart da UDESC, que fora preso na última manifestação na cidade, dia 31/06. Ele expôs que o papel principal do estado de coerção é o da intimidação. Enquanto na época da ditadura, os meios pelos quais se faziam as apreensões e torturas eram ainda, de certa forma, ocultados pelo Estado, hoje, vemos uma declaração explícita de princípios fascistas em plena luz do dia. Antes camuflada, agora exercida deliberadamente. O que chamamos de criminalização dos movimentos sociais, é na verdade uma inverdade, porque os próprios movimentos já estão criminalizados. Aquilo que se propõe a máquina repressora do Estado é justamente a violência direta contra os manifestantes em particular, como têm ocorrido ultimamente. “Identifica, prende, espanca”, eis a lógica trial da PM, usufruindo da metralhadora jurídica do Estado.

A OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) em nota, sob o representante dela na promotoria em Florianópolis no Dr. Alexandre Herculano Abreu recomendou à PM a execução de prisões em massa durante as manifestações populares, num evidente enclave totalitário. Esta ação licensiosa está respaldada pelo Ministério Público desde que se operou o primeiro dia de manifestações. Segundo ele, “manifestações não podem ocorrer nas ruas”, num grave ato contra o principal direito do civil de manifestar-se, garantido constitucionalmente, ainda num período mais repressor do que vivemos.

Finalmente, deu-se às 17:00hs o encerramento com opiniões dos presentes que tomavam a vez de exporem suas idéias e reinvidicações e o compromisso com mais atividade e mais revolta popular nas ruas. Entre as perspectivas de novas ações diretas, está programado um grande ato, na linha de ultimato ao prefeito, na próxima quinta-feira (dia 14/06).

Entrevista com Marcelo Pomar, MPL-Floripa:

Sarcástico: Marcelo, desde 2005, vemos crescer lentamente uma certa tendência de mobilizar as ações políticas no sentido de discutir um possível impeachment do prefeito Dário Berger. Como se está tratando esta questão?

Marcelo Pomar: Bom, na verdade, já temos iniciado o processo com a preparação de um abaixo-assinado que consta já nas mãos de alguns populares.

Sarcástico: Mas existe algo em andamento além disso, algum efetivo na Câmara, por exemplo?

Marcelo Pomar: Sim, mas ainda em processo, pois primeiro temos que contar com uma ampla participação popular e conseguir nas ruas, depois essa petição se encaminha para os responsáveis.

Sarcástico: Uma outra alternativa de transportes na capital não seria mais uma forma de monopolização por parte dos empresários?

Marcelo Pomar: Com certeza, já pensamos sobre isso, e não há dúvida que isso possa realmente acontecer. Mas, se pensarmos que ao criarmos novas formas de viabilização dos transportes, podemos ter muito mais opções no que se restringe à escolhas, e que portanto, várias escolhas acabam minando a possibilidade de criarem-se centralizações privadas e oligárquicas. Nisso, a população ganha. Transporte marítimo, ciclovias e reestruturação do modelo rodoviário são probabilidades que descentralizam a gestão única de transporte coletivo dos ônibus.

Sarcástico: Você não acha que através das gerações de lutas, como você bem colocou, as táticas de mobilização popular não devem ser repensadas? A máquina repressora acaba se tornando cada vez mais experiente e familiarizada com este tipo de movimento.

Marcelo Pomar: Exato. Vemos que a partir das últimas semanas temos progredido no sentido de trazer ao senso comum não somente as táticas de uso das ruas como também das idéias e da participação direta democrática. Uma parcela da população já posiciona contra muito da postura do prefeito e isso nos ajuda em combater de frente. Mesmo assim, as manifestações nas ruas não vão parar e é um direito nosso do qual jamais abriremos mão. Foi-nos arrancado com suor e muita luta durante a ditadura e não é agora que ficaremos encolhidos.

Sarcástico: Um parecer geral das atividades na próxima semana.

Marcelo Pomar: Esta semana foi prejudicada e aceitamos as dificuldades que tivemos de mobilizar, devido ao feriado, ao jogo de decisão (sic) e outras coisas, mas na próxima quinta-feira, estamos preparando um grande ato na frente do TICEN, um ultimato ao prefeito, e apostamos nisso.

artigo publicado no www.sarcastico.com.br

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Publicado em maio 1, 2009, em Guerrilha Midiática. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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