Cineclubes: uma história em produção – 1

Como o movimento cineclubista começa a sair das salas universitárias

Quando os irmãos Louis e Auguste Lumière deram a luz às primeiras imagens num telão na sala do Grand Café, em Paris, também estavam sendo protagonistas de uma nova era cultural e social. Desde então, o berço do cinema, como era de se esperar, ficou limitado entre o Velho Mundo e a América, não-latina. Mas foi na França, onde tudo havia começado, mais precisamente em 1920, que o cineasta e crítico Louis Delluc criou o nome “cineclube” ao lançar, em 14 de janeiro, o semanário Le Journal du Cinê-Club, ou simplesmente Ciné-Club.

Já no Novo Mundo, o primeiro filme rodado em Santa Catarina, data de 21 de abril de 1900, no Vale do Itajaí. A obra dirigida pelo imigrante italiano José Julianelli, “Vistas de Brusque, Itajaí e Arredores” foi projetada, segundo o jornal “A República” de 02 de setembro de 1900 em Florianópolis com o título “Viagem para o Egito e o Estado de Santa Catarina” e no Teatro Fruhsinn de Brusque.

Até os anos 80, a produção catarinense permanecia estagnada. É quando surge a Cinemateca Catarinense, reunindo artistas e pesquisadores ligados à atividade audiovisual. Em seguida, dá-se a criação do Fundo Municipal de Cinema de Florianópolis (FUNCINE) que tinha como função, incentivar a produção cinematográfica, promovendo a divulgação e participando conjuntamente das produções com infra-estrutura própria.

Com o advento do movimento cineclubista, Santa Catarina ocupa um lugar ao sol por excelência em matéria de cineclubes, principalmente em relação a seus estados circunvizinhos. Além disso, desenvolve uma particular estabilidade produtiva, apesar de não haver uma popularidade ideal. É o caso dos cineclubes Sol da Terra, Cineclube Rogério Sganzerla, Plasticine Clube, Sopão de Filmes, Cineclube BADESC e Nossa Senhora do Desterro (o mais antigo, com sede no Centro Integrado de Cultura), assim como muitos outros espalhados pelo estado. Esse movimento cineclubista na capital teve origem na própria Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1968, onde foi fundado o primeiro evento que foi chamado de “Cineclube da Engenharia”. Este fato deu inicio a um autêntico movimento cineclubista. O idealizador deste movimento foi o estudante de Engenharia Civil Gilberto Gerlach que buscava realizar um estudo do cinema e uma formação cinematográfica do público em geral através de filmes clássicos e modernos.

O primeiro filme exibido foi “A Besta Humana”, do francês Jean Renoir, de 1938, inspirado na obra naturalista de Èmile Zola. A partir de 1972, o cineclube passou a se chamar “Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro”, em homenagem ao antigo nome da cidade de Florianópolis que havia sido expropriado autoritariamente por Floriano Peixoto e, aludindo à própria ditadura militar vigente. Hoje, o “cinema do CIC”, como é conhecido, é uma das sedes do cineclube onde exibe cinema alternativo com sessões diárias, com ciclos do cinema mundial e festivais de diversos países como França, Alemanha, Japão, Espanha e outros. A outra sala de cinema sob os cuidados de Gerlach fica em São José, na Grande Florianópolis. É o Bar Cine York, que associa bar e cinema ao estilo europeu, com uma decoração histórica sobre a cidade e cartazes do cinema francês.

Os cineclubes, de modo geral, foram responsáveis pela formação cinematográfica de vários cineastas, dentre os quais podemos citar Glauber Rocha, Cacá Diegues, Jean-Luc Godard e Wim Wenders. De fato, é inquestionável o processo de amadurecimento e respeitabilidade do movimento cineclubista no país. Sendo um movimento crescente em todos os estados, ele surge das salas universitárias para as casas populares, projetando vídeos culturais e políticos, cinemas de rua, promovendo debates e incentivando novos formadores cinematográficos.
O cinema brasileiro vive hoje uma conjuntura totalmente diferente quando da criação dos cineclubes, o que permite que setores culturais possam compor uma teia articulada de formas cada vez mais organizacionais. A cada passo que é dado, o dilema espaço/finança torna-se mais viável. Não por acaso, o Conselho Nacional de Cineclubes (CNC) foi rearticulado no ano de 2003 com ampla representatividade no país.

Não obstante, em Santa Catarina, a história dos cineclubes acabou forjando uma corrente mais autônoma do que outros estados, como é o caso dos clubes Cinemídia (Se Essa Mídia Fosse Minha), Sopão de Filmes e o Plasticine Clube. Nessas novas possibilidades de compromisso mais social e político e, é claro, cultural, esses projetos independentes deram uma revificação no processo da democratização e desalienação antes instalada.

Texto: Pablo Mizraji Florianópolis, 20 de dezembro de 2007
artigo publicado impresso no Circuito em Construção, Seminários Estaduais para a auto-sustentabilidade cineclubista 2008, p. 175

Anúncios

Sobre pmizraji

Caput necandus est. Cadaver acqua forti dissolvendum nec alicquid retinendum. Tace ut potes.

Publicado em maio 1, 2009, em Cultura. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: